Skip to main content

Full text of "Revista de sciencias naturaes e sociaes"

MfèS 




KftfHHU 



êUHMfl 



REVISTA 



DE 



Sciencias Naturaes e Sociaes 



REVISTA 



DE 



Sciencias Naturaes e Sociaes 



JP TJ -B ILi I O A ÇJ .A. O TRIMESTRAL 



DIRECTORES 

WENCESLAU DE UMA 

Director da Eschola Medico-Cirurgica do Porto 

RICARDO SEVERO ROCHA PEIXOTO 

Engenheiro civil Naturalista adjunto ao Gabinete de Geologia 

da Academia Polytechnica 



VOLUME IV 




ORTO 



TYPOGRAPHIA OCCIDENTAL 

8o, Rua da Fabrica, 8o 



896 



ÍNDICE 



MEMORIAS ORIGINAES 

ARCHEOLOGlA 

Pag. 

FIGUEIREDO DA GUERRA. —A estatua callaica de 

Vianna 192 e 194 

MARTINS SARMENTO. — Historia para a archeologia 

do districto de Vianna 23, 35 e 146 

A propósito das estatuas callaicas .... 181 

A estatua do pateo da morte 189 e 191 

SANTOS ROCHA. — A arte nas estações neolithicas dos 

concelhos da Figueira 1 

Necropole prehistorica da Campina nas visi- 

nhanças de Farp 57 

A necropole prôtohistorica da Fonte Velba, em 

Bensafrim, concelho de Lagos 145 

O rito da inhumação nos dolmens da Serra do 

Cabo Mondego 179 

KTHNOGRAPHIA 

ADOLPHO COELHO.— Tradições populares portugue- 

zas. A caprificação n3 

CRYSTAI. LOGRA PH1A 

ALFREDO BENSAUDE.— Alguns tópicos de uma theo- 

ria das anomalias ópticas dos crystaes ... 73 

ZOOLOGIA 

PAULINO DE OLIVEIRA - Eastonia Locardi, n. sp. . 3a 



vi índio: 



líOTANICA 



Pag. 

GONÇALO SAMPAIO. —Estudos de flora local. Vas- 
culares do Porto. . » i5o e 202 



VARIA 

MELLO DE MATTOS. — Questões aquicolas. ... 40 e io3 
PAUL CHOFFAT. — Nouvelles eludes sur la géologie 

du bassin du Gongo 34 

SANTOS ROCHA.— Notas archeologicas. .... 53 



BIBLIOGRAPHIA 

D. LUIZ DE CASTRO. — Proditclos agrícolas das colo- 
nias portuguezas (Bibliotheca do Portugal 
oAgricola). de Rocha Peixoto 161 

ROCHA PEIXOTO. - O archeologo porfuguei. . . 55 

Promenade au Gere^. Souvenirs d\in géolo- 

gne, de Paul Choffat 107 

Coup d^oeil sur la géologie de la province 

ftdkngola, de Paul Choffat 107 

Opistobranches du Portugal, de Paulino de 

Oliveira 108 

Herpetologie d J oA ngola et du Congo, de Bar- 

boza du Bocage 109 

T^évision de la faxine malacologique des íles 

de St. Thomé et du Prince, de Albert Girard. . 110 

■ . Déscriplion de deux Enea nouveaux de Vxle 

Fernando Pó, de Albert Girard 110 

Mémoire sur un poisson des grands profondeurs 1 10 

de Vdktlantique, le Saccopharynx ampullaceus 
et observations sur /'Halargyreus Johnsoni, de 

Albert Girard no 

Segundo appendice ao Catalogo dos peixes de 
Portugal, de Félix Capei lo, de Balthasar Osó- 
rio ... . . Hl 



ÍNDICE VII 



'a |i. 



ROCHA PEIXOTO. — cA ntiguidades prehisloriças do 

concelho da Figueira, de Santos Rocha. . i5<j 

%S£ote sur lexistence d'anciens glaciers dans 
la vallèe du (Mondego, de Nery Delgado . . 160 

Note sur les tufs de Condeixa et la découverte 
de V hyppopotame en Portugal, de Paul Choffat 161 

Congresso vitícola nacional de i8ç$. Relató- 
rio geral da Real Associação central da agri- 

cultura portugueza .i . 2o3 

Reptis e amphibios da península ibérica e es- 
pecialmenle de 'Portugal, de M. Paulino de 

Oliveira 204 

Analcime. Sa constilution, de Charles Lepierre 206 

WENCESLAU DE UMA. — La géologie comparée, de 

S. Meunier 106 



NOTICIAS 

ROCHA PEIXOTO — Ostreicultura i63 

A pesca a vapor 166 

O museu municipal da Figueira 206 

O museu do Instituto de Coimbra .... 209 

Um laboratório maritimo nos Açores ... 210 



OS MORTOS 

ROCHA PEIXOTO. - Marquez de Saporta .... 2i3 

Possidonio da Silva . 214 



REVISTA 



DE 



Sciencias Naturaes e Sociaes 



PUBLICAÇÃO TRIMESTRAL 



DIRECTORES 

WENCESLAU DE LIMA 

Director da Eschola Medico-Cirurgica do Porto 



RICARDO SEVERO 



Engenheiro civil 



ROCHA PEIXOTO 

Naturalista adjuncto ao Gabinete de Geologia 
da. Academia Polytechnica 



Volume quarto — N.° 13 



(11 SERIE — N.° 5) 




PORTO 

TYPOGRAPHIA OCCIDENTAL 
80, Rua da Fabrica, 8o 

189S 



SUMMARIO 



MEMORIAS ORIGINAES 

cA arte nas estações neolithicas do concelho da Figuei- 
ra, por Santos Rocha . . . pag. i 

íMateriaes para a archeologia do districto de Vianna, por 

F. Martins Sarmento pag. 23 

Eastonia Locardi, n. sp., por M. Paulino cTOliveira . . pag. 32 

VARIA 

V^ouvelles eludes sur la géologie du bassin du Congo, 

por Paul Choffat pag. 34 

Questões aquicolas — (Resposta a uma apreciação), por 

Mello de Mattos pag. 40 

V^iotas archeologicas, por Santos Rocha. . . . . . pag. 53 

BIBLIOGRAPHIA 

Revistas. O Archeologo Portuguez, por R. P pag. 55 



REVISTA 



DE 



SCIENCIAS NATURAES E SOCIAES 



A ARTE 



ESTAÇÕES NEOLITHICAS DO CONCELHO DA FIGUEIRA 




xistiu a arte na epocha neolithica? O snr. Mortillet 
nega-o formalmente. 

Todavia, na sua obra Le Préhistorique, trata 
largamente da architectura dolmenica, e men- 
ciona na epocha neolithica muitas variedades de pontas de 
setta e de dardo, algumas que elle próprio considera muito 
bellas, os punhaes de silex da Scandinavia, que reputa ver- 
dadeiras obras primas, muitas e bellas louças ornamentadas, 
variados adornos do corpo e áté a representação de hachas 
e do pé humano ; e tudo isto é do domínio da arte, no rigo- 
roso sentido da palavra. De facto, as pontas, os punhaes e 
outros instrumentos e utensílios seriam egualmente úteis e 
apropriados aos seus fins sem a pureza de trabalho e ele- 
gância das formas que rTelles nota o illustre paleoethnologo: 
as louças não careciam de ornamentação, nem o corpo hu- 
mano de collares e de braceletes. O rude fabricante procu- 
rou n'elles mais alguma cousa do que a utilidade : procurou 
o bello, tal como podia então comprehendel-o e executal-o. 

VOL. iv ± 



REVISTA DE SC1ENC1AS 



«L'art, dizem Elie Pecaut e Ch. Baude, c'est tout ce 
que ne sert à rien qu'à être gracieux, ou beau, ou admira- 
ble. Cest ce que Phomme fait de beau, uniquement pour le 
plaisir de faire une belle chose». Ora o bello não existe só 
na imitação e interpretação da natureza. Pôde contestar-se 
a belleza do Pateo dos Leões ou da Sala dos Abencerragens 
da Alhambra de Granada? Cremos que não; e comtudo alli 
a linha geométrica rege toda a construcção e toda a decora- 
ção ! Todos reconhecem que existiu uma arte árabe, exal- 
tada com justa razão pelo insigne Le Bon : e todavia o pe- 
ríodo mais brilhante d'essa arte foi quando a linha geomé- 
trica predominou nas suas obras. 

Para nós os simples dentes de lobo ou linha em zigue- 
zague e as linhas em xadrez ou losango, que se encontram 
nas louças e nas placas de suspensão neolithicas, sendo mo- 
tivos de decoração, pertencem tanto ao dominio da arte 
como as imitações da flora e da fauna nas obras do antigo 
Egypto. Esses ornatos, embora singelos e grosseiros, encon- 
tram-se até nas obras d'arte phenicias ; e os que estudam 
esta arte não hesitam em comprehendel-os na esphera das 
artes decorativas, como expressão d^m sentimento esthe- 
tico. 

Na introducção da monumental obra Histoire de Part 
dans Vantiquité, de Perrot e Chipier, ao passo que se nega 
sentimento artistico nas obras do homem primitivo, fallan- 
do-se da esculptura das cavernas, diz-se : — «En eífet, si là 
Phomme decore de figures d'animaux le manche de ses ou- 
tils et ces objets que l'on a nommés, un peu au hasard, des 
batons de commandement, ce n'est pas par necessite, 1'ins- 
trument ne devenant pas plus efficace et plus commode par 
le fait de cette ornamentation ; c'est pour se donner un plai- 
sir et un luxe. . .» Ora se este prazer e este luxo, que nada 
accrescentam á utilidade do objecto, fazem entrar as repre- 
sentações da natureza viva na esphera da arte, não podem 
excluir d^sta as decorações de phantasia. E 1 o que aquel- 



NATURAES E S0C1AES 



!es auctores na verdade reconhecem, quando dizem : «Vers 
la fin de ce que l'on appelle Vage prêhistorique, le gout de 
Pornement est fort développé; mais cet ornement appartient 
tout entier à ce que Pon appelle la décoraiion gêomélrique. 
Le règne vegetal lui-même n^ fourni presque aucun motif. 
Comme Feffort tente par Phabitant des cavernes pour co- 
pier les formes animées, cette décoration prouve, elle aussi, 
que ceux qui Pont imaginée et qui en ont fait souvent un 
heureux emploi ne se contentaient pas de Putile, mais qu'à 
leur manière et dans la mesure de leurs forces ils cherchaient 
le beau. Un secret instinct les travaillait et leur inspirait le 
désir de donner aux objets dont ils se servaient une certaine 
élégance. Cest encore Part qui commence, ou plutôt qui 
recommence ; mais, cette fois, pour ne plus se perdre et s'in- 
terrompre, pour durer et se relier aux développements fu- 
turs. Les procedes et le style de la décoration géométrique 
presistent dans toute PEurope centrale, jusqu'au temps oú 
d'abord les relations commerciales entretenues avec la Grèce 
et PEtrurie, puis plus tard la conquète romaine, feront par- 
tout pénétrer et prévaloir les méthodes et le gout de Part 
classique». 

Mas que a plástica não é estranha á arte neolithica pro- 
vam-n'o as imitações das hachas, como nas fig. as 442.* e 58o.* 
do Musée ^Prêhistorique dos srs. Mortillet, e as representações 
de pé humano e de outros objectos da natureza descobertos 
até ao presente. O sr. Gartailhac, que na sua obra sobre a 
prehistoria da Hespanha e de Portugal affirma que a arte na 
epocha neolithica não reprodu\ a natureza viva, desviando- 
se assim da these absoluta do sr. Mortillet, é o próprio que 
nos fornece dados em contrario do seu asserto. Referindo-se 
á cerâmica encontrada na Cueva de la Mujtr (Hespanha), 
cita um fragmento desenhado por Mac-Pherson, cuja orna- 
mentação descreve n'estes termos : — «au-dessus d'une bande 
de pointillé, il offre un dessin assez analogue aux représen- 
tations du soleil de Pimagerie populaire; des rayons circons- 



REVISTA DE SClENClAS 



crivem un cercle dans lequel sont trois points en triangle, le 
tout rapellant, avec beaucoup de bonne volonté, une figure 
humaine. Ce qui rendrait cette hypothèse vraisemblable, 
c'est que les yeux sont incrustes d'une paillette de mica». 
xMais adiante representa uma pedra esculpida em forma de 
hacha encabada, existente no Museu de Lyon, que contem 
uma figura humana, e outra do Museu da Universidade de 
Coimbra que contem uma figura de animal, assim como um 
vaso de barro também com a configuração d'um animal, 
proveniente da caverna de Carvalhal. 

Duvida-se que estas três ultimas peças sejam da epocha 
neolithica ? Pois bem: aqui temos outras. No Musée Pré- 
historique dos srs. Mortillet a Hg. 52i. a reproduz uma ca- 
beça de moca, feita de pedra, verdadeiramente neolithica, 
que representa n'uma extremidade a cabeça d'um animal ; a 
flg. 58i. a duas gravuras da planta do pé humano, feitas no 
supporte d'um megalitho ; e a flg. 58o. * três gravuras que 
manifestamente representam serpentes, encontradas em ou- 
tro megalitho. 

Que diremos então d^essas celebres esculpturas em re- 
levo nas paredes d'algumas grutas da Marne, em que os 
sábios teem visto não só a figura humana, mas o sexo fe- 
minino e até uma divindade ? ! O sr. barão de Baye, na sua 
obra UArchéologie Préhistorique, descreve uma d'ellas por 
estas palavras : tLe nez est Porgane le plus énergiquement 
accusé, sans proportion avec le reste de la figure, ébauchée 
de la façon la plus naíve. Au bas de la figure et comme pour 
en déterminer le contour, ou voit un collier ; la partie mé- 
diane se compose d'un grain d^ne grande dimension, jouant 
en quelque sorte le role d'un médaillon. Sur la partie cen- 
trale du sujet, une hache emmanchée est représentée en 
relief». 

D'outra diz o seguinte: a La tête est circonscrite par 
une courbe considérable dessinant la région frontale et les 
deux cotes de la face. Le nez, dont la proéminance est frap- 



NATURAES E S0C1AES 



pante, joue un role démesurément exagere dans cette figure; 
la glabelle n'a pas été indiquée. II prend sa naissance au 
centre de la ligne courbe qui donne les contours du front et 
des árcades sourcillières, puis il descenda une petite distance 
du collier qui décrit la figure dans sa partie inférieure. De 
chaque côté, à la partie supérieure du nez, les yeux sont fi- 
gures par deux points noirs fort réduits et mal proportionnés 
avec la grandeur de la figure. Ils ont été formes par Pintro- 
duction d'un corps noir dans deux trous pratiques dans la 
craie». Em seguida descreve o collar e os dois seios que es- 
tão representados n'esta figura. 

Mais duas d'estas esculpturas, embora menos comple- 
tas, existem nas referidas grutas; e auctoridades como Broca 
e Bellucci não duvidam considerar três d'ellas como repre- 
sentações d'uma divindade feminina, o que dá em resultado 
a existência d'uma arte religiosa. 

Semelhante á mais rudimentar dessas esculpturas cita 
o sr. de Baye outra do megalitho do bosque de Bellehaye, 
descoberta por M. Brongniart, e muito semelhante a uma 
das mais completas; é a do megalitho de Collorgues, próximo 
de Uzés (Gard), descripta e representada pelo mesmo escri- 
ptor, que conclue por estas palavras: «Cette evidente ana- 
logie entre deux sujets provenant de localités si éloignées est 
éminemment digne de remarque. Au point de vue de 1'art, 
il existe une commune inspiration. Les deux représentations 
visaient un même but, elíes avaient une pareille destination. 
Elles indiquent une origine identique, un rapport réligieux, 
ou, au moins, une fréquentation certaine». 

Mas ha ainda outra mais recentemente descoberta no 
megalitho do bosque do castello da Garenne, a dois kilome- 
tros d'Epône (Seine-et-Oise), de que o sr. Cartailhac deu no- 
ticia em 1894 á Academia das Inscripções e Bellas Letras de 
Paris. A Revue encyclopédique (4. anno, n.° 92, pag. ^07), 
que relata este importante acontecimento, dá as indicações 
seguintes : — «la représentation d'une figure humaine réduite 



REVISTA DE SC1ENC1AS 



à sa plus simples expression, mais absolument reconnaissa- 
ble avec le front, le nez, le contour du visage, puis, un col- 
lier à trois rangs de grosses perles, et au-dessous, des seins 
petits, rapprochés et saillants. Nous avons donc là un nou- 
vel exemple de ces images que Ton considere comme repre- 
sentant des divinités féminines, signalées, il y a vingt ans, 
par M. de Baye, dans les grottes artificielles de la Marne». 

Sem sahir da obra do snr. de Baye não faltam exempla- 
res em favor da nossa these. Lembraremos apenas uma her* 
minette, que elle cita como existente no museu de Stockolmo, 
feita de chifre de veado, que apresenta uma figura com as 
formas nítidas d'este animal. 

De resto, o illustre explorador do Marne não inclue só 
as referidas esculpturas de divindades e as das hachas no 
domínio da arte: também as obras aprimoradas de muitas 
peças do mobiliário neolithico. Referindo-se, por exemplo 
ás pontas de setta, diz: «L'ouvrier y affirme un art incon- 
testable et une grande habilite». 

As explorações archeologicas em Portugal não teem sido 
absolutamente estéreis quanto a representações artísticas das 
cousas da natureza na epocha de que tratamos. No jazigo 
neolithico da Folha dos Barradas, encontrado dentro da 
quinta regional de Cintra, descobriu o sr. Carlos Ribeiro 
uma interessantíssima peça de calcareo, a que chamou clava, 
que, entre outros ornatos puramente geométricos, apresenta 
esculpida, em relevo, a figura do crescente ; e em um dolmen 
de Alcalá, que pertence ao fim do neolithico, como se in- 
fere da presença d'uma lança de cobre no meio dos artefa- 
ctos de pedra, encontrou o sr. Estacio da Veiga uma la- 
mina de schisto branda, tendo esculpida em relevo uma fi- 
gura humana a meio corpo, com a cabeça coberta por um 
objecto de forma cónica, segundo refere o distincto explora- 
dor do Algarve e parece verificar-se pelo desenho que elle 
publicou. 

É, pois, licito affirmar, em face dos dados colligidos 



NATURAES E S0C1AES 



até hoje, a existência d'uma arte neolithica, que, em logares 
muito distantes, se elevou até á imitação da natureza viva e ás 
concepções religiosas. N essas esculpturas da divindade, a 
que nos referimos, está sem duvida já manifestado o gérmen 
do anthropomorphismo, que mais tarde, em epochas histó- 
ricas, provocou as bellas obras de esculptura religiosa da 
Grécia e de Roma. 

Os próprios dolmens, com a sua estreita galeria d'ac- 
cesso e a sua sala, soterrados em montículos, são talvez 
uma imitação das grutas que a natureza offerecia ao homem 
primitivo para sua habitação ou para guardar os seus mor- 
tos. Sem duvida a sua ignorância não lhe permittia construir 
d'outra maneira com semelhantes materiaes e sem o auxilio 
de instrumentos de metal : e por isso não seria por mero 
gosto d'imitação que elle preferiu aquella forma a outra qual- 
quer. Só um sentimento artistico muito desenvolvido podia, 
com o auxilio dos metaes, levar muito mais longe as imita- 
ções da natureza na architectura, como aconteceu em povos 
históricos, taes como os egypcios, entre os quaes a columna 
parece já representar o tronco das arvores, e muitas vezes 
representa um feixe de hastes de lodão, cujos botões, aper- 
tados por um laço, se reuniam para formarem o capitel (lo- 
tiforme), e onde o capitel campaniforme chegou a transfor- 
masse em palmeira ; ou como os gregos, que não só reves- 
tiram o capitel corynthio de folhas d'acantho, mas, segundo 
certas tradições, representaram, nas caneluras dos fustes, as 
pregas dos vestidos, e, nas volutas jónicas (*), os toucados 
das matronas gregas. 

Entretanto, na essência, parece predominar em uns e 
outros factos a influencia da natureza, que é o factor prin- 
cipal para aquelles que consideram a arte sob um ponto de 
vista restricto. 

(*) É certo, porém, que as volutas jónicas já apparecem indica- 
das nas esculpturas antiquíssimas dos rochedos da Cappadocia. Perrot e 
Chipier, cit., tom. 6.°, pag. i5. 



8 REVISTA DE SC1ENC1AS 



N^quella tosca architectura do homem neolithico pode- 
ria até notar-se uma certa representação do pavimento ro- 
choso e das abobadas naturaes das grutas. 

Não são raros, tanto nos paizes estrangeiros como em 
Portugal, os dolmens com o pavimento interior feito de la- 
ges. Nós já temos descoberto três; e um d'estes, o da Ca- 
becinha, encontrado na Serra das Alhadas, está hoje recons- 
truído no pateo do Museu Municipal da Figueira. No Al- 
garve (necropole de Alcalá), em dolmens, que pertencem 
talvez á aurora do cobre, descobriu o sr. IJstacio da Veiga 
cryptas formadas por camadas horisontaes de placas de 
schisto, que, tornando-se gradualmente salientes, apresenta- 
vam na face interna da construcção uma curva que dava 
ideia da abobada de silhares divergentes, abobada que ap- 
parece aperfeiçoada e completa em certos monumentos dos 
tempos heróicos da Grécia. 

Diminuído por essa curvatura o espaço a cobrir, o cons- 
tructor aproveitava para a mesa do monumento algumas la- 
ges mais pequenas do que as exigidas pelo emprego de sup- 
portes monolithicos. 

Advertiremos, comtudo, que se esta rudimentar abobada 
já é privativa dos primeiros alvores do cobre, não o é a sub- 
stituição dos supportes monolithicos por muros d'alvenaria 
secca. 

Nós encontramos um megalitho, pertencente ao neoli- 
thico puro, em que parte da camará era fechada por um 
desses muros. 

Mas seja como for, o que parece manifesto, pelo menos, 
é que o espirito humano já então procurava por esses pro- 
cessos simplificar o trabalho, evitando o emprego dos gran- 
des e pesados monolithos, e ao mesmo tempo tornar as 
construcções mais proporcionadas com os materiaes, e, por 
conseguinte, menos desgraciosas. 

Pôde dizer-se que as mais interessantes manifestações 
da arte neolithica, isto é, as que tendiam a reproduzir a na- 



NATURAKS E SOClAES 



tureza viva, não teem apparecido em grande numero, e as- 
sim não apresentam um certo caracter de generalidade, como 
as que se limitavam á decoração geométrica. Mas, sendo a 
paleoethnologia uma sciencia muito moderna, é já bastante 
que ella nos offereça exemplares desde a Scandinavia até ao 
sul da Península Ibérica, e que entre esses exemplares figu- 
rem sete esculpturas de divindades femininas, todas do 
mesmo typo fundamental e provenientes de logares diversos. 
Estes precedentes felizes auctorisam ar esperar resultados 
futuros mais abundantes. 

Se vinte annos mediaram entre a descoberta das quatro 
esculpturas das grutas da Mame e a da ultima que mencio- 
námos, hoje, que a febre das explorações archeologicas vae 
tomando incremento por toda a parte, pôde o acaso n'um 
momento multiplicar os desejados thesouros da arte primi- 
tiva. 

Pela nossa parte vamos fazendo quanto podemos para 
tentar a fortuna. Algumas legoas de terreno teem já sido 
methodicamente exploradas por nós ; e, se ainda não fomos 
recompensados por uma dessas emoções que produzem as 
grandes descobertas, tivemos pelo menos o prazer de reco- 
lher por nossas próprias mãos alguns objectos que reputa- 
mos de muito interesse para a questão que se debate. 

Nós vamos occupar-nos d'e!les antes de tratarmos das 
outras manifestações artísticas que são communs a quasi 
todas as estações neolithicas. Não se pense que temos a pre- 
tensão de fundar theorias : queremos apenas reforçar o as- 
serto de Estacio da Veiga, que ha alguns annos proclamou 
a existência d'uma arte neolithica em Portugal, manifestada 
nas decorações e na reproducção da forma humana. 

Nenhuma opinião antecipada nos guia na interpretação 
d'esses objectos : n'este momento ainda sentimos em face 
d'elles as mesmas impressões que nos causaram á primeira 
vista. 

Se alguma opinião antecipada tínhamos, quando os des- 



IO REVISTA DE SC1ENC1AS 



cobrimos, era a de que não existira a plástica na epocha de 
que tratamos, como tínhamos lido nos mestres; e foi porque 
as nossas impressões estavam em diametral opposição com 
esta these que procuramos indagar se na archeologia pre- 
historica não haveria exemplos de reproducção artistica das 
formas animaes na referida epocha. 

Pôde ser que interpretemos erradamente os nossos acha- 
dos, e que a verdade esteja muito longe de nós. Mas em- 
quanto não nos demonstrarem que nos nossos exemplares 
não existem os principaes caracteres anatómicos, que devem 
decidir e sempre teem decidido n'esta matéria, e emquanto 
não nos provarem que ha n'elles menos semelhança com a 
forma humana do que n'aquelles em que sábios de primeira 
ordem teem reconhecido essa forma, nós não podemos con- 
vencer-nos do nosso erro. 



Na segunda parte do livro que estamos publicando so- 
bre as antiguidades prehistoricas do concelho da Figueira já 
dêmos noticia d'uma lasca de silex retocada, proveniente da 
estação neolithica da Várzea de Lirio, representando um 
perfil da cabeça humana; e advertimos desde logo que o de- 
senho que offereciamos d'esse objecto não reproduzia com 
exactidão o original. Todas as pessoas que viram este, são 
perfeitamente concordes em que existem n'elle os caracteres 
anatómicos que determinam uma semelhança notável com a 
figura humana; o que é muito importante para a classifica- 
ção do objecto, porque todos esses caracteres lhe foram da- 
dos pelo trabalho dos retoques, e, por conseguinte, pela mão 
do homem. Alguns, porém, não concluem da semelhança 
anatómica que a forma fosse intencional, isto é, que fosse 
uma manifestação artistica. Isto provem, a nosso ver, da 



NATURAES E SOC1AES I I 



intransigência da opinião estabelecida acerca da ausência da 
arte na epocha neolithica, opinião formada muito precipita- 
damente, e que ha de ter o destino de todas as generalisa- 
ções intempestivas. Se a peça pertencesse á ultima epocha 
do período quaternário ou a qualquer epocha histórica, nin- 
guém hesitaria em ver n'ella uma obra d'arte ! Acceitar-se-ia 
facilmente que antes da pedra polida o homem era capaz de 
imitar por essa forma a sua própria figura; mas recusa-se- 
lhe a capacidade para, em epocha muito posterior e com uma 
civilisação evidentemente mais avançada, executar semelhante 
obra! E porque? Porque só do homem quaternário teem 
apparecido aitefactos imitando a natureza viva; razão que 
não é exacta, como dissemos, nem pode ter as honras d'um 
argumento serio, visto que do facto puramente negativo do 
não apparecimento de semelhantes objectos não podia de 
modo algum concluir-se que elles não existissem. 

Reduzido a uma forma lógica, o argumento é o se- 
guinte: 

— A arte neolithica não reproduziu a natureza viva. 

— Mas o objecto da Várzea de Lirio representa a figura 
humana. 

— Logo este objecto não é um producto d^quella arte. 
E falsa a permissa maior, como resulta das descobertas 

já feitas. Ainda que não estivesse provada a falsidade, a 
proposição carecia de ser demonstrada, provando-se que 
foram já exploradas todas ou quasi todas as estações neo- 
lithicas ; que essas explorações foram feitas com escrupulosa 
attenção ; e que n'ellas não se encontraram objectos alguns 
d'aquella natureza. Por conseguinte a conclusão não pôde 
admittir se. 

E se porventura se argumentasse do mesmo modo, a 
propósito de todas as obras d'arte que apparecem nas esta- 
ções neolithicas, não só teríamos de negar todas as escul- 
pturas e gravuras que mencionámos, mas nunca poderia 
chegar-se a provar a existência da arte, por mais numero- 



12 REVISTA DE SC1ENC1AS 



sos e evidentes que fossem os exemplares recolhidos nas ex- 
plorações. 

E' preciso não perder de vista o critério archeologico de 
que o fim é que dá a forma aos productos do trabalho hu- 
mano ; de sorte que, pela forma, é que deve interpretar-se o 
fim. 

Por isso, se a forma do objecto tem os caracteres da 
figura humana, não é licito admittir que o fim a que o ar- 
tista destinou essa forma fosse. outro que não a representa- 
ção do homem. 

Para que phantasiar outros fins, se o próprio objecto dá 
sufficiente noção do seu? ! Quando se vê na parede d'uma 
escola, traçada por mão infantil, uma linha descrevendo al- 
gumas curvas em que se nota a forma da cabeça humana, 
da arcada supraciliar, do nariz, bocca, barba e pescoço, al- 
guém porventura duvida que esse grosseiro esboço repre- 
sente o homem, e que o auctor teve em vista esta represen- 
tação ? Não. Pois a peça em questão apresenta todos estes 
detalhes, e com tal exactidão que não soífrem com ella con- 
fronto essas rudimentares esculpturas descobertas e preco- 
nisadas em França, nas quaes não apparecem figurados do 
rosto humano senão o nariz e os olhos ! 

Se houvesse uma interrupção qualquer na ordem dos 
caracteres por nós assignalados, poderia talvez contestar-se 
o valor artistico do objecto. Mas não : todo o contorno é 
executado com fidelidade, de modo a excluir outro pensa-, 
mento. 

A 1 curva da parte superior da cabeça succede-se a do 
frontal ; á d 'este, a arcada supraciliar ; a esta, o nariz ; a este, 
os dois lábios ; a estes, a curva da barba, e, depois, a curva 
anterior do collo ; ao passo que no bordo opposto da lasca, 
e na altura correspondente a esta ultima curva, está for- 
mada por meio de retoques a curva posterior do collo. 

Os que não viram o objecto, hoje depositado no Museu 
Municipal da Figueira, notando falta de conformidade da 



NATURAES E SOC1AES 1} 



descripção com o desenho, falta contra a qual tínhamos pre- 
venido o publico, negaram também a obra d^rte. D'este 
numero foi o sr. Fonseca Cardoso no artigo com que hon- 
rou o nosso humilde trabalho no n.° io.° d'esta Revista. 
Sua ex.*, dispensando-nos muita benevolência, que em ver- 
dade não merecíamos, classificou a peça como raspador dis- 
coide, cuja base alongada, mesmo pedunculadas servia para 
fixar o utensílio a um cabo de osso ou madeira. D'este 
modo o instrumento seria destinado a operar pelo bordo 
convexo, em que nós reconhecemos a curva da parte supe- 
rior da cabeça. 

Mas, sem quebra do respeito devido aos mais eruditos, 
ousamos affirmar que a hypothese é insustentável. Aquelle 
bordo não é uma aresta retocada, como as que caracterisam 
os raspadores de todas as epochas da idade da pedra. Pelo 
contrario é uma porção da superfície irregular e angulosa do 
núcleo de que a lasca foi separada, e cuja largura, corres- 
pondente á espessura do objecto n'esse lado. varia entre 
o, m oo7 e o, m oo2, com a circumstancia de as arestas dos bor- 
dos d'aquella superfície serem vivas e irregularissimas, apre- 
sentando fortes saliências : e com semelhantes caracteres não 
conhecemos raspadores, nem sabemos como o objecto po- 
desse raspar. Por outro lado essa hypothese tem, a nosso 
ver, o defeito de deixar sem explicação precisamente o que 
se pretende explicar, isto é, os retoques dos bordos lateraes, 
onde nós vemos o perfil do rosto humano e o collo. 

Parece-nos pouco rasoavel que, existindo n'um lado da 
peça trabalho minucioso do homem, em vez de interpretar-se 
esse trabalho, procurando a intenção do artista, se imagine 
que não foi semelhante trabalho que elle quiz aproveitar, 
mas uma outra parte do objecto, onde se não encontram 
caracteres de nenhum dos instrumentos e utensilios conhe- 
cidos na idade da pedra. Era preciso então dizerem-nos para 
que serviriam no supposto raspador aquelles retoques, em 
que se acham anatomicamente representados, o frontal, a 



14 REVISTA DE SC1ENC1AS 



arcada supraciliar, o nariz, os iabios, a barba e o pescoço. 
Seriam também para raspar de lado com o instrumento? 
Não; porque nos raspadores as arestas são abatidas conti- 
nua e regularmente. Não ficam Telles fortes saliências, umas 
agudas e outras arredondadas, nem profundas cavidades, 
que seriam impróprias para operar em qualquer superfície 
plana, concava ou convexa, pois que nem deixariam ajustar 
o instrumento ao objecto operado, nem as superfícies d'este 
poderiam ficar lisas. 

Não interessa á questão saber se os objectos colligidos 
na Tunisia, pelo Dr. Collignon, a que se refere o sr. Fon- 
seca Cardoso, são raspadores ou pontas de setta. Esses 
objectos não apresentam os caracteres anatómicos do perfil 
do rosto humano, como o nosso exemplar; e, se fossem 
iguaes, se tivessem o bordo convexo no estado do nosso, 
nós não veríamos na respeitável auctoridade d'aquelle illus- 
tre homem de sciencia motivo bastante para chamar-se ras- 
pador ou ponta de setta ao que não podia ser uma cousa 
nem outra. 

Ainda se as cavidades que se acham em seguida á ar- 
cada supraciliar e junto á barba fossem regulares, poderia, 
em vez d'um raspador discoide, ver-se no objecto um pequeno 
raspador concavo, para as agulhas e alfinetes cylindricos 
d'osso. Mas o artista nem esta duvida nos deixou : as curvas 
são muito irregulares, e a que fica junto á barba tem no 
meio uma saliência correspondente ao lábio inferior. Por 
outro lado ficariam sempre sem explicação os retoques que 
põem em relevo a extremidade do nariz e o lábio superior, 
e os que se seguem da convexidade da barba para o pes- 
coço, assim como os que se encontram na aresta opposta 
da lasca. 

Este objecto, porém, não é o único. Encontrámos outro 
por occasião das novas explorações feitas no rico megalitho 
do Cabeço dos Moinhos, e que é descripto e desenhado na 
terceira parte do nosso alludido livro, que em breve vae ser 



NATURAES E S0C1AES 1 $ 



publicada. N'esta peça, que também é de silex, o frontal 
eleva-se quasi perpendicularmente, e a arcada supraciliar 
está apenas ligeiramente indicada ; mas a curva da parte 
posterior da cabeça, o nariz, os lábios e a barba acham-se 
representados com bastante exactidão, salvo quanto ás di- 
mensões da barba, que não estão proporcionadas. O nariz 
tem pequena saliência no bordo da peça; mas a cavidade 
d'uma lasca extrahida na face, junto ao bordo, o põe bem 
em relevo. Por modo análogo se acha representada a bocca. 
A figura olha á esquerda do observador ; e o contorno foi- 
lhe dado por meio de retoques. 

Este objecto suscitará provavelmente tantas duvidas 
como o da Várzea de Lirio, por causa do mesmo precon- 
ceito de que a plástica não existia na epocha de que trata- 
mos. Mas nós pensamos que a coincidência dos caracteres 
anatómicos em dois sílices, que não dão indícios de serem 
objectos de utilidade, ou de terem outro qualquer destino, 
é um argumento poderoso em favor do caracter puramente 
artístico doestas obras. 

Nós temos procurado nos instrumentos neolithicos das 
nossas estações, quer sejam perfeitamente acabados, quer 
simples esboços, alguns retoques que descrevam alguma fi- 
gura semelhante áquellas. Mas debalde r Nas pontas de setta 
ou dardo, nas lanças, nas serras, nos raspadores, nos pon- 
ções, emfim em todos os objectos conhecidos como instru- 
mentos do homem neolithico, onde os retoques são pratica- 
dos em larga escala, ainda não encontrámos, sequer, um 
exemplo d'este trabalho ter produzido casualmente a reunião 
dalguns dos caracteres do perfil do rosto humano. E toda- 
via, se em dois objectos menos trabalhados, esses caracte- 
res se apresentam reunidos em grande numero, era natural 
que nos mais trabalhados e com um destino conhecido tam- 
bém apparecessem, se o facto fosse um resultado da natu- 
reza do trabalho, isto é, produzido pela irregularidade de al- 
guns retoques. 



IÓ REVISTA DE SC1ENC1AS 



Em nosso juizo, para repellir a hypothese da casuali- 
dade, basta verificar a coincidência nas duas peças de aos 
relevos do nariz e lábios se seguir inferiormente uma curva 
perfeitamente semelhante á da barba, e não outro qualquer 
contorno. E cousa ainda mais notável: em ambas as escul- 
pturas o relevo da barba proionga-se um pouco na face do 
silex por meio de retoques profundos ! 

Nem nós podemos bem comprehender as razões porque 
seja preferivel explicar semelhantes peças pela casualidade 
do trabalho, a ver n^llas uma forma intencional. O que do- 
mina o trabalho humano é a intelligencia, a vontade ou o 
sentimento, e não o acaso. Será commodo invocar este, para 
não desarranjar as opiniões preestabelecidas no assumpto que 
se debate; mas não é conforme á razão deixar assim de in- 
terpretar a obra humana pelo homem. 

Afora estes objectos possuímos um, muito interessante, 
recolhido no megalitho do Cabeça do Facho, que exhuma- 
mos de um tumulus da Serra de S. Bento, freguezia de 
Maiorca, ao sul do Casal do Matto, povoação que fica na 
estrada da Figueira a Coimbra. E' uma placa de schisto 
cinzento polido, que apresenta o contorno da planta do pé 
humano, tendo uma face plana, e, na opposta, esculpidas as 
curvaturas características da sola do pé, comprehendendo o 
calcanhar, que se acha nitidamente em relevo. Não estão 
representados os dedos por divisões ou traços abertos na 
pedra; mas o contorno formado pelo conjuncto d'elles está 
bem indicado pela circumstancia de essa extremidade da 
placa ser obliqua, sendo a parte mais saliente a que corres- 
ponde precisamente á face ou curva interna do pé. Parece- 
nos manifesto que representa a planta do pé direito. 

Este objecto tem diversas fracturas, algumas das quaes 
foram restauradas; e mede no comprimento o m ,i4, na maior 
largura da parte correspondente ao calcanhar o m ,o6, e o m ,o65 
na extremidade opposta. A rocha de que é fabricada não 
pertence á região. 



NATURAES E S0C1AES 17 



Aqui temos, pois, reproduzida pelaesculptura, uma parte 
do corpo humano, que já se tem encontrado gravada nas pe- 
dras dos megalithos. 

A duvida não é mais admissivel: a arte neolithica repro- 
duzia a natureza viva! 

O fim com que este objecto seria collocado dentro do 
monumento não é do dominio d'este escripto. Nós examina- 
remos o problema quando o livro que estamos publicando 
chegar ao ponto de descrevermos a exploração dos megali- 
thos descobertos pela cumiada da Serra, entre os das Carni- 
çosas, já conhecidos do publico, e o Casal de S. Bento. 



A decoração geométrica está mais abundantemente re- 
presentada no mobiliário das nossas estações. 

Nós temos encontrado, em restos cerâmicos, pequenas 
cavidades arredondadas abertas na pasta e dispostas em li- 
nhas parallelas : outras vezes incisões transversaes recor- 
tando o bordo dos vasos; e nalguns exemplares filas de pe- 
quenos sulcos parallelos, como tudo se vê nos objectos das 
fig. a8 i53. a , i54. a , i55. a e i55. a -A, estampas XI e XII, da 
nossa referida publicação. 

N'outros, como são os recolhidos nas novas explorações 
do Cabeço dos Moinhos, vêem-se grupos de pequenos tra- 
ços alinhados, formando algumas filas parallelas, que descem 
da proximidade do bordo do vaso para a parte inferior 
d'este, ou grupos de pontos gravados na pasta, também en- 
fileirados, e ás vezes sem uma coordenação regular. 

Em fragmentos de placas de suspensão, feitas de schisto, 
apparece a linha contornando o bordo da peça, ou formando 
no meio o zigue-zague ou dentes de lobo; e ás vezes vêem- 
se gravadas duas linhas parallelas, parecendo cruzar-se com 

2 



l8 REVISTA DE SCIENC1AS 



outras em angulo agudo, ou fazendo talvez parte d'algum 
ornato diverso, que não é possível determinar, por falta dos 
restantes fragmentos das respectivas peças. 

Algumas d'estas singelas ornamentações encontram-se 
esculpidas em certos objectos, e não simplesmente gravadas. 
No megalitho do Cabeço do Facho appareceu um fragmento 
d^lfinete d'osso, em que a cabeça, reduzida a uma placa 
muito delgada, termina por duas hastes parallelas, cada uma 
das quaes se acha decorada com um orifício circular. No 
grande monumento descoberto no Cabeço dos Moinhos en- 
controu-se uma peça de collar, feita d'uma lamina de dente 
de javali, que tem a forma aproximadamente quadrada, apre- 
sentando dois bordos oppostos guarnecidos de protuberân- 
cias triangulares, semelhantes aos dentes de lobo. Emfim, al- 
gumas cabeças d^lfinetes d\)sso, provenientes d'este ultimo 
monumento, são formadas por anneis d'osso, em que se em- 
butiam as extremidades das hastes. 

Mas em muitos fragmentos cerâmicos, recolhidos no 
mesmo monumento, a decoração ostenta formas mais com- 
plicadas. Certos vasos, que provavelmente tinham a forma 
de callote espherica, eram guarnecidos, em todo o seu con- 
torno, por linhas pontuadas e parallelas, que começavam 
o, m oi abaixo do bordo, e parece que não desciam a mais de 
meia altura do vaso, seguindo-se outro ornato pontuado, cuja 
forma não podemos classificar. O bordo, muito espesso, ter- 
minava por uma superfície plana com a largura media de 
o, m oi3, decorada por grupos de seis linhas pontuadas e pa- 
rallelas traçadas obliquamente, de modo que cada grupo for- 
mava um angulo agudo com o immediato. Outros tinham 
uma forma e ornamentação semelhantes ás dos bellos vasos 
das grutas de Palmella. O bordo reintrante e largodeo, m 022, 
era guarnecido d'um xadrez, formado por linhas que se cru- 
zavam obliquamente em relação ás arestas do mesmo bordo. 
O corpo era decorado*, próximo do bordo, por linhas conti- 
nuas e parallelas; em seguida por quatro e cinco filas parai- 



NATURAES E S0C1AES 19 



leias de dentes de lobo; e para a parte inferior por linhas 
pontuadas e também parallelas. 

Esse megalitho, o mais rico de todos os que até ao pre- 
sente temos explorado, offereceu-nos ainda dois fragmentos 
d'uma outra obra d^arte. 

E' uma figura esculpida em relevo na face d'uma placa 
d'osso, figura de que não restam senão duas faxas rectilí- 
neas formando um angulo, talvez parte d'um quadrilátero. 

Todos estes objectos pertencem manifestamente ao neo- 
lithico puro, pois que nos monumentos e estações em que 
foram recolhidos não appareceram vestigios dos metaes. 

Com a aurora do cobre, na região por nós explorada, 
a decoração das louças não parece ter progredido, como re- 
sulta das nossas pesquizas no outeiro de Santa Olaya, fre- 
guezia de Maiorca. Na verdade a cerâmica alli só ganhou 
em dureza: a sua ornamentação é ainda inferior á mais sin- 
gela dos vasos do Cabeço dos Moinhos, se exceptuarmos a 
d' um fnsaiuólo. 

Mas encontrou-se lá um artefacto, cuja decoração pôde 
fazer pensar que n'aquella epocha houve manifestações ar- 

• • • • £ 

tisticas mais graciosas e aprimoradas. E uma placa rectan- 
gular dosso, alongada e polida, que apresenta n'uma das fa- 
ces, gravada a ponção, uma cercadura formada por uma li- 
nha em zigue-zague ou dentes de lobo, emmoldurando outro 
ornato, que consiste em duas faxas onduladas que se cruzam 
regularmente, deixando no meio espaços circulares, cujo cen- 
tro é figurado por um ponto. N'esta peça é sobretudo muito 
notável a circumstancia de que nos pontos em que as faxas 
se cruzam só uma d'estas fica visivel, oceultando a outra ! 

Este ornato apparece, segundo lemos em Perrot e Chi- 
piez, nas obras d'arte phenicias, copiado da arte assyria, 
servindo para emmoldurar outras figuras. 

Será com effeito o nosso exemplar contemporâneo do 
começo do cobre ? 

Não ousamos affirmal-o, posto que o tenhamos reunido 



20 REVISTA DE SC1ENC1AS 



a outros objectos, que reputamos d'essa epocha, existentes 
em uma das estantes do Museu Municipal da Figueira. No 
deposito explorado estavam misturados productos da indus- 
tria primitiva com outros de diversas epochas históricas e 
de povos muito differentes : tudo fora arrojado de cima do 
outeiro e confundido no mesmo entulho ! 

O que mais surprehende é que o referido ornato parece 
traçado a compasso ou com outro instrumento semelhante : 
tal é a precisão com que as curvas estão gravadas em redor 
do ponto central de cada espaço circular! 

Se passarmos da decoração propriamente dieta ás for- 
mas dos objectos do mobiliário neolithico, é fora de duvida 
que estas adquirem muitas vezes uma elegância notável, que 
as colloca também na esphera da arte. E ver a série consi- 
derável de pontas de setta e de dardo recolhidas por nós em 
seis dos megalithos explorados, e que se acham no referido 
Museu, para adquirir a convicção de que o artista não só 
tinha certas noções acerca da symetria e da proporção, as- 
sim como da belleza que resulta do emprego da curva, mas 
sabia executar com grande habilidade as formas que esco- 
lhia. Nada mais digno de admiração do que essas graciosas 
pontas triangulares, com as arestas lateraes rectilíneas ou. 
ligeiramente curvas, de base concava ou biconcava e pedun- 
culada, cujas faces, trabalhadas por minuciosos e delicados 
retoques, se tornam connexas, se considerarmos que estas, 
verdadeiras esculpturas dos tempos primitivos eram execu- 
tadas com pedaços de pedra ou osso, que serviam de cinzel. 
Nós exhumamos do megalitho da Cabecinha e deposi- 
tamos no Museu uma ponta de lança triangular, que é uma 
obra prima da arte primitiva na pureza dos contornos e na 
perfeição do trabalho, e outra do mesmo typo, que pelas 
suas dimensões excfepcionaes é talvez exemplar único nos 
museus da Europa. Mede esta ultima peça no comprimento 
o," a 32, e completa devia medir o, m 34 aproximadamente; e 
na largura da base o,' n i2, e com os ângulos externos, que já. 



NATURAES E S0C1AES 2 1 



não existiam quando foi descoberta, devia medir mais de 
o, m i3. Uma lamina de silex com taes dimensões, direita e 
reduzida á espessura d'alguns millimetros pelo trabalho dos 
retoques, é caso para surprehender até aquelles que estão 
muito familiarisados com o trabalho da pedra na epocha de 
que tratamos. 

Estes objectos hão de ser opportunamente descriptos e 
desenhados no iivro que estamos publicando; e por isso nos 
limitamos aqui a mencional-os somente sob o ponto de visto 
que nos occupa. 

Na ornamentação do corpo humano a arte já tinha creado 
alguns singelos modelos, como resulta da comparação dos 
objectos de adorno por nós colligidos nos megalithos com os 
de muitas outras estações neolithicas de Portugal e dos pai- 
zes estrangeiros. Os longos alfinetes d^sso e os pentes in- 
dicam um certo toucado; as contas e objectos furados, a 
existência de collares; e as grandes argolas de osso, a de bra- 
celetes. Muitas contas são de ribeirite, matéria que devia 
ser considerada como preciosa, e que era indubitavelmente 
uma das mais ricas da joalheria primitiva. Da mesma subs- 
tancia alguns pendentes; outros de crystal de rocha ou de 
osso. As grandes placas de suspensão eram de schisto, al- 
gumas com ornatos grosseiros gravados a ponção; mas re- 
colhemos uma que é apenas um seixo achatado. As formas 
de todos estes objectos, assim como as das cabeças dos al- 
finetes são variadas, mas nada graciosas: apenas se distin- 
guem a trapezoidal, discoide ou elliptica e a forma excepcio- 
nal do objecto feito de dente de javali a que já nos referimos. 

A polidura representava um papel importante n'esta arte 
dos tempos neolithicos. Todos os objectos de adorno, que 
acabamos de mencionar, são polidos. Polida, em parte, é 
também a grande ponta de lança e a esculptura do pé hu- 
mano. 

Por essa operação, quando executada com esmero, os 
próprios machados tomavam um aspecto muito bello, ás ve~ 



2 2 REVISTA DE SC1ENC1AS 



zes até luxuoso. Nós possuímos alguns, feitos de rochas vis- 
tosas, em que entra o quartzo e a fibrolithe, que nos pare- 
cem verdadeiros objectos d'arte. 

Muitos vasos de barro também eram alisados e polidos 
ou brunidos externamente, adquirindo algumas vezes um 
certo lustro, antes de serem adornados, como provam os 
fragmentos que temos recolhido; e não é raro apparecerem 
exemplares brunidos e lustrosos em ambas as faces. « Avec 
le tour, dizem Perrot e Chipiez, la rotation de laxe et la 
pression de la main sur la galette de terre humide suffisent 
à repartir également les parcelles de la matière ; tant que le 
potier ne possède pas ce simple et merveilleux instrument, 
le polissoir lui est indispensable pour corriger les défauts du 
modelage et pour effacer, sur la panse, les traces des doigts ». 

Emfim a pintura a liso não era desconhecida. Alguns 

vasos são pintados a aguarella, preparada com oxydo de 

ferro ou com uma substancia negra. Provavelmente este 

» 

oxydo serviria também á tatuagem, assim como uma espé- 
cie de talco cinzento, que recolhemos em um dos megalithos 
ultimamente explorados. 



Taes são os elementos recolhidos até ao presente na re- 
gião que temos explorado. Elles concorrem, a nosso ver, 
para provar que o sentimento da arte, tão viva nos últimos 
tempos do período paleolithico. não se extinguiu com a nova 
civilisação. As suas manifestações são menos variadas e me- 
nos expressivas do que na epocha anterior; mas bastante 
para demonstrarem que o homem não deixou de cultivar 
essa elevada faculdade do seu espirito. 

Figueira da Foz. 

Santos Rocha. 



MATERIAES PARA A ARCHEOLOGIA 



DO 



DISTR1CTO DE VIANNA 



Parece-nos conveniente, antes de começar este capitulo, 
fazer algumas observações, tendentes a dissipar a confusão, 
em que temos visto peccar a nomenclatura dos monumen- 
tos, de que vamos occupar-nos, e tendentes principalmente 
a definir a que havemos de seguir n^ste escripto. 

Adoptando uma denominação popular muito nossa, cha- 
mamos anta ao que os archeologos estrangeiros chamam 
dolmen, vocábulo composto de duas palavras pseudo-celti- 
cas, do/ = meza e men = pedra, meza de pedra. 

A meza do dolmen é um enorme monolitho, quasi sem- 
pre de faces toscamente planas, montado sobre o topo d'uma 
serie de lascões inteiriços, postos de cutello e fechando por 
três lados um recinto irregularmente quadrangular. 

A anta assemelha-se pois a uma pequena caza, cuja 
porta pôde ser representada pelo lado aberto, e o tecto pela 
meza. Quanto a esta, não é necessário olhal-a duas vezes, 
para comprehender que ella nasceu para morrer na posição, 
em que primitivamente foi collocada: a sua deslocação, além 
d'exigir o emprego de forças gigantescas, poria em perigo 
as paredes lateraes da construcção, que, ainda vamos a tempo 
de o notar, são d^ordinario sensivel e parece que intencio- 
nalmente desaprumadas, estreitando para o tecto e recebendo 
d^elle a solidez d'uma obra cyclopica. 



24 REVISTA DE SC1ENC1AS 



D'aqui resulta — i.°, que, segundo a própria etymologia 
da palavra, não pode haver dolmen sem meza ; 2. , que a 
meza é um verdadeiro tecto cuja immobilidade é determi- 
nada pelo fim para que elle foi destinado e pelo seu mesmo 
pezo; 3.°, que a entrada para a camará do dolmen se faz 
lateralmente, como a d'uma caza qualquer. 

Pois,, não obstante estas características tão salientes, é 
corrente ver dar o nome de dolmen a uma construcção, que 
não reúne nenhuma d'estas condições, por exemplo, a um 
monumento sepulchral quadrilongo, fechado pelos seus qua- 
tro lados e tampado com differentes pedras, postas ao tra- 
vez do seu diâmetro pequeno. E' claro que esta sepultura 
não tem meza, e que a entrada para ella só se pôde fazer, 
não pelo lado, como no dolmen, mas de cima para baixo, 
como quem desce a um poço, e levantando qualquer das tam- 
pas, cuja remoção é tão fácil, como foi a sua collocação no 
acto do enterramento do morto. 

Aos monumentos desta espécie, quaesquer que sejam 
as suas dimensões, daremos o nome d'antellas (ou antinhas), 
— nome que temos razões para considerar tão popular como 
o d'anta, bem que menos vulgarisado. 

Mas a confusão, que criticamos, ainda não pára aqui. 
A' antella, principalmente se é de pequenas proporções e 
construida no centro d'um / cômoro de terra de forma mamil- 
lar, dão também os archeologos o nome de tumulus, mas 
este nome designa egualmente o cômoro de terra, de sorte 
que o leitor fica muitas vezes em duvida, em face de certas 
descripções, se fallando-se de tumulus, se trata do conti- 
nente, se do conteúdo; da sepultura, se do montículo que a 
cobre. 

Nós, quando fallarmos do montículo de terra, servir- 
nos-he-mos do termo, d origem popular, como todos os ou- 
tros — mamôa (ou mamoinha). 

Assim, anta, antella e mamôa designarão cousas abso- 
lutamente distinctas, e toda a confusão se torna impossível. 



NATURAES E S0C1AES 25 



Lapa dos mouros. — Esta anta, uma das mais perfeitas, 
senão a mais perfeita que possue o Minho, encontra-se na 
freguezia de Gontinhães, n'um pinhal chamado da Bar- 
roza. 

No seu Portugal Antigo e Moderno, o snr. Pinho Leal 
gaba-se de a ter descoberto e ninguém pôde levar- lhe a mal 
esta vaidade, reflectindo que um monumento antigo, se des- 
conhecido dos archeologos, é pouco mais ou menos como se 
não existisse. Ora a Lapa dos mouros era tão desconhecida, 
ha alguns annos atraz, que o snr. Pereira da Costa a não 
menciona no tratado especial que publicou sobre as antas do 
nosso paiz, e o snr. Vilhena Barboza, consultado por aquelle 
sábio acerca das antas do Minho, suspeita, sim, que as ha- 
veria d'antes, mas declara não ter conhecimento de ne- 
nhuma. 

Se a memoria me não falha, chegou-se mesmo a negar 
a existência de taes monumentos n'esta nossa provinda. 

O primeiro desengano veio com a Lapa dos mouros, 
cuja gravura, feita sobre um dezenho do nosso amigo Cezario 
Pinto, appareceu, ha annos, no Boletim dos architectos e ar- 
cheologos portuguezes. 

Nas descripções que se tem dado da anta de Gontinhães 
affirma-se que ella assenta sobre uma eminência de terra ar- 
tificial. O seu exame superficial assim o persuade; mas quem 
se dér ao trabalho de despejar a terra do interior da camará 
reconhecerá os dous seguintes factos ; — que os supportes da 
anta assentam, não em terra movida, mas em terra virgem, 
salão; que a altura dos supportes não é de metro e meio, 
como a sua apparencia inculca, mas de três, o que torna o 
monumento duplamente grandioso. 

Do primeiro facto vê-se que a anta não assentava sobre 
uma eminência artificial. A terra alli accumulada tinha um 
fim muito outro que o de lhe servir de base ; e de mais para 
mim entendo que toda aquella terra compôz uma mamôa, 
que cobriu primitivamente todo o monumento e foi mais 



20 REVISTA DE SC1ENC1A S 



\ 



tarde arrazada até metade da sua altura por um motivo 
qualquer C 1 ). 

Acho inútil descrever a Lapa dos mouros. Para fazer 
ideia exacta d'uma anta é preciso vêl-a ; mesmo uma photo- 
graphia deixa impressões muito incompletas. 

A anta olha para o sudeste, e na mesma direcção corre 
também a galeria, de 4, m 20 de comprido, que não segue em 
linha recta, mas quebra um pouco para nascente. 

Camará e galeria teem sido revolvidas muitas vezes pe- 
los sonhadores de thesouros. A única cousa que lhes esca- 
pou foi — um fragmento de machadinha de diorite, quebrada 
na sua secção longitudinal e conservando uma parte do gume; 
uma ponta de setta de siiex avermelhado ; metade d'uma 
conta d^zeviche, de forma oblonga, perfeitamente polida, 
quebrada na direcção do seu orifício e mostrando que elle 
foi aberto por dous furos começados nos pólos oppostos, e 
coincidindo tão mal no centro da conta, que pouco faltou 
para se desencontrarem ; alguns fragmentos de louça gros- 
seira e requeimada ; alguns fragmentos de telha romana. 

Carvão e cinza encontravam-se a meudo. 

O achado de telha romana parece-nos importante, por 
mostrar que as antas do Valle do Ancora ainda estavam em 
uso depois da conquista romana. 

A Lapa dos mouros não tem tradição especial. Como 
diz o seu nome, é obra dos mouros (lede, pagãos). Os tra- 
balhadores que a exploraram á minha vista fallavam em ver 
voar pelos ares a sua ferramenta, a anta e o próprio pinhal, 
logo que a excavação chegasse ao ponto critico de provocar 

( i ) Tem-se escripto também que a eminência de terra, em que 
assentava a anta, era socalcada por uma pequena parede e que tudo isto 
fazia parte do monumento, dando-lhe alguma cousa sui generis. A pa- 
rede não tem nada a ver com a anta e com a mamôa; é como muitas 
outras paredes, que se encontram no pinhal da Barroza e em outros pi- 
nhaes visinhos. 



NATURAES E SOC1AES 27 



uma tempestade infernal, etc, mas é esse o caso obrigado 
no desencanto de todos os thesouros, segundo re/a o Livro 
de S. Cypriano, o Pae Sancto e outros do mesmo jaez, e 
sem applicação local determinada. 

Anta do pinhal do sancto de ville. — Ville, uma fre- 
guezia um pouco desprezada pelos chorographos, fica entre 
Gontinhães e Riba d'Ancora. 

O pinhal, onde se encontra a anta. estende-se pelo de- 
licioso valle, a que o rio Ancora dá o nome, e não dista 
mais que um tiro de baila do pinhal da Barroza, que lhe 
está fronteiro, e á vista. 

Na orla do pinhal ha uma fabrica de telha, e, segundo 
as informações do seu proprietário, a anta é conhecida por 
Cova dos mouros. 

Uma outra noticia, soífrivelmente confusa, é verdade, 
queria que na anta tivesse apparecido um sancto, em tem- 
pos que já lá vão, — suecesso que daria origem á denomina- 
ção que hoje tem o pinhal. Um villense, a quem pedi a his- 
toria circumstanciada d 'esta lenda, que me interessava vi- 
vamente, declarou que nunca ouvira fallar de tal, e eu perdi 
a esperança de poder averiguar cousa de geito sobre este 
particular. 

O monumento está muito arruinado. Ninguém se lem- 
bra de o ter visto com a respectiva meza ; mas existe, exis- 
tia pelo menos ha dous annos, o individuo que tinha apro- 
veitado parte dos seus supportes para um lagar. Por essa 
occasião — contava-me um informador — tinha apparecido 
uma « panella » dentro da anta, e alguns outros objectos, 
que ainda existiam em poder do achador. 

Interrogado elle, respondeu-me que a panella era «uma 
historia» (em quasi todo o Minho, como se sabe, uma his- 
toria, uma patranha, ou uma serie de petranhas, são termos 
synonimos) ; que só encontrara um objecto de três esquinas, 
tendo uma pollegada no seu diâmetro transversal, sem nin- 



28 REVISTA DE SC1ENC1AS 



guem poder nunca decidir se a cousa era de pedra, se de 
metal. 

Pela descripção que elle me fez, o mysterioso objecto, 
que podia bem ser um punhal de rocha dioritica, estava par- 
tido e despontado. Inútil acrescentar que ninguém sabe d'elle. 

A anta de Ville conserva ainda uma das pedras trazei- 
ras (*), um supporte inteiro e outro traçado pelo meio; mas, 
apesar d'estar tão consideravelmente mutilada, nenhuma du- 
vida pode haver de que é monumento do mesmo typo, que 
a Lapa dos mouros, supposto que de mais pequenas di- 
mensões. 

Em compensação, a mamôa de Ville pôde dizer- se per- 
feita, e mostra á ultima evidencia que cobria toda a anta. 
Hoje ainda a sua altura orça por três bons metros, e attinge 
quasi a extremidade do supporte, que ainda se conserva in- 
teiro e no seu primitivo logar. 

E sem duvida porque o monumento ficava soterrado 
dentro da mamôa, e porque a extracção das pedras que o 
formavam deixou no centro d^ella uma profunda depressão, 
que se engenhou a denominação de «cova dos mouros», o 
que veremos repetir- se n'outras partes. 

A anta de Ville teve com toda a certeza uma galeria, 
de que actualmente não existe uma só pedra. A sua orienta- 
ção era a mesma que a da anta da Barroza. 

Contra a minha espectativa, a exploração d'este terreno 
volvido e revolvido produziu uma ponta de setta de quartzo 
branco, outra de silex escuro d'uma delicadeza extrema, e 
uma machadinha inteira, de matéria pouco differente da en- 
contrada na Lapa dos mouros. 

Um pedaço de schisto, mostrando visivelmente ter ser- 

(') Não lhe chamo supporte, porque aqui, como na Lapa dos 
mouros, a extremidade superior da pedra, que forma a parte trazeira da 
anta, não toca na meza. Ha uma abertura de palmos, e esta disposição 
parece-me intencional. A parte trazeira da anta da Barroza é formada 
por uma pedra só ; a de Ville por duas, uma das quaes já não existe. 



NATURAES E S0C1AES 20, 



vido de polidor ou afiador, pertenee de certo á mesma epo- 
cha d'estes instrumentos de pedra : não é a primeira vez que 
os tenho encontrado juntos. 

Dentro da «cova» ha grande quantidade de fragmentos 
de telha moderna, que para ali foram despejados com toda 
a probabilidade da telheira próxima; mas entre elles appa- 
recem outros muito mais antigos e fazendo lembrar os que 
tenho visto nos altos dos montes, onde existiu alguma velha 
capella, de que hoje nem alicerces restam. Esta particulari- 
dade trouxe-me á memoria a problemática tradição do sancto 
de Ville, não sendo impossível que a anta, já sem meza e 
coberta por um telhado, tivesse servido em antigos tempos 
de nicho a qualquer sancto. 

Entre nós, que eu saiba, o caso seria novo; náo assim 
no estrangeiro; e o certo é que o nome de «pinhal do Sancto 
de Ville » tem por força uma origem legendaria, e que não 
ha por ali outra legenda, a não ser a que se localisa na anta. 

Cova da moura. — A «cova da moura» eslá fronteira á 
anta de Ville, da qual dista quasi tanto, como esta dista da 
Lapa dos mouros. Temos, porém, de passar para a margem 
esquerda do rio pela antiga ponte d'Abbadim, e d'entrar na 
freguezia d'Ancora. 

Atravessado o logar que pega com a ponte, chamado 
pelo povo E ? spra, mas devendo chamar-se A'spra na opinião 
d^m chorographo da terra, a nascente d'elle, (logar), e um 
pouco a norte d'umas «alminhas», que existem n'uma en- 
cruzilhada do sitio denominado Cornêdo, encontra-se a bouça 
de Fraião, cheia de mato e de pinheiros. Ahi a «cova da 
moura ». 

Não é fácil atinar com a razão, porque a gente do Valle 
do Ancora, quando se lhe pergunta por monumentos que fa- 
çam lembrar a anta da Barroza, indica este, do Fraião, em- 
quanto que o de Ville parece condemnado á mais ignóbil 
obscuridade. Em Ville ao menos ainda restam algumas pe- 



30 REVISTA DE SC1ENC1AS 



dras ; no Fraião nem uma só, e apenas por inducção se 
pôde decidir se aqui houve uma anta, se uma antella. 

A primeira hypothese é a mais provável. As mamôas 
das antellas são sempre de menor elevação, que a das an- 
tas ; (!) a da «cova da moura» chega a ser descommunal, 
mesmo comparada á de Ville. 

Ha também n^lla uma particularidade, que a distingue 
de quantas tenho visto até hoje. Em geral, a mamôa é com- 
posta de terra vegetal, misturada com pequenas pedras, e 
em todo o caso de terra, que facilmente se vê ter sido acar- 
retada doutra parte, e accumulada n'um plaino, ou n'uma 
ligeira lombada natural. A do Fraião parece ter sido um 
massiço natural de terra barrenta, a que a arte deu depois 
a forma semi-espherica (aqui póde-se dizer cónica), commum 
a todos estes monticulos. 

Procurando, porém, no centro da mamôa, terra vegetal 
não falta, nem no logar, onde devia ter existido a anta, nem 
na direcção, em que devia seguir a galeria, regulando-nos 
pelas antas da Barroza e Ville. 

A «cova da moura» tem sido explorada por vezes, e 
foi-o methodicamente pelo snr. capitão Costa até á profun- 
didade de 7 palmos, como verifiquei no corte em cruz, que 
os meus trabalhadores pozeram a descoberto. Eu mandei 
cavar alguns palmos mais abaixo, para me desenganar, como 
desenganei, que a mamôa era de terra virgem, e rasgada só 



(*) A elevação necessária para cobrir inteiramente a caixa de pe- 
dra que forma a sepultura. Esta caixa tem ás vezes de profundidade dous 
metros e mais, outras vezes nem um. idênticas differenças no compri- 
mento e largura. Por via de regra, as paredes da antella assentam no 
nivel natural do solo, mas casos ha (como em Sancta Maria de Pedraça, 
Basto) em que a sepultura foi construída abaixo d'aquelle nivel, sendo 
então a mamôa de tão insignificante elevação, que só um observador 
muito perito a pôde descobrir, e ainda assim guiado por outros signaes, 
que não vem a propósito especificar agora. 



NATURAES E S0C1AES 31 



o necessário para conter a camará e a galeria, que decerto 
foram em seguida cobertas de terra movida. 

Apenas encontrei algum raro fragmento de louça muito 
grosseira, e um fragmento de telha romana, como na Lapa 
da Barroza, e que vem confirmar as conjecturas, que já 
acima expuz, sobre o uso relativamente moderno das sepul- 
turas do Valle do Ancora. 

O snr. capitão Costa, conforme me assegurou o meu 
amigo José Caldas, encontrou uma machadinha de pedra, 
hoje, se não me engano, na Secção Geológica. 

Um dos meus trabalhadores, que dizia ter também sido 
empregado pelo snr. Costa na sua exploração, fallava de se 
ter encontrado então um objecto « de metal verde de três 
esquinas». Apurei mais tarde que o bom do homem mentia, 
e com certa coragem, pois que se inculcava como testemunha 
ocular do achado. 

Não acredito, porém, que elle tivesse arte para inventar 
noticias d'estas, e estou persuadido que, ouvindo a noticia 
do «objecto de três esquinas» encontrado na anta de Ville, 
e a que nos referimos atraz, elle me contou o seu conto, 
accrescentando-!he os pontos que lhe vieram á cabeça. 

Guimarães, 1882. 



(Continua). 



F. Martins Sarmento. 



EASTONIA LOCARDI, n. sp. 



On ne connaissait aucune espèce de TEurope, darcs le- 
genre Eastonia, Gray outre YE. rugosa^ Chem. Nous la 
possédons depuis longtemps du Portugal et elle n^est pas 
rare dans le sud. 

Je viens maintenant de recevoir de Silves trois valves 
d'une nouvelle espèce du même genre, três différente de 
1'espèce ci-dessus nommée, envoyées par non ami Mr. ie 
Dr. Manuel de Mascarenhas Gaivão. Les caracteres sui- 
vants déduits de la comparaison de deux valves des deux 
espèces et de la même longueur (58 mm.) pourront les faire 
facilement distinguer. 

La nouvelle espèce est beaucoup plus solide et lourde. 
Le poids de la valve de 58 mm, est de 18 gr., tandis que 
dans VE. rugosa, Chem. il ne surpasse 8 gr. 

Impressions musculaires plus profondes. 

Cotes rayonnantes moins saillantes et moins nettement 
dessinées. 

La forme est três différente. Plus convexe, beaucoup 
plus raccourcie et moins applatie. Les bords supérieur et 
inférieur sont plus arrondis. Ces différences dans la forme 
lui donnent un tout autre aspect. 

Long. 58 mm., haut 49 mm., épais. de la valve 19 



NATURAKS E SOC1A1.S ) j 



mm., (dans YE. rugosa, Chcm. long. 58 mm , haut. 38 mm., 
épais. de la valve 14 mm.). 

Je me fais un plaisir de dédier cette nouvelle espèce à 
M. Arnault Locard, de Lyon, qui a enrichi la science ma- 
lacologique avec un grand nombre de magnifiques ouvrages. 
Je tiens à lui témoigner de la sorte toute ma reconnaissance 
pour Pimportant service qu'il m'a rendu en examinant plu- 
sieurs espèces du Portugal de ma collection, aussi bien que 
ma considération pour ses profondes connaissances conchy- 
liologiques. 



M. Paulino d'Oliveira. 



VARIA 



Nouvelles études sur la géologie du bassin du Congo 



En 1888, la description de ncmbreux matériaux rapportés d'An- 
gola par M. Lourenço Malheiro (*), nons amena à résumer les connais- 
sances géologiques relatives au versant occidental de 1'Afrique équa- 
toriale. 

A cette époque, les données géologiques sur cette région prove- 
naient en majeure partie de personnes n'ayant pas fait de la géologie 
une étude spéciale ; ce n'étaient donc que des observations isolées ou 
même des échantillons récoltés au hasard, sans être accompagnés d' obser- 
vations. 

Depuis lors, trois géologues de profession ont explore différents 
territoires de cette vaste région. M. E. Dupont ( 2 ) a porte ses observa- 
tions sur le cours inférieur et le cours moyen du Zaire, jusqu'à son con- 
fluem avec le Kassai. 

M. Jules Gornet ( 3 ) a accompagné 1'expédition du capitaine Biat 
dans les territoires de la Compagnie du Katanga, c'est à dire,, dans la 
région comprise entre le Lualaba et le Luapula supérieur, bornée au 



(!) Choífat et de Loriol. Matériaux pour Vétude stratigraphiqúe et 
paléqntologique de la province d' Angola. Génève, 4 o , 116 p., 8 pi. 

( 2 ) Ed. Dupont. Communication sur la géologie du Congo. (Bulletin 
de la Société belge de géologie, de paléontologie et d'hydrologie, tome 11, 
1883, p. 44-51). —Lettres sur le Congo. 8 o , 724 p., 11 pi. Paris 1889. 

(3) J. Cornet. Die geologischen Ergebnisse der Katanga- Expedition. 
(Petermanns Mitteilungen, 1891, 1 carte). Les formations post-primaires du 
bassin du Congo. (Annales de la Société géologique de Belgique, 1891, 87 p., 
1 pi,). Les gisements métallifères du Katanga. Mémoires et publications de 
la Société des Sciences, des Arts et des Lettres du Hainaut, 1894, 56 p., 2 pi.). 



NATURAES E S0C1AES 



> ) 



Nord par le 9 e parallèle et au Sud par la ligne de faíte CongoZambèze, 
territoire qui fait partie de 1'ancien royaume du M'siri. II y a séjourné 
de novembre 1891 à janvier 1893. 

Le troisième observateur est M. Maurice Barrat ( J ), qui de juillet 
à décembre 1893 a étudié la région de TOgooué, dans le Gongo français, 
entre le cap Lopez, Franceville et Libreville. Ses observations ont donc 
eu lieu au Nord et au Sud de TEquateur, bien au Nord du champ d'action 
des deux savants précités, mais on possède quelques observations sur 
les régions intermédiaires ; celles d'un voyageur allemand, M. Peschuel- 
Loesche et celles, encore inédites, de deux agents de la colonie fran- 
çaise. M. Barrat nous en donne les principaux résultats. 

II est acquis depuis un certain nombre d'années que « la partie du 
continent africain, qui s'étend au Sud de la région saharienne, est consti- 
tuée essentiellement par des massifs deprimes, formes de couches archaV- 
ques (?) et paléozoiques fortement plissées, recouverts de couches pres- 
que toujours horisontales, s'étendant sur des espaces immenses et con- 
sistam le plus souvent en conglomerais, en grés plus on moins cohé- 
rents, en schistes argileux, etc. » 

Les observations des explorateurs précités nous renseignent non 
seulement sur des questions de détail sur les régions observées, mais 
elles ont permis de fixer les traits généraux de la géologie du bassin du 
Gongo. 

A la fin des temps primaires aurait émergé un vaste continent re~ 
liant 1'Afrique australe à 1'Inde, à 1'Australie et peut être à une partie 
de 1'Amérique du Sud. Des affaissements partíeis se produisirent, lais- 
sant entre eux des buttoirs (horste, massifs surélevés) ne prenant pas part 
au mouvement d'afíaissement. 

Telle est la grande ligne de faite qui separe l'Afrique en deux 
grandes régions hydrographiques, ligne qui de Tisthme de Suez longe 
la cote occidentale de la mer Rouge, passe entre le Tanganica et le 
Nyassa, puis se confond avec la crête de partage Congo-Zambèze, ju's- 
qu'à la rencontre des chaines parallèles à la cote de 1'Atlannque. Le 
bassin du Congo forme donc une vaste dépression comprise entre ces 
deux massifs et ceux qui le limitent vers le Nord. 

Les agents atmosphériques agissant sur 1'ensemble du continent, 
charriaient des matériaux jusque dans les dépressions, ou ils se dépo- 

(i) M. Barrat n/a encore publié que deux notes préliminaires, dans 
les Comptes-rendus de 1'Académie des sciences. Elles ont ponr litre: Trois 
epupes géologiques du Congo français, et Sur la géologie du Congo fran- 
çais, 22 et 29 octobre 1894. 



36 REVISTA DE SC1ENCIAS 



""T 



saient plus ou moins horisontalement, en discordance sur les terrains 
primaires. 

Ces dépôts ont donc à peu prés le même âge des deux côtés de la 
grande ligne de faite dont il vient d'être question, et pourtant ils pré- 
sentent des différences assez notables pour ne pas permettre le parallé- 
lisme entre leurs subdivisions. 

Sur le versant sud-est, ces ccuches ont reçu le nom de formation 
de Karoo, dans laquelle les géologues anglais ont distingue les étages 
suivants, enumeres de bas en haut : les conglomerais de Dwycka, les 
schistes d'Ecca, les schisles de Kimberley à végétaux, les grés de Beau- 
fort à reptiles et végétaux. Au sommet se trouvent les couches de Síorm- 
berg, contenant aussi des reptiles et dont les végétaux donnent lieu à 
des couches de houille. Ge dernier étage est considere comme triasique; 
c'est à lui qu'appartiennent les grés de Sena et de Tété. 

Les dépôts formes dans 1'ancien lac du Congo sont loin d'être 
aussi varies. M. Dupont, et après lui M. Gornet, y distinguem deux di- 
visions qui pour le moment ne peuvent pas être parallclisées avec 1'une 
ou 1'autre des divisions des grés de Karoo. 

Ce sont: le système de Kundelungu, forme par des psammites et 
des grés rouges à grain fin, recouvert en discordance par le système de 
Lubilache, forme par des arkoses, des conglomerais et des grés íriables 
de couleur blanche. 

Les fossiles y sont extrêmement rares, et sauf erreur, ne consistent 
qu'en un exemplaire rappelant les Ampullaires, trouvé par M. Dupont 
dans le système supérieur. 

II existe pourtant des fossiles sous le même parallèle, sans tenir 
compte de la mention douteuse faite par Livingstone d'un trone d'arbre 
provenant de Pungo-Andungo. Nous avons mentionné deux trones pro- 
venant de Cazengo (*), et en 1893, un habitant de Cabinda apportait à 
la Société de géographie de Lisbonne un échantíllon de bois fossile, et 
affirmait qu'ils sont nombreux dans cette contrée. Enfin, nous avons 
aussi mentionné les petit.s fossiles des grés bitumineux de Libungo ( 3 ), 
que se rattachent peut être à la même formation. Mais il est à remar- 
quei - qui ces trois localités se trouvent à 1'Ouest de la chaine qui limite 
1'ancien lac du Congo. 

Une autre dirTérence entre ces dépôts de grés au Nord et au Sud 

(1) Choífat et de Loriol, p. 36. 

(2) Idem, p. 39. Cest donc à tort que M. Barrat dit: «EnQn des elu- 
des paléontologiques de M. Choffat sur la province d'Angola démontrent que 
les dépôts fossilifères les plus anciens qui aient été signalés sur la cote oc- 
cidentale d^frique appartiennenl à 1'Albien et au Vraconnien.» 



NATURAIS E S0C1AES jj 



de la grand ligne de faite, consiste em ce que le systèmc du Karoo con- 
tient de nombreuses intercalations de roches éruptives, tandis qu'au 
Nord de la ligne de faite, on ne connait de ces intercalations qu'au Sud 
du Tanganica. 

Nous avons vu que le système de Lubilache repose en discordance 
sur celui du Kundelungu. II y a plus, sur une grande surface située sur 
la rive gaúche du Lualaba, il repose directcment sur les roches primai- 
res, ce que M. Cornet attnbue à une dénudation des couches de Kun- 
delungu, destruetion antérieure au dépôt des couches de Lubilache, et 
qui, sur d'autres points, n'aurait aftecté que la partie supéneure du 
système. 

Cette destruetion correspondrait à une période ou le regime lacus- 
tre aurait fait place à un redime fluvial, autrement dit, à un premier 
écoulem?nt des eaux du lac du Congo, tandis que le creusement du lit 
du fleuve à travers la bordure occidentale a eu pour résultat 1'écoule- 
ment definitif de ces eaux. 

Les terrams anciens formant les chaines de montagnes du pourtour 
présentent aussi quelques affleurements dans le bassin lui-même ; ils se 
trouvent sur les points ou les vallées ont creusé leurs lits à travers toute 
1'épaisseur des grés horizontaux. 

Les observateurs aniérieurs avaient déjà donné des coupes à tra- 
vers la bordure occidentale, permettant de se faire une idée plus ou 
moins vague des terrains qui la forment sur les chemins les plus par- 
courus entre le parallèle de 1'embouchure du Zaire et celui de Mossa- 
medes, mais les études actuelles entrent dans un démembrement des 
terrains anciens. Celles de M. Barrat nous les font connaitre sous 1'équa- 
teur, celles de M. Dupont, le long du cours moyen du Zaire et celles 
de M. Cornet au centre du continent. 

M. Dupont est le seul qui ait rencontré des terrains fossilifères 
dans les terrains paléozoiques. Ce sont des calcaires corraligénes parais- 
sant appartenir au Dévonien. 

M. Cornet donne une classirication détaillée des roches anciennes 
formant la limite méridionale du bassin du Congo, mais comme il n'y a 
pas rencontré de fossiles, il evite le parallélisme prématuré qu'entraine- 
rait 1'emploi de termes stratigraphiques connus, et établit sa classirica- 
tion en employant des noms géographiques de la contrée. 

Ce n'est pas ici le lieu d'entrer dans le détail d'une classirication 
compliquée, basée sur des différences pétrographiques, nous nous bor- 
nerons à citer ses divisions générales pour le Haut-Congo : A, terrains 
anciens métamorphiques; B, terrains anciens non métamorphiques; C, 
formations post-primaires ; D, terrains détritiques superficiels. 

Comme roches crufitives, 1'auteur cite des granites, pegmatites, 



38 REVISTA DE SC1ENC1AS 



diorites, syénites; il fait remarquer qu'il n'a pas trouvé trace de roches 
éruptives modernes, tandis que MM. Capello et Ivens citent un échan- 
tillon de phonolithe provenant des limites méridionales du bassin du 
Lualaba. Le doute émis par 1'auteur sur la détermination n'est sans 
doute pas fondé, mais n'y aurait-il pas eu transposition détiquettes, 
comme cela s'est produit pour les fossiles tertiaires de Mossamedes ( d ) 
donnés comme provenant du Katanga ? 

Sous le nom de formations post-primaires, 1'auteur entend les grés 
horizontaux, ce qui nous fait voir une différence notable entre les traits 
fondamentaux de la géologie de 1'Afrique australe et ceux de 1 Europe, 
puisque ces grés horizontaux appartiennent probablement en partie au 
système carbonique. 

Les terrains détritiques superíiciels sont classes dans trois catégo- 
ries : i° Les produits d'altération sur place, que 1'auteur compare à la 
latérite de Finde ; 2 Les dépôts des flancs des vallées et des plateaux 
voisins, consistant en alluvions argilo-sableuses avec lits de galets, et 
indiquant les différentes phases de 1'abaissement du niveau du grand lac 
primitif ; 3 o Les alluvions du fond des vallées, qui sont encore partielie- 
ment en voie de formation. 

M. Barrat termine sa dernière note en faisant ressortir 1'identité 
complete de constitution entre la contrée quil a étudiée et celle qu'a 
étudiée M. Cornet, rridlgré la distance de 3:ooo kilomètres qui les se- 
pare. Ses conclusions résument 1'état de nos connaissances stratigraphi- 
ques sur ces vastes territoires : 

« Les terrains du Congo peuvent être divises en quatre groupes 
principaux : i° 1'Archéen proprement dit n'étant pas encore signalé 
d'une façon certaine, nous attribuons au Précambrien et au Silurien 
tous les terrains métamorphiques et cette formation de schistes ampé- 
liteux, de phtanites et de dolomíes, si analogues aux roches de Bretagne 
et en partie atteintes par le métamorphisme; au Dévonien et au Carbo- 
nifère inférieur, la formation calcaréo-schisteuse du Congo et du Koui- 
lou et comme équivalent dans l'Ogooué, les schistes argileux et les ar- 
koses à ciment calcaires; 3 o les grés rouges et blancs (horizontaux) 
comprendaient peut-être le Houiller, tout le Permo-trias et même 
Ylnfralias ; 4 les terrains fossilifères, allant du Crétacc au Moderne 
s'étalent le long du rivage au pied du plateau africain. » 

Au sujei de ces derniers terrains, mentionnons un fait important 
pour la connaissance des dépôts crétaciques du littoral, c'est la décou- 

(*) Voyez Choffat, Colonies portugaises en Afrique. (Communicações 
da Commissâo dos trabalhos geológicos, vol. 1, p. 343). 



NATURAES E SOCIAIS 30 



verte à Libreville d'un calcaire que deux fossiles permettent de rappor- 
ter au Turonien. Ce fait confirme les indications assez vagues de strates 
supérieures au Cénomanien, contenues dans les récoltes de M. Malhei- 
ro (*) dans la province d' Angola. 

De nouvelles études sur le Crétacique de 1'Inde et de Natal ( 2 ) 
donnent une importance toute particulière à la connaissance des fossiles 
cénomaniens d'Angola. 

La faune cénomanienne de 1'Inde méridionale montre qu'il y avait 
communication entre la mer de ces parages et celle qui baignait le Sud 
de la France et le Nord de 1'Afrique. 

Cette communication ne pouvait pas avoir lieu directement, car 
la faune contemporaine du Nord de 1'Inde est absolument différente de 
celle du Sud; elle devait avoir lieu en contournant 1'Afrique. Or les 
seuls témoins connus pour le moment consistent dans les dépôts céno- 
maniens d' Angola et de la baie de Corisco, car c'est à tort que la partie 
inférieure du Crétacique de Natal a été rapportée au Cénomanien; elle 
est beaucoup plus recente. 

Lisbonne, le 8 avril 1895. 



Paul Choffat. 



(i) Loc. cit., p. 26. 

I 2 ) Franz Kossmat. Die liedeutung der súdindischen Kreideforma- 
tion fur die fteurlheilung der geographischen Verháltnisse wáhrend der 
spãteren Kreidezeil. (Jahrbuch der K. K. geologischen Reichsanstalt, 1894, 
vol. 44, p. 459 à 478). 



Questões Áquicolas 



(RESPOSTA A UMA APRECIAÇÃO) 



O snr. Augusto Pereira Nobre, no numero de janeiro passado dos 
zAnnaes de Sciencias Naturaes, aprecia os dois trabalhos que esta Re- 
vista me fez a honra de publicar nos seus últimos números. 

É possivel que o snr. Pereira Nobre me negue o direito de apreciar 
essas suas producçoes, assim como affirmou que não tinha que discutir 
o seu projecto de estação aquicola no rio Leça; mas, embora me ar- 
risque a incorrer nas censuras do snr. Pereira, vou, certamente com pre- 
juiso dos leitores d'esta Revista, seguir fiari-passu a critica dos An- 
naes, devendo desde já advertir que a confusão com que estão feitas as 
apreciações do snr. Nobre hão-de evidenciar- se n'esta resposta, que se 
limitará a seguil-o. 

Isto posto, diz o snr. Pereira Nobre que bem diíferentes fins teem 
os dois projectos de Laboratório em Leça e em Aveiro e mais adeante 
classifica os assumptos concernentes á piscicultura em « estudos acerca 
de pesca, cultura das aguas e sciencia pura » esquecendo-se, porém, 
de fixar os limites de cada uma d'essas classes que, em todos os traba- 
lhos sahidos dos laboratórios estrangeiros, estão ligadas e tão cheias de 
dependências que entendi, no meu projecto, reservar logar para ellas 
todas, como o snr. Pereira poderia observar até num relance d'olhos, 
lendo a legenda que acompanha a gravura da minha memoria. 

Em seguida, o snr. Nobre estranha que eu recorra aos trabalhos 
do snr. Baldaque da Silva e não cite estatisticas que elles não conteem, 
embora se esqueça de que no meu estudo, publicado no n.° 12 d'esta 
Revista, em pag. 200, me pronuncio contra uma affirmação do mesmo 
snr. Baldaque. Demais o snr. Pereira., que se tem especialisado em es- 
tudos zoológicos e que é agora editor e redactor de uma revista de 
sciencias naturaes, ainda até hoje nem ali, nem, que me conste, em 



NATURAES E S0C1AES 41 



qualquer outra publicação, apontou os erros que dá a entender que exis- 
tem no livro do snr. Baldaque da Silva em que parece que creio cega- 
mente, diz o snr. Nobre. Devo, porém, notar que, não sendo zoologo 
e tendo a meu cargo serviços offi:iaes bastante complicados e muito 
trabalhosos, só na região em que exerço o meu mister é que posso apre- 
ciar o que diz o snr. Baldaque da Silva, no seu Estado actual das pes- 
cas em PortiiQcil e ahi encontro aquella publicação conforme com o 
que vejo. Demais o livro do snr. Baldaque da Silva, tendo que abran- 
ger todo o paiz, não podia demorar-se a descrever minuciosamente cada 
região especial a que se refere; e esse é o motivo, decerto, porque se 
não occupou mais detidamente da ria dAveiro que, para um estudo 
demorado, demandaria um livro, pelo menos, tão volumoso como o do 
snr. Baldaque. Um trabalho de tal natureza, de resto, exigiria que se 
lhe consagrasse não alguns instantes, furtados a outras occupações, 
mas o estudo demorado e consciencioso de um naturalista, que não 
existe aqui, e que fizesse para a vasta região alagada d'Aveiro o mesmo 
que o snr. Pereira Nobre, ha muitos annos, está fazendo, principalmente 
para o estudo conchyologico, na região littoral que abrange alguns ki- 
lometros para o norte da Foz do Douro. 

Depois o snr. Pereira accusa-me de desconhecer a importância que, 
para a pesca maritima, determinou o porto de Leixões e apresenta uns 
dados estatísticos relativos ao incremento d'esta industria, n'aquelle lo- 
cal, nos últimos annos. Ora o systema de pescarias, nas costas do norte 
do nosso paiz, pôde comparar- se com a lavra que os mineiros chamam 
de rapina, devendo accrescentar-se que, além d'isso, é uma rapina mal 
outilée. Os barcos, sem coberta, não conteem apparelhos frigoríficos, 
nem tanques para a conservação do peixe vivo, que, de resto, o consu- 
midor não exige, como succede no estrangeiro e principalmente na 
Hollanda. Por isso os pescadores vão ao acaso lançar as redes ao mar, 
e, se podem, regressam a casa poucas horas depois, sem que, na sua 
aleatória viagem, fossem guiados por indicações como, por exemplo, as 
que o governo norueguez fornece aos pescadores nas ilhas LofFoden ou 
sem serem avisados dos temporaes, como succede em Inglaterra com a 
National life-boat institution. Se o mar se levanta, o porto de Leixões 
presta então relevantíssimos serviços, salvando as vidas de todos aquel- 
les que, em vez de quererem volver a suas casas, a elle se abrigam, 
como se evidenciou na medonha tempestade de 1892. Ha também os 
vapores de pesca, cujas vantagens parecem ser problemáticas segundo 
a opinião da Gommissão de Pescarias, que vêem trazer um importante 
contingente ao augmento da pesca; e por fim, se o snr. Pereira Nobre 
se distrahisse um pouco dos seus estudos conchyologicos observando o 
viver dos poveiros, haveria de notar que a arribada a Leixões de qual- 



4 2 



REVISTA DE SC1ENC1AS 



quer lancha, determina, no regresso dos seus tripulantes á Povoa, gran- 
des ralhos e não sei se algumas contusões entre os habitantes do bairro 
piscatório, por isso que os poveiros deixam sempre em Leça e Matho 
sinhos o producto da pesca vendida. Por isso deve concluir- se que o 
augmento da pesca, no porto de Leixões, além do incremento determi- 
nado pela pesca a vapor, está na razão directa dos riscos que corre a 
vida do pescador no mar, o socego d'elle em terra e talvez a. integri- 
dade das costellas das consortes, no regresso á Povoa. 

A pesca na ria d' Aveiro attenuaria incomparavelmente os riscos 
do pescador e forneceria amplamente o paiz, durante o inverno, de 
peixe d'agua salgada. 

Ainda os dados estatísticos apontados pelo snr. Pereira nada pro- 
vam, isolados como estão, sendo preciso distinguir, em primeiro logar, 
a percentagem que cabe aos vapores de pesca, em seguida a que pro- 
vem de arribadas forçadas, em que o peixe, por não poder ser conser- 
vado, tem que ser vendido, e o resto é que indicaria o producto colhido 
pela povoação piscatória local. Se da comparação d'esse resto com o 
producto da pesca na região littoral d'Aveiro proviesse augmento sensi- 
vel, colheria o argumento do snr. Pereira Nobre, porque as estatísticas 
que citei, as únicas que contem o livro do snr. Baldaque, são anteriores 
ao desenvolvimento das pescarias a vapor que, a estabelecerem-se aqui, 
provocariam graves desordens entre os habitantes da região d'Aveiro, 
embora se reconheça que uma empreza d'essa ordem daria bons lucros, 
cemo deu outr'ora a pesca do alto, em lanchas, a qual teve de ser aban- 
donada por causa do repetido mau estado da barra d'Aveiro, antes das 
obras executadas pelo snr. general Silvério Augusto Pereira da Silva. 

Mais adeante, o snr. Nobre attribue-me o intuito de avultar o va- 
lor das pescarias desde a Torreira até Mira e diz que, se fizesse o mes- 
mo para a região que vae desde o Douro até á Povoa de Varzim, subi- 
ria o valor do pescado a mais de trezentos contos. 

Ora querer incluir numa região hydrographica uma faxa de ter- 
reno em que desaguam no mar, além do rio Douro, os rios Ave e Leça, 
para a comparar com a região hydrographica do Vouga é ignorar por 
completo i 1 ) a importância da ria d'Aveiro, com relação ao transporte 
da pescaria marítima das praias indicadas na minha memoria, e demais, 
quando aquelles valores não entram em linha de conta na comparação 
das estatísticas que aponto, no quadro de pag. 25 do n 9 9 d'esta Re- 
vista. 

Passa depois o snr. Pereira Nobre a justificar a sua insistência a 

(*) Vid. A. Nobre. An. de se. nat., pag. 58. 



NATURAES E S0C1AES 43 



favor do Laboratório no Leça, lembrando a escolha do governo francez 
com relação ao Laboratório marítimo de Boulogne-sur-mer, mas es- 
quecendo-se^de que foi a pesca interior, n'uma região congénere da ria 
(TAveiro, que determinou o estabelecimento do Laboratório d'Arca- 
chon, o que mereceu do zoologo Paul Bert umas palavras de louvor, 
que em outro logar^transcrevi ( 4 ) e das quaes se deprehende que o La- 
boratório d'Arcachon é bem mais antigo do que o de Boulogne e até do 
que outrosMe fundação anterior á d'este. 

Parece me, portanto, que houve precipitação por parte do snr. No- 
bre, quando affirmou fque o governo francez não fez caso das regiões 
alagadas idênticas á ria d'Aveiro. 

Em referencia á cultura das aguas, a que seguidamente allude, 
affirma o snr. Pereira Nobre que as do rio Leça são excellentes, mas 
não explica porque é que estão^deshabitadas, e depois acha que, na es- 
colha de uma estação aquicola, é um erro olhar para a importância da 
corrente d'agua em que ella se estabelece. Confinado nos seus estudos 
zoológicos, vê-se que o snr. Pereira desconhece por completo ( 2 ) que 
a polluição das aguas dos rios com as lavagens de minérios, a ma- 
ceração dos"linhos e os dejectos de fabricas e povoações é um mal difi- 
cilmente remediavel entre nós e tanto maior quanto menos importância 
piscícola tiver*uma corrente d'agua."Com effeito, quando haja poucos 
interesses lesados, pequeno será o numero de reclamações contra um 
estado de coisas que se pratica impunemente por falta de policia e sem 
impedimento talvez das auctoridades, apezar dos preceitos contidos nos 
artigos 441. ° e 443. ° do Código Civil, no art. 6.° do Decreto n.° 8 de 
1 de dezembro de 1872, nos artigos 219. °, 228. ° e 29o. do Regulamento 
do serviço hydvaulico, no paragrapho único do art. 238.° do Regula- 
mento das capitanias dos portos e por fim no art. 38.° do Regulamento 
dos serviços aquicolas. Por isso, em contraposição ao snr. Pereira e at- 
tendendo aos; hábitos do paiz, entendo que deve preferir-se, para uma 
estação aquicola, aquelle rio em que haja maior quantidade de interes- 
ses piscicolas já creados, por quanto maior será ahi a reacção contra 
qualquer tentativa industrial mineira ou hygienica de corrupção das 
aguas e os interesses creados serão os primeiros a policiar, sem ónus 
para o estado, o que para elles é um logradouro commum. 

Logo depois acceita ( 3 ) o snr. Pereira Nobre que as aguas salga- 
das da ria sejam tão úteis para a fecundação dos peixes como as do 



(1) Vid. Engenherid e Architecíura, pag. 19, col. l. ! 
(*) Vid. An. cit. pag. 54 e 57. 
(3) Vid. An. cit. pag. 15. 



44 REVISTA DE SC1ENC1AS 



Leça embora ache que o Laboratório no Leça está mais perto do mar 
e por isso em melhores condições do que Aveiro. 

Este assumpto só pode ser decidido por meio de uma analyse das 
condições physicas e chimicas das aguas colhidas nos dois locaes e em 
epochas e circumstancias diversas, acompanhando essa analyse do exa- 
me das influencias d'ellas nas condições biológicas e physiologicas dos 
animaes. Nem a brevidade com que respondo ao snr. Nobre, nem as 
minhas occupaçóes officiaes me consentem que me dedique a este es- 
tudo, para o qual careceria, de resto, de uma longa preparação ante- 
rior. Parece-me portanto que bastará, por emquanto, notar que as 
aguas, que o snr. Pereira anteriormente affirma que existem num poço 
de terrenos alagadiços, no laboratório que projectei, eram colhidas 
em local em que a corrente d'agua ha quatro annos deitou por terra, 
infraexcavando-o, um pegão d^lvenaria duma ponte, que está a pouco 
mais de cem metros a jusante do local destinado á abertura do aquedu- 
cto para conducção das aguas d'alimentação do laboratório e onde, ha 
poucos dias, a cerca de 200 metros para montante do mesmo local, in- 
fra-excavou e demoliu perto de vinte metros de muro do dique da 
Cambea. Uma corrente d'agua salgada que se manifesta por estes effei- 
tos, até prova scientifica em contrario, pode ser acceite sem escrúpulo 
pelo snr. Nobre como igual á do mar, porque outra não é. Por outro 
lado não ignora decerto o snr. Pereira Nobre que, se o porto de Lei- 
xões já evidenciou a sua importância sob o ponto de vista humanitário 
como porto de abrigo, ainda está por organisar como porto commer- 
cial. Em estudo se acha este assumpto, de que, já em tempos, tractou o 
fallecido general snr. Nogueira Soares e de que ha pouco a Revista de 
Obras Publicas e Minas pubjicou um projecto notabilissimo dos snrs. 
engenheiros J. Thomaz da Costa e J. J. Pereira Dias. Executado esse 
projecto, que ignoro se já foi apreciado pelo conselho superior de obras 
publicas, a agua do mar entraria no rio Leça através de uma eclusa e, 
como o desejo de cada portuguez é que o porto de Leixões tome um 
incremento de tal ordem que, em breve, não bastem as duas eclusas 
agora projectadas e orçadas e dentro de pouco seja preciso executar as 
ampliações para o mesmo porto indicadas pelos dois notáveis engenhei- 
ros acima referidos, concluír-sc-ia que a agua salgada do rio Leça, 
agora recebida já da bacia de Leixões, em breve só entraria no rio 
atravez de uma eclusa^e em determinadas horas. 

Demais convém observar que os i:35o metros que dista do mar o 
Laboratório d'Aveiro são contados a partir do local em que quebram 
as vagas com violência e, accrescentando- se á distancia de 5oo metros, 
que o snr. Nobre designa para o seu Laboratório no Leça, a que vae 
desde a antiga praia até ao musoir do molhe do sul, em que quebra o 



NATURAES E S0C1AES 4 <$ 



mar, vê-se que a estação aquicola do Leça ficaria a cerca de 1:. Soo me- 
tros do mar agitado : portanto, em circumstancias idênticas, com rela- 
ção á distancia, ás do mar em Aveiro. 

Reduzido pois ás devidas proporções o que o snr. Pereira refere, 
emquanto á qualidade da agua e $ distancia d'ella do mar, convém 
apontar a objecção que em seguida lhe suggere o meu estudo. 

Duvida o snr. Pereira Nobre que o Laboratório de Aveiro consiga 
repovoar a ria e apoia a sua affirmaçáo n'uma transcripção de uma me- 
moria do snr. Fonseca Regalia, transcripção que extranha não ver no 
meu Irabalho acerca do Laboratório marítimo d'Aveiro. Embora me 
custe, devo confessar que lamento não ter referido a passagem que cita 
o snr. Nobre e que seria mais um argumento em favor do Laboratório 
em Aveiro, como de resto o foi para o snr. Regalia para demonstrar a 
necessidade de regulamentar a exploração da ria. Com effeito, attribue- 
se ao moliceiro a devastação da fauna da ria e outro nome não tem 
a exploração que aqui se pratica nas aguas ; mas ha quem contraponha 
a este modo de pensar a ideia de que o ancinho faz na ria um traba- 
lho idêntico ao do trawL e lembre a opinião de alguns naturalistas 
inglezes, como Yarrell, Buckland e outros, que asseveram que é de 
grande utilidade para os peixes o trabalho dos arrastões. Com relação 
ás duvidas que suggere a opinião dos inglezes já largamente escrevi na 
Engenheria e cArchitectura (*) e por consequência limitar-me-hei a ap- 
plicar o que já por duas vezes publiquei ( 2 ). Um estabelecimento cuja 
probidade scientifica não possa ser posta em duvida, como é aquelle 
cuja creação propõe o snr. Rocha Peixoto, será a única estação capaz 
de justificar as medidas que se tomem acerca da regulamentação da 
apanha dos moliços, a que já na camará dos senhores deputados se 
chamou uma dragagem inconsciente, que attenua o assoriamento a que 
está sujeita a ria dAveiro. Só o veridictum duma estação da compe- 
tência do Laboratório maritimo d'AveiíO poderia indicar, com precisão, 
se ha epochas em que a apanha dos moliços não seja nociva na ria e 
quaes ellas são e só com a certeza das decisões scientificas é que o go- 
verno poderia manter integralmente os regulamentos e decretos, cuja 
execução é obrigado a lazer sustar todas as vezes que lhe fazem ver 
que é preciso obtemperar ás imposições da politica local, por isso que 
essas imposições se baseiam na affirmativa da impossibilidade na appli- 
cação dos preceitos legaes a uma dada região hydrographica. Apezar 
do desconhecimento por completo da bacia hydrographica do Vouga, 
com que me brinda o snr. Nobre, depois de aqui exercer o meu. mister 

(1) Vid. Enytnhenó, e ArchitecLuia, 2.° arjno, pígs. 299, 306 e 314. 

(2) Yid. Revista de Sciencias JSalurues e Sociacs, n." 11, pag. 132, 



46 REVISTA DE SC1ENC1AS 



de engenheiro ha perto de oito annos, posso assegurar-lhe que, se ap- 
parecer aqui com o regulamento dos serviços aquicolas, em que colla- 
borou como membro da Commissão central -permanente de piscicultu- 
ra, ouvirá dizer, não só a pescadores mas a gente illustrada, que aquelle 
regulamento não serve para a ria e apontar-lhe-hão argumentos e factos 
que o deixarão desorientado e lhe provarão que só com experiências 
executadas, por assim dizer, á vista dos seus contradictores, é que po- 
derá convencemos da proficuidade do regulamento approvado por de- 
creto de 20 d'abril de 1893. Ora esses mesmos argumentos e factos, 
que apontarem ao snr. Pereira Nobre, são os mesmos que exporão a 
s. ex. as os ministros das obras publicas ou da marinha ou até a El-Rei e 
estarão convencidos da veracidade do que affirmam, de modo que os 
poderes públicos, desajudados de factos e experiências que provem á evi- 
dencia o contrario, não teem remédio senão usar de brandura, attenuan- 
do os rigores das disposições legaes que decretaram. 

A seguir, falia o snr. Pereira no parque modelo, proposto pelo 
snr. Baldaque da Silva, « auctoridade constantemente citada» por mim, 
escreve e insiste o snr. Nobre; mas como já em pag. 200 do n.° 12 d'esta 
Revista apreciei a ideia do snr. Baldaque, apezar do snr. Nobre a isso 
não alludir na sua critica, julgo-me dispensado de repetir o que então 
expuz, embora seja obrigado a dizer alguma coisa com referencia á pro- 
posta que faz o snr. Pereira Nobre do ensino da piscicultura na Escola 
Industrial de Aveiro. 

Em primeiro logar convém notar que, accedendo a uma bem fun- 
damentada representação da camará municipal o snr. conselheiro Ber- 
nardino Machado, então ministro das obras publicas, creou em Aveiro, 
junto do Asylo Escola districtal, uma aula de desenho industrial e não 
uma escola industrial como diz o snr. Nobre. Acha-se essa aula instai 
lada n'uma sala que, apezar de espaçosa, em breve não chegará para os 
alumnos que, em grande numero, a frequentam, e, como todas as de- 
pendências do ensino industrial, se encontra debaixo da superintendên- 
cia da direcção geral do commercio e industria. 

Por outro lado os inconvenientes de estarem os negócios da pesca 
dependentes de dois ministérios já foram por mim largamente expos- 
tos em pag. 202 do n.° 12 d^sta Revista, onde se vê o receio com 
que expuz o alvitre de' reunir as duas commissões de pescarias e cen- 
tral permanente de piscicultura. O snr. Nobre, porém, acha que a Com- 
missão central permanente de piscicultura já está em demasia sobrecar- 
regada, embora não sahisse por emquanto do campo theorico, e alija 
para a repartição do ensino industrial o ensino da piscicultura numa 
região da importância d'Aveiro, sem explicar como é que a Commissão 
central, que depende da direcção geral d'Afericultura, havia de superin- 



NATURAES E S0C1AES 47 



tender no ensino ministrado n'esta escola, que, certamente, havia de 
corresponder aos fins indicados no numero n.° do art. 4. do regula- 
mento dos serviços aquicolas, em que collaborou o mesmo snr. Nobre- 
Havia no alvitre do snr. Pereira, como se vê, um sem numero de diffi- 
culdades praticas; mas uma linha lhe bastou para resolver este as- 
sumpto dizendo ainda n'essa linha que existe em Aveiro uma escola que 
ninguém ahi conhece. 

De passagem lamentarei que o snr. Pereira Nobre, que extranhou 
que eu não citasse um excerpto de A ria d' Aveiro e as suas industrias 
não lançasse mão do mesmo livro para examinar a «relação por certo 
incompleta emquanto ao numero de peixes e mariscos que habitam e 
habitaram a ria permanentemente ou accidentalmente », como escreve 
o snr. Fonseca Regalia ( 1 ), que, não tendo que estudar as faunas que 
habitam o littoral, os fundos maritimos e os rios que desaguam na ria 
d' Aveiro, apenas indica 53 espécies, das quaes 49 ainda são vulgarissimas. 
D'envolta com a pesca aproveitada nas redes e com as algas que o mar 
arremessa á praia em seguida aos temporaes, nos rios, nos lodos e nas 
pedras d'esta região hydrographica ha, porém, interessantes exemplares 
a estudar. Ora uma região que mede 5o kilometros de norte a sul, 
que não teve por emquanto a sorte de possuir um naturalista que n'ella 
fizesse o mesmo que ha muitos annos praticam o snr. Pereira Nobre e 
outros para alguns poucos kilometros de littoral junto ao Porto e que 
todos os que a vêem despreoccupadamente consideram riquissima, ape- 
nas merece do snr. Nobre estas palavras : «a ria e só a ria empobrecida.» 
E é a isto que o s snr. Nobre chama: «um confronto dos dois locaes sob 
o ponto de vista dos estudos de sciencia pura! » 

Voltando-se para o meu trabalho, inserto no n.° 12 d'esta Revista, 
escreve o snr. Pereira : « nada teria que responder a tal apreciação senão 
encontrasse ahi referencias á Commissão central permanente de pisci- 
cultura a que pertenço, além de outras meramente pessoaes.» ( 2 ) 

Ora devo dizer que se o snr. Nobre faz parte da Commissão cen- 
tral permanente de piscicultura em virtude do n.° 8 do art. 2. do T)e- 
creto de 3o de setembro de 1892 e igual numero do primeiro artigo do 
regulamento geral dos serviços aquicolas, também um dos directores 
d'esta 'Revista, o snr. Rocha Peixoto, faz parte da mesma Commissão 
e em virtude das mesmas circumstancias que concorrem na pessoa do 
snr. Pereira Nobre O snr. Rocha Peixoto não encontrou, porém, que 
objectar ao meu trabalho, não sendo de presumir que a Revista de 
Sciencias Naturaes e Sociaes, além da honra que me faz em publicar 

(1) Vid. A ria d' Aveiro e as suas industrias^ pag. 39. 
( a ) Vid. An. cit., pag. 56. 



48 REVISTA DE SC1ENC1AS 



os meus estudos, não os sujeite ao exame dos seus directores e princi- 
palmente d'aquelle que mais de perto lida com questões a que se refe- 
rem os mesmos artigos. 

Vejamos, porém, em que é que me tornei aggressivo para com a 
Commissão central permanente de piscicultura. 

Escreve o snr. Nobre logo depois do que acima fica transcripto: 
« N'este artigo attribue o... Mattos á Commissão de piscicultura reso- 
luçõe? que ella nunca tomou quando affirma que : « Nada haveria que di- 
zer ao estabelecimento destinado para Aveiro pela Commissão central 
permanente de piscicultura.» (*) Ora, por mais que procure semelhante 
phrase no meu trabalho, publicado no n.° 12 d'esta Revista, não a en- 
contro lá e imagino que o snr. Pereira Nobre confundiu «os intuitos da 
Commissão central permanente de piscicultura)) expostos pelo snr. Bal- 
daque da Silva, inspector dos serviços aquicolas com resoluções que 
ignoro se elle tomou. Ora a respeito d'esses intuitos é que escrevi: 
« Nada haveria que objectar a este programma, se não encerrasse a no- 
ticia do projecto de uma piscina industrial para Aveiro.» Ora a confu- 
são do snr. Pereira Nobre é tanto mais para lamentar quanto encontra- 
ria n'essas phrases a resposta ao que escreveu em pag. 54 do seu jor- 
nal. « A ideia da construcção de um parque modelo foi igualmente 
apresentada pelo snr. Baldaque da Silva. (A agricultura nacional, pag. 
56, 1894) auctoridade constantemente citada pelo... Mattos. >) 

Depois avisa-me o snr. Nobre, por eu mostrar desejos de conhecer 
« es motivos que levaram a Commissão a escolher o rio Ave » de « que 
a Commissão de piscicultura não se negará a dar todos os esclareci- 
mentos pedidos, quando estes lhe sejam requeridos nos termos compe- 
tentes, acerescentando, porém, que essa escolha resultou de decisão mi- 
nisterial em face do parecer da Commissão central, dado sobre o inqué- 
rito de uma sub-commissão especialmente para esse fim nomeada» 

Na sua resposta, que não devo por emquanto considerar senão 
como opinião individual, vejo que o snr. Pereira Nobre se esquece de 
que o art. 4. do regulamento dos serviços aquicolas, em que collabo- 
rou, diz que : « a Commissão central permanente de piscicultura é consi- 
derada commissão technica de estudo, propaganda, ...»; que os núme- 
ros 2. e 12. ° do mesmo artigo determinam que se divulguem, por meio 
de publicações, o que se refere ás espécies mais úteis a applicar nas 
aguas do paiz, os processos de aquicultura e pesca, os meios de conser- 
vação dos rios e que se dijjundam pelo povo, publicando-os nos jornaes, 
os preceitos e regras que interessam a piscicultura; que o art. 20. do 



(i) Vid. An. cit., pag. 56. 



NATURAES E S0C1AES 



4<) 



mesmo regulamento incumbe ás commissões regionaes o estudo, pro- 
paganda. . . etc. 

Demais, estas disposições estão em harmonia com os intuitos do 
art. 3.° do 'Decreto de 3o de setembro de 1892 que creou a Commissão 
de piscicultura, porquanto esse artigo auctorisa a commissão a divul- 
gar, por meio de publicações especiaes, os processos de pesca, repro- 
ducção e aproveitamento dos animaes, peixes, molluscos e crustáceos. 

Ora depois de intuitos vulgarisadores tantas vezes c tão claramente 
expostos nos dois diplomas apontados, como é que o snr Nobre estra- 
nha que se lamente que a Commissão central não vulgarisasse os tra- 
balhos em que assentou a sua opinião, trabalhos, por certo, de grande 
merecimento e que serviriam de modelo para corrigir quaesquer alvi- 
tres concernentes ao estabelecimento de estações aquicolas? Nem tão 
pouca importância teem, de reuo, esses alvitres, quando o próprio snr. 
Pereira publica, sem commentarios, na sua revista uma communica- 
ção do silvicultor snr. Carlos Pimentel, que propõe o rio Cávado para 
sede de uma estação aquicola. Ora, se fos-en conhecidos os trabalhos 
scientificos da Commissão central permanente de piscicultura, a que 
alludi no n.° 12 d'esta Revista, com certeza que o mesmo snr. Pimen- 
tel não estamparia, sem modificação alguma, no terceiro capitulo do 
seu receite livro Estudos florestaes, a communicação que publicaram 
os zAnnaes, do snr. Nobre e, para instrucção de todos, com a compe- 
tência que tem demonstrado em todos os seus trabalhos aquelle distin- 
cto funecionnrio, apreciaria os fundamentos da exclusão do Cavado pela 
Commissão central permane.ite de piscicultura. 

O snr. Pereira Nobre passa, comtudo, por cima da referencia que 
fiz ao trabalho do snr. Pimentel, para dizer que em Vianna e Darquc 
só ha aguas salgadas e mixtas e em seguida preside rebater as duvidas 
que expuz relativamente á ligação do posto de piscicultura com a rede 
ferro- viária do paiz. 

Escreve o snr. Pereira: «Em segundo logar parece que é desco- 
nhecido o prolongamento da via férrea até Famalicão, também estação 
do caminho de ferro do Minho; pois que desde que se affirma que a li- 
nha da Povoa é de via reduzida expresso fica que não entronca na linha 
do Minho.» ^j 

Muito me custa ter que dizer ao snr. Pereira Nobre que a sua 
observação é inteiramente descabida ( 2 ), porque uma linha de via redu- 
zida, a despeito da sua cathegorica afirmação, é susceptível de entron- 
car n'outra de grande circulação e, como prova de que esse trabalho é 

(i) Vi J. An. cit., pag. 58. 
(2) Vid. An. cit., pag. 57. 



50 REVISTA DE SC1ENC1AS 



corrente, apontarei o numero de maio ultimo dos zAnnales des Ponls 
cl Chaussées. em que se encontra um relatório de missão em Allema- 
nha dos snrs. engenheiros Rigaux, Henry e Claise. Recentemente tam- 
bém a c l^evuc cncyclopcdique vulgarisou este systema de ligação de 
vias férreas que, passando dos livros technicos, se tornou conhecido de 
toda a gente. 

Em seguida diz o snr. Nobre que : « tudo se reduz a uma questão 
de trasbordo, bem pequeno, em Famalicão.» Ora a não ser que se sup- 
ponha C) que os volumes podem ir de mota próprio collocar-se nos 
wagons que devem oceupar, conclue-se que toda a baldeação, por pe- 
quena que seja, emprega pessoal ou força que, multiplicada pelo cami- 
nho, por menor que seja, representa trabalho, que se traduz em des- 
peza, que onera o consumidor. 

Logo depois acha o snr. Pereira Nobre que desconheço por com- 
pleto o que, a respeito do nosso paiz, se tem escripto quando afirmo que 
ignoramos a physica, a çhimica, a geologia, a meteorologia e a bathi- 
metria dos nossos cursos d'agua e contrapõe ao que escrevi as explora- 
ções do Challenger, ^Porcupine, Travaillear, T alisman e Hirondelle e 
os trabalhos dos snrs. Carlos Ribeiro, Nery Delgado, ChofTat, W. de 
Lima e outros. 

Antes de responder, é dever meu prestar homenagem respeitosa 
de quem tem aprendido o pouco que sabe nos trabalhos indicados pelo 
snr. Nobre, mas parece-me que o meio mais cathegorico de demons- 
trar que laboro em erro seria apontar para o nosso paiz um trabalho 
de coordenação idêntico áquelle que sir John Murray conseguiu levar 
a eífeito para a Escócia ( 2 ) e que se refere á analyse das aguas super- 
I riciaes e profundas, ás suas densidades, salsugens e misturas nos estuá- 

rios, á cor, transparência e permeabilidade delias pelo calor. Ora já no 
n.° io d'esta Revista, baseado em escriptos do snr. professor Thoulet, 
cuja auetoridade ignoro se é acceite pelo snr. Pereira Nobre, escrevi 
em pag. 85 que o trabalho sério do naturalista só começa realmente de- 
pois do acabamento dos serviços topographicos, geológicos, physicos, 
chimicos, bathimetricos e meteorológicos, devendo preferir-se á multi- 
plicidade das observações a qualidade d'ellas e substituindo os estudos 
geraes por aquelles que se referirem a localidades definidas, Também 
se me afrigura que o meio de contradizer o que affirmei seria indicar 
os dados a que alludo representados em mappas levantados por curvas 
isobathicas, com áreas aquarelladas e schemas coloridos, trabalho pre- 
paratório que ainda está por fazer e que seria preciso demonstrar que 

( 1 ) Vid. An. cit., pag. 57. 

(2) Vid. The scottisfi marine Síalion. ltswork and prospect. 



NATURAES E SOCIAF.S ^ I 



se executa já com os materiaes obtidos, a despeito da carência, pelo 
snr. Nobre confessada, de analyses e de observações de temperatura 
das aguas. 

Achará, por outro lado, o snr. Pereira Nobre que o registro das 
observações meteorológicas, diariamente feitas conforme escreve, substi- 
tue um trabalho de coordenação, ainda impossivel de realisar pela falta 
de dados allusivos á meteorologia locai? Se eu disser que, ha cerca de 
trinta annos, Biot exclamava que os observatórios meteorológicos «pela 
carência de um fim especial e pela natureza da sua organisação nada 
podiam produzir a não ser montões de factos dispersos, materialmente 
accumulados» (*) talvez que o snr. Pereira Nobre objecte que as opi- 
niões de Biot são vieitx jeus, esquecendo- se de que só depois das coor- 
denações geraes meteorológicas feitas por Leverrier e Maury é que a 
meteorologia assentou em terreno fecundo, onde não deu, por emquan- 
to, a medida de tudo o que é capaz de realisar. 

Muito de propósito deixei para o fim d'esta resposta que, assim 
como todas as replicas, se tornou tanto rrms longa quanto menos fun- 
damentadas eram as objecções do snr. Pereira Nobre, o que se refere 
aos trabalhos do snr. dr. Ribeiro e aos systemas de pesca entre nós 
usados, o que tudo mistura o snr. Nobre na sua apreciação. 

Dá elle a entender que não incorreu nas omissões que erradamente 
lhe attribuo ( 2 J porque, n'uma obra de grande tiragem, destinada ao 
grande publico, não censurou, como o merecem as selvagerias pratica- 
das diariamente entre nós, na exploração das aguas, nem alludiu sequer 
aos trabalhos do grande piscicultor portuguez, o snr. dr. Abel da Silva 
Ribeiro. Talvez aqui viesse de molde ao snr. Nobre negar-me o direito 
de criticar a orientação que deu ao seu trabalho, que se destinava a 
uma fenta (, 3 ) ; mas, já que o não fez, consinta-me que lhe diga que, em 
pag. 211 do n.° 12 d'esta Rcvisla, mostro que também li a memoria do 
snr. Regalia e também alludo ás devastações da ria d'Aveiro, de que 
ella dá noticia. 

Com relação aos trabalhos do snr. dr. Ribeiro, de que não fallou 
na Homenagem alludida, embora se não esquecesse de mencionar os 
seus, acha o snr. Nobre que elles provam que se pôde fazer já afoita- 
mente piscicultura entre nós. 



(i) Vid. Hevue des Dcvx Mondes, pag. Ill, tomo LIV: 

0) Vid. An. oit., pag. 60. 

('•) Homenagem do Centro Commercial do Porto ao Infante I). Hen- 
rique. 



52 REVISTA DE SC1ENC1AS 



Ainda com risco de vexar o snr. dr. Ribeiro ( f ), cuja modéstia se 
affligirá por se vêr envolvido n'uma questão em que a sciencia pouco 
lucra, devo lembrar que elle operou como costumam proceder os ho- 
mens de génio. Tendo noticia dos trabalhos de Coste, no Collége de 
France, quiz verifical-os e, não tendo á mão peixes d'agua doce, com a 
confiança que só dá o muito amor pela sciencia e o desprezo pelas can- 
ceiras e vigilias que lhe acarretaria o seu intuito, lançou mão dos pei- 
xes d'agua salgada e fez com elles experiências que só vinte annos de- 
pois realisou, com êxito, em Arcachon, o professor Kunstler. Pôde o 
snr. Nobre affirmar que os decretos, que nomearam os nossos piscicul- 
tores officiaes, lhes conferiram o privilegio com que a natureza dotou o 
snr. dr. Ribeiro ? 

Acha po ém o snr. Augusto Pereira Nobre que, para vulgarisar os 
trabalhos do snr. dr. Ribeiro c para exprobar as selvagerias na pesca, 
chegam as communicações que inseriu no Instituto de Coimbra e no 
Boletim da Sociedade de Geoorafihia, que ambos se destinam ao limi- 
tadíssimo publico constituido pelos sócios d^quellas aggremiaçóes, ou 
bastam as noticias que publicou no Commercio do Porto e ^Primeiro 
de Janeiro que, folhas diárias como são, esquecem quando acabamos 
de as ler, se é que não pegamos n'ellas, como suecede com a maioria 
dos leitores da ultima pelo menos, que, em geral, só olham ali para 
as noticias. Demais os diários estão condemnados a desapparecer exce- 
pto nas "bibliothecas puolicas, em que raros serão aquellcs qie irão sa- 
cudir-lhes o pó, que os annos, socegadamente, ali depositarão. 



Aveiro, 19 de março de 1895. 



ello de Mattos 

Engenheiro. 



(!) Já se achava completa esta noticia quando os jornaes annunciaram 
a morte do snr. dr. Abel da Silva Ribeiro. Este deplorável acontecimento 
veio desgraçadamente tornar inúteis as precauções que tomei ao fallar da 
importância dos trabalhos d'este grande homem de sciencia, a quem, por 
um acanhamento justificável, estando elle vivo, não dirigi os elogios que 
merecem os seus notáveis trabalhos. Sei que esta Revista se oceuparâ d'el- 
les, largamente, n'um dos seus próximos números. 



Notas archeologicas 



Ha dois annos tivemos noticia de que, próximo da povoação de 
S. João do Campo, tinham sido descobertos uns toscos monumentos de 
pedra, e que, sendo explorados, se encontraram n'elles alguns esque- 
letos, dentes de javali e alguns outros objectos que não souberam bem 
descrever-nos. Pelas informações sobre a forma d'esses monumentos 
pensámos que se tratava de trilithos ; e uma vaga referencia a certos 
cacos muito grosseiros deu-nos indícios da cerâmica neolithica. 

Ha mezes fomos pedir esclarecimentos sobre estes factos ao nosso 
amigo dr. António Cortezão, medico muito hábil que reside n^quella 
localidade, e elle disse-nos que tudo fora destruído, e só podia, de me- 
moria, informar-nos, por ter visto um megalitho e assistido á explora- 
ção, que tal monumento era feito de grandes lages toscas, cravadas de 
cutello no solo, em renques parallelos, não se lembrando bem se co- 
berta por lages horisontaes ; e que effectivamente d^llc se exhumaram 
ossos humanos, fragmentos de cerâmica e objectos de pedra. D'isto 
dera uma ligeira noticia pela imprensa. 

Este cavalheiro teve a amabilidade de ir mostrar-nos o local, e, 
de facto, já não encontrámos vestigios do monumento. Mas entre mui- 
tos fragmentos de cerâmica romana, telhas, tijollos e vasos, descobri- 
mos também um pequeno pedaço de vaso, verdadeiramente primitivo, 
que nos deu a ideia de que, junto á estação neolithica, estacionaram 
também os romanos. 

Dois factos d'alguma importância podemos registrar relativa- 
mente a esta descoberta : o primeiro é que o megalitho se achava er- 
guido em uma eminência ; e o segundo é que a cerâmica feita de barro 
negro e coberta exteriormente d'uma camada d'argilla vermelha, apre- 
senta os mesmos caracteres da que temos encontrado nos monumen- 
tos similares do concelho da Figueira. 



54 REVISTA DE SC1ENC1AS 



Em uma quinta da freguezia das Alhadas começam a apparecer 
magnificas hachas de pedra polida, de diversos tamanhos. Já possuí- 
mos três, sendo uma de fibrolithe, rocha que os peritos em geologia 
dizem ser importada na Peninsula. 

Ao mesmo tempo vamos assignalando, para cima de Tavarede, ao 
lado da estrada da Figueira a Mira, em um prédio de José de Souza 
Broa, a presença de fragmentos de facas e lascas de silex retocadas, 
indicando que o reconhecimento ou exploração methodica do sitio deve 
dar alguns resultados úteis para a sciencia. 

Figueira da Foz, abril de 1892. 



Santos Rocha. 



BIBL10GRAPHIA 



REVISTAS 
O Archeologo Portuguez — Collecção illustrada demate- 

RIAES E NOTICIAS, publicada pelo Museu Ethnographico Portuguez, (n.°* 1-5). 
Lisboa, 1895. 

O Museu Ethnographico Portuguez creado em Lisboa, ha cerca 
de dois annos (*), como opportunamente se noticiou aqui ( 2 j, e cujo ob- 
jectivo é amplamente exposto pelo seu conservador numa revista phi- 
lologica e ethnologica ( 3 ) publicada no Porto, emprehendeu a creaçáo 
d'um jornal destinado a « estabelecer relações litterarias entre os diver- 
sos indivíduos que, ou por interesse scientifico, ou por mera curiosida- 
de, se oceupam das nossas antigualhas». ( 4 J A publicação do Museu 
procurará ainda indicar aos seus leitores, segundo as palavras da apre- 
sentação, as obras que forem apparecendo, no paiz ou fora d'elle, acer- 
ca das antiguidades nacionaes e inserirá, principalmente, embora não 
rejeite trabalhos de maior tomo e latitude, pequenas noticias avulsas 
sobre antiguidades portuguezas, biographias de archeologos nossos, no- 
ticias de museus públicos e particulares, instrucçÓes sobre a exploração 
e estudo do~ monumentos archeologicos, sobre a organisação de collcc- 
ções, sobre a forma de tirar os decalques das inscripções, etc. 

«Uma moeda rara ou desconhecida, um conjuncto de quaesquer moedas antigas que 
se encontrem num local determinado, uma pedra com um lettreiro ou uma csculptura, um 
arco histórico ou lendário, um cruzeiro lavrado, uma fonte de construcção especial, uma se- 
pultura aberta em rocha, uma anta, uma pedra de raio, um estoque, uma espada, um 
sino, uma espingarda, um escudo, uma cadeira de coiro, um leito de pau santo, um prato, 
um annel, etc-, etc , e também um monte em que se suppõe ter existido uma velha po- 
voação... eis ahi outros tantos themas para os leitores do Archeologo Portuguez, lhe re- 
metterem artigos ou modestas notas (5).> 

É, pois, uma publicação com o caracter, nomeadamente, de repo- 
sitório de apontamentos archeologicos, o que a distingue da Índole d'ou- 
tros archivos tentados entre nós, dordinario, com pouco êxito, mercê 
da ala por demais restricta dos investigadores d'este districto do saber. 

(•) Diário do Governo, de 21 de dezembro de 1H93 . 
(8) Revista, n.° 10, vol. III, pag. 96. Porto, 1894. 

(3) Museu Ethnographico Portuguez, por J. Leite de Vasconcellos, in Revista Lu~ 
sitan*, n. 0B 3-4, vol. III, pags. 193-250. Porto, 1895. 

(*) O Archeologo Porlugue», n.° l, vol. I, pag. I. Lisboa, 1895. 
(*) O Archeologo Portuguez, n.° I, vol. I, pag. 2. 



56 



REVISTA DE SC1ENC1AS 



Se não falhar no seu programma — duvida que é licito registrar em 
face de deploráveis e já numerosos precedentes — esta publicação tem um 
importante papel a representar, não só como archivo de notas dispersas, 
que ou não chegam ao conhecimento de todos ou nem se escrevem 
mesmo, mas ainda como instrumento de propaganda. Porque falharia o 
propósito d'esta publicação até na melhor das hypothcses — derivando 
para um boletim onde se inserissem, principalmente, monographias eru- 
ditas — pois do que precisamente carecemos é dum jornal ligeiro, sempre 
obedecendo ao intuito delineado, que é o da propaganda e ensinamento 
dos assumptos archeologicos. No primeiro numero, por exemplo, ha 
um artigo em que se definem e classificam os Castros ; porque é que 
nos números seguintes não inseriram artigos similares respeitantes a ou- 
tros monumentos, estações e objectos archeologicos? Decerto que é um 
assignalavel serviço esse das noticias de museus municipaes (Beja, Alcá- 
cer do Sal, Leiria, etc), d'ordinario pouco, mal, ou nada conhecidos; 
teem um logar de alta evidencia as varias e interessantíssimas notas ar- 
cheologicas de Mortágua, Thomar, Castro Marim, Bragança, Villa 
Keal, Villa Pouca, etc, insertas nos cinco números já publicados: egual- 
mente úteis são as noticias das excursões e dos resultados colhidos. 

Mas é necessário — se o intento de propaganda e ensinamento não 
passam d'uma affirmação vã — estabelecer uma especial secção para os 
illetrados na archeologia, secção em que, com estudos simples, sen: luxo 
sábio e portanto accessiveis, se iniciem os estranhos, alcançando-se, 
breve e d'est'arte, interessados ou, pelo menos, homens devidamente in- 
dustriados no valor e significação dos monumentos, e, consequentemen- 
te, fiscaes, sequer, em qualquer tentativa de vandalismo. Oxalá que, em 
tal sentido, o novo jornal exerça a sua funeção educadora e. direi mes- 
mo, moralisadora; a competência do seu director, coadjuvada com as 
boas vontades dos collaboradores do zArcheologo, podem, facilima- 
mente, realisar a serie de artigos de que carece a grande maioria do 
publico e de que sahiu uma amostra — uma só, infelizmente — no pri- 
meiro numero. 

Pari louvar seria ainda o inicio duma bibliographia archeologica 
no que diz respeito a Portugal e, sendo possível, á peninsula. Apezar 
de todo o desdém nacional, é certo que correm esparsas por numero- 
sos folhetos, publicações e obras antigas, informações que interessam á 
archeologia, além dos estudos especiaes, desconhecidos quasi em boa 
parte. Não poderia a erudição e boa vontade do snr. J. Leite de Vas- 
concellos, supprir esta deficiência, mesmo, provisoriamente, sem ordem 
determinida, mas apenas com o caracter de apontamentos? 

Estas observações exprimem o voto da Revista em assumpto que 
particularissimamente a tem interessado, confiada, de resto, na activi- 
dade, estudo e patriotismo que os trabalhos do snr. Leite de Vasconcel- 
los estão a cada passo revelando. 



R. P. 



A Revista tem recebido as seguintes publicações, 
cTalgumas cias quaes se oceupará na sua secção biblio- 
graphica : 

Le marquis de Saporta. — Nouvelles conlributions à la flore mesozoi- 

que du 'Portugal, 4. , 288 pags. c XXXIX ests. Lisboa, 1894. 
Paul Choffat. — Espagne et Portugal. Revue géologique pour 1891 et 

1892), 8.°, 28 pags. Paris, 1894. 
S. A. S. le Prince Albert de Mónaco. — Sur les prémières ca?npagnes 

s cientifiques de la «Princesse cAlice», 4. , 5 pags. Paris, 1895. 
— Sur la faune des eaux profondes de la íMéditerranée au large de 

[Mónaco, 4°, 3 pags. Paris, 1890. 
A. Angot. — Les aurores polaires, in-8.°, 3 18 pags. e numer. gravs. 

Paris, 1895. 
S. Meunier. — La géologie comparée, 8.° Paris, 1895. 
Giacinto Martorelli. — ZMonografia illustrata degli uccelli di rapina 

in Itália, 4 , 21 5 pags., 45 gravs e IV pi. Milano, 1895. 



zAnnaes de estatistica li. Estatística bancaria), 8 o , 32i pags. Lisboa, 
1894. 

cAnnaes de scie.ncias naturaes, tom II, n. os 1-2. Porto, 189?. 

c4 nnuario da Universidade de Coimbra (1894-1895), 8.°, 288 pags. 
Coimbra, 1895. 

cArcheologo portugue^, tom. I, n. os i-5. Lisboa, i8g5. 

'Boletim da Sociedade Broteriana, tom. XII, n.° 1. Coimbra, 1895. 

^Boletim da Sociedade de Geocraphia, tom. XIII, n. os 9-12 e tom. XIV, 
n.° 1. Lisboa, 1894-95. 

'Boletim da Sociedade Martins Sarmento, tom. I, n. os 9-10 e 12. Gui- 
marães, 1894-95. 

Instituto, tom. XLI, n. os 17-18; tom. XLII, n. os i-5. Coimbra, 1894-95. 

Jornal de sciencias mathematicas, physicas e naturaes, tom. II, n. os 
5-8; tom. Ill, n. os 9-11. Lisboa, 1890-94. 

Jornal da Sociedade pharmaceutica lusitana, tom. 59, n. os 11 -12; tom. 
60, n. os 1-4. Lisboa, 1894 g5. 

'Portugal agrícola, tom. 6.°, n. os 5-7 e 9-1 1. Lisboa, 1894-95. 

'Revista de educação e ensino, tom. X, n. os 2-6. Lisboa, 1895. 

'■Prevista de Guimarães, tom. XII, n.° 3. Guimarães, 1895. 

Revista do Minho, tom. X, n os 9-19; tom. XI, n. 08 1-6. Espozende, 
1894 95. 

'Prevista de obras publicas e minas, tom. XXV, n. os 299-300. Lisboa, 
1894. 

Prevista florestal, n. os 2-7. Aveiro, 1895. 

'Pulletin du Muséum dPJisioire Naturelle, tom. I, n. os 1-2. Paris, i8g5. 

c Bulletin de la Sociéié zoologique de Prance, tom. XIV, n. os 1-9. Pa- 
ris, 1894. 

Piulletin de la Société d\Anthropologie, tom. V, n.° 7. Paris, 1894. 

Pi^evue mensuelle de VEcole d' Anthropologie de Paris, tom. V, n ° 8 
i-3 e 5. Paris, 1895. 

Pcuille des jeunes naturalistes, tom. XXV, n. os 291-7. Paris, 1895. 

c Bulletin de la Sociéié belge de microscopie, tom. XXI, n. os 1-6. Bru- 
xelles, 1895. 

c Bu lie li n de la Société vaudoise de sciences naturelles, tom. XXV, n. os 
n5-6. Lausanne, 1894. 



'Ihilleiin de V Instituí Egyptien, tom. III, n. os 1-2 e 4-5. Le Caire, 1894. 
c Bulleli>io dei Real Comilato geológico d' Itália, tom. V, n.° 4; tom. 

VI, n ° 1. Roma, 1894 95. 
'Bulletino di paletnologia italiana, serie If, n. os 7-i2; serie III, n. os i-3. 

Parma, 1894-95. 
'■Bulletins du Comité géologique de St. Pétersbonrg, tom. XII, n. os 8 9; 

tom. XiII, n. os 17. St/Pétersbourg, 1894. 
Supplément au tom. XIII des Bulletins du Comité géologique, St. Pé- 

tersbourg, 1895. 
(Mémoires du Comité géologique, tom. VIII, n. os 2-3; tom. IX, n.° 3; 

tom. XIV, n.° i. S. PétersbDurg, 1894-95. 
Verhandlungen der k. k. \oologisch-botanischen Gesellschafl inWien, 

n. os de janeiro-fevereiro e abril- maio. Vienna, 1895. 
Verhandlungen der Berliner Gesellschaft filr Anthropvlogie, Ethno- 

logie und Urgeschichte, n. os de junho, dezembro e de janeiro. Ber- 
lim, 1894-95. 
cAbstracts of the proceedings of the Geological Society ofLondon, n. os 
632-42 e 644. London, 1894-95. 

■ Illlllllllllllllllllllllltllllllllllllllllll llllllllllllllllllllllll ■■llllllllllllllllllllllllllllllllll llllllllllllll I llll lllll 

REVISTA 

DE 

SCIENCIAS NATURAES E SOCIAES 

PUBLICAÇÃO TRIMESTRAL 



Condições de publicação 

A REVISTA sahirá regularmente quatro vezes por 
armo, cm fascículos cie 48 pags., 8.° 

PREÇOS DA ASS1GNATURA 
Portugal: 

Anno ou serie de 4 números . . . i$200 reis 

Numero avulso 3 00 » 

1'AIZES COMPREHEND1D0S NA UNIÃO POSTAL: 

Anno. . 8 fr. 

Numero avulso 2 n 

Para os outros paizes que não fazem parte da união, aceresce o 
porte do correio. 

A correspondência deve ser dirigida a Rocha Peixcto, 
na Academia Polytechnica. — PORTO. 



PORTO — Typ. Occidental 






REVISTA 



DE 



Sciencias Naturaes e Sotíaes 



PUBLICAÇÃO TRIMESTRAL 



DIRECTORES 

WENCESLAU DE LIMA 

Director cia Eschola Medico-Cirurgica do Porto 

RICARDO SEVERO ROCHA PEIXOTO 

Engenheiro civil Naturalista adjuncto ao Gabinete de Geologia 

da Academia Polytechnica 

Volume quarto — N.° 14 

(11 SERIE — N.° 6) 




PORTO 

TYPOGRAPHIA OCCIDENTAL 

80, Rua da Fabrica, 8o 

1896 



SUMMARIO 



MEMORIAS ORIGINAES 

Necropole prehistorica da Campina nas visinhanças de Faro, 

por Santo* Bocha pag. 57 

Alguns tópicos de uma theoria das anomalias ópticas dos crys- 

taes, por Alfredo Bensaude pag. 

Materiaes para a archeologia do districto de Vianna, por p. 

Martins Sarmento pag. 95 

VARIA 

Questões aquicolas, por Mello de Mattos pag. 103 

BIBLIOGRAPHIA 

La géologie comparée, de stanislas Meunier, por w. de i,. . . pag. 106 

Promenade au Gerez. Souvenirs d'un géologue, de Paul Choffat, 

por b. p pag. 107 

Coup d'csil sur la géologie de la province d'Angola, de Paul 

Choffat, por b. p. pag. 107 

Opistobranches du Portugal, de M. Paulino d'Oliveira, porB. p. pag. 108 

Herpetologie d 1 Angola et du Congo, de J. V. Barbosa du Bo- 
cage, por b. p.. . pag. 108 

Révision de la faune malacologique des íles de St. Thomé et du 

Princie, de Albert Girard, por b. p. pag. 110 

Déscription de deux «Ennea» nouveaux de Vile Fernando Pó, 

de Albert Girard, por B. p. . . p$g. HO 

Mémoire sur un poisson des grandes profondeurs de l'A f lan- 
tique, le «Saccopharynx ampullaceu» et observations sur 
l'«Halargyreus Johnsonú, de Albert Girard, por B. p. , pag. 110 

Segundo appendice ao «Catalogo dos peixes de Portugah de 

Félix Capello, de Balthasar Osório, por B. p pag. Ill 



NECROPOLE PREHISTORICA DA CAMPINA 



NAS 

VISINHANCAS DE FARO 



O desejo de fazer alguns estudos sobre a cerâmica da 
primeira idade dos metaes levou-nos a emprehender diver- 
sas explorações na provincia do Algarve, a região mais rica 
em estações typicas desses tempos, segundo as indicações 
que nos deixou Estacio da Veiga. Escolhendo Faro para 
ponto de partida dos nossos trabalhos, começámos a inves- 
tigar o local do Campo da Trindade, em que Estacio da 
Veiga tinha encontrado algumas sepulturas. 

A carta archeologica do Algarve marcava por alli, a 
menos de 200 metros para o norte da cidade, sepulturas ou 
cemitério por inhumação da epocha do bronze; e nas Anti- 
guidades monumentaes do Algarve o auctor dizia que tinha 
descoberto e explorado n'esse logar duas curtas sepulturas 
quadrangulares, medindo no comprimento o m ,90 a o m ,95, na 
largura o m ,65 a o m ,72 e na profundidade o m ,57 a o m ,63, 
orientadas NNE a SSO, onde recolhera ossos humanos, 
cerâmica e dois objectos de bronze. 

Mas ninguém nos deu noticia de semelhante descoberta, 
que até passou ignorada de alguns cavalheiros mais illustra- 
dos de Faro, a quem pedimos esclarecimentos, comprehen- 
dendo o erudito conservador do Museu, Monsenhor Cónego 



58 REVISTA DE SC1ENCIAS 



Joaquim Maria Pereira Botto. Esta falta de indicações pre- 
cisas e a circumstancia de o illustre explorador do Algarve 
só haver encontrado alli duas sepulturas não nos animaram 
a fazer a exploração do Campo. 

Para NE do Milreu, no Monte do Gastello, que fica a 
O do povoado de Mestra, marcava a referida carta outra 
necropole da epocha do bronze; e todavia Estacio da Veiga, 
na sua obra, considerava esta estação como typica da epo- 
cha do cobre, sem comtudo dar noticia de haver feito alli 
qualquer exploração, e somente por informações, segundo 
parece, de se haverem encontrado muitas sepulturas qua- 
dradas, contendo ossos, louças e artefactos de cobre, dos 
quaes só um (uma adaga) chegara ás suas mãos, por offerta 
d'um lavrador que ainda o guardava. Nós estivemos pri- 
meiramente, por erro do nosso guia, em outro Monte do 
Gastello, no sitio de Gancella; e depois fomos ás visinhan- 
ças do indicado por Estacio da Veiga pedir informações 
sobre as sepulturas. Mas chegámos ao mesmo resultado 
que aquelle explorador: as sepulturas estavam destruidas 
pelos agricultores; e por isso não nos seduziu a tentativa 
de fazer alli qualquer trabalho, como provavelmente tinha 
acontecido ao nosso antecessor. 

Para NE de Olhão, junto ao povoado das Bias, mar- 
cava também a carta uma sepultura por inhumação da epo- 
cha de bronze; mas d^ste achado nenhumas informações 
nos souberam dar. 

Resolvemos, por isso, pôr de parte a carta archeolo- 
gica como guia das nossas pesquizas, e proceder pelas in- 
formações que colhêssemos entre o povo das freguezias ru- 
raes acerca de quaesquer descobertas que recentemente o 
acaso tivesse favorecido. Este procedimento levou-nos a 
descobrir sepulturas e ruinas romanas, que nos desviaram 
por muito tempo do objecto principal das nossas investiga- 
ções; e já pensávamos em abandonar Faro pelo concelho 
de Lagos, quando fomos agradavelmente surprehendidos 



NATURAES E S0C1AES 59 



por um acontecimento que devia pôr ao nosso alcance tal- 
vez a maior e mais rica necropole prehistorica até hoje des- 
coberta n'esta região. 

Sendo informado o illustre clinico snr. dr. Virgílio 
Francisco Ramos Inglez, governador civil do districto de 
Faro, que no sitio da Campina, ao norte da cidade, nos 
extensos vinhedos do sr. Alexandre de Souza Figueiredo, 
illustrado director da Escola Pratica d\Agricultura, se ha- 
viam descoberto, pelos amanhos da terra, diversas sepultu- 
ras, que continham objectos metallicos, pediu immediata- 
mente ao snr. Figueiredo as peças recolhidas e alguns es- 
clarecimentos para nos apresentar; ao que esse cavalheiro 
annuiu. Graças a esta lembrança do snr. dr. Virgílio pude- 
mos reconhecer que se tratava de uma necropole da epocha 
do cobre, precisamente a que mais poderia interessar-nos. 
Dois foram então os objectos submettidos ao nosso exame, 
a saber: uma bella adaga de cobre fundido, que já havia 
sido ferida a ponção pelo snr. Figueiredo afim de descobrir 
o vermelho do metal, por estar este coberto d'uma camada 
d'oxydo e em parte por uma aggregação terrosa ou tufo da 
cor dos terrenos da Campina; e a metade inferior d'uma 
ponta de lança de cobre batido, que adquirira cor annegrada 
nas superfícies. 

Apresentados em seguida ao proprietário, soubemos por 
este e pelo seu feitor que outras sepulturas tinham já appare- 
cido, onde o snr. Figueiredo recolhera mais uma ponta de lan- 
ça, inteira, de cobre batido, e uma pequena placa da ardósia, 
que nos foram mostradas, tendo além d^isso notado que 
em cada sepultura de cada lado da cabeça do esqueleto 
existia um vaso de louça negra. Disseram-nos ainda que as 
sepulturas eram da forma rectangular, feitas de lages bru- 
tas e sem cobertura; e, instados sobre este ultimo facto, 
deram-nos indicações que nos fizeram pensar terem sido ar- 
rancadas em amanhos anteriores as lages que cobriram es- 
ses monumentos. 



ÓO REVISTA DE SC1ENC1AS 



Communicando ao snr. Figueiredo a grande importân- 
cia que tinha a descoberta, em face da sciencia, sobretudo 
depois que a ideia de uma epocha do cobre, precedendo a do 
bronze, tanto na Península, como na Grécia, e talvez no 
resto da Europa, vae ganhando os espiritos (*), derruindo a 
theoria que fazia preceder na historia das industrias huma- 
nas a liga do cobre e do estanho, caracterisando o bronze, 
ao cobre puro, pedimos-lhe auctorisação para explorar o sitio, 
sem detrimento das suas importantes plantações, e que no 
futuro mandasse observar na cava das vinhas o maior cui- 
dado, para se não destruirem os monumentos que fossem 
apparecendo, sem que primeiramente se explorassem e es- 
tudassem com methodo; ao que aquelle cavalheiro annuiu 
com inexcedivel amabilidade e verdadeiro interesse, pondo 
á nossa disposição o pessoal de trabalho de que care- 
cíamos. 

Cremos que assim, fora da área das nossas explora- 
ções, fica também assegurado á sciencia o estudo da necro- 
pole. O snr. Figueiredo é já muito conhecido pelo seu sa- 
ber; e nós tivemos ensejo de ouvir-lhe expender algumas 
noções de Prehistoria, que serão as melhores recommenda- 
ções para que elle não deixe perder os preciosos restos que 
tivemos a fortuna de reconhecer na sua propriedade. Que 
outros vão depois de nós : se não pudermos completar os 
trabalhos emprehendidos, explorando toda a necropole, lá 
encontrarão reunidos os abundantes elementos d'estudo que 
a vigilância do proprietário terá sem duvida preservado da 
destruição. É o mais assignalado serviço que presentemente 
pôde prestar á paleoethnologia portugueza o digno director 
da Escola Agrícola de Faro. 



( ! ) Franks pôz a questão no congresso de Stockholmo, em 1874; 
e Pulski já proclamou a epocha do cobre no congresso de Budapesth, 
em 1876. 



NATURAES E S0C1AES 6l 



A nccropole está a 45o m approximadamente para E do 
kilometro 3:200 da estrada de Faro a S. Braz d'Alportel, 
em campo raso. Não conhecemos ainda toda a área que ella 
abrange; mas, tendo em vista os pontos distantes em que 
foram descobertas sepulturas, e observando que a sondagem 
do terreno, por meio d'uma haste de ferro ponteaguda, de- 
nunciava a presença de outras sepulturas muito próximas 
entre si, tanto nos espaços intermédios, como por fora 
d'aquelles pontos, parece-nos que podemos estabelecer com 
muita probabilidade que a necropole é vasta e encerra gran- 
de numero de monumentos. A nossa exploração fez-se em 
uma das ruas que atravessam a propriedade na direcção de 
LO, pelo norte da grande parcella de terreno onde haviam 
sido descobertas as primeiras sepulturas. Era alli que o tra- 
balho podia fazer-se mais livremente, sem receio de damni- 
ficar as plantações. 

A o m ,5o approximadamente do nivel do solo foi encon- 
trada uma das sepulturas, que fizemos por inteiramente a 
descoberto. Era formada por lages brutas de o m ,3o a o m ,5o 
de comprimento, de altura não superior a o ra ,48 e de o m ,o8 
a o m , ró de espessura, cravadas de cutello, descrevendo al- 
guma cousa semelhante a um heptagono irregular, em que 
faltava um dos lados a SE: mas um outro supporte seguia 
no mesmo alinhamento do que ficava ao nascente; de sorte 
que a sepultura era mais comprida d'esse lado do que do 
outro. Da cobertura restavam apenas duas pequenas lages. 
Todas eram de calcareo branco da montanha, que fica a 7 
kilometros approximadamente para o norte da necropole. 

A orientação do monumento seguia o rumo de NO a 
SE; e a sua medição indicou i m ,20 no comprimento d'um 
lado, comprehendendo o referido supporte, e apenas o m ,c)o 



02 REVISTA DE SC1ENC1AS 



no lado opposto, e o m ,8o a i m na largura. Pensámos, e 
ainda hoje pensamos que trabalhos agrícolas levaram ou- 
trora as lages que faltavam na cobertura, assim como al- 
gum supporte que estava em face do que avançava para 
SE e outro que fecharia o recinto d'este lado; e que assim 
a sepultura era alongada, estreitando n'esta direcção. O 
que apoia este ultimo facto não é somente a forma alongada 
das outras sepulturas: é também a circumstancia, minucio- 
samente observada, de encontrarmos a parte inferior de um 
humero e a válvula d'um mollusco marinho (Pecten maxi- 
mus) junto ao sitio que devia occupar o primeiro dos pre- 
sumidos supportes. Era evidente que o braço d'um cadáver 
se estendera para este lado, e que não devia ter ficado fora 
do recinto. Não vimos vestígios do radio, cubito e mão cor- 
respondentes; e pareceu-nos que um remeximento alli levara 
estes ossos. Foi o único notado. No resto do entulho, for- 
temente empastado, tudo nos pareceu intacto. 

A exploração do recinto descobriu primeiramente dois 
esqueletos com as pernas encolhidas, isto é, com os joelhos 
próximos dos maxillares inferiores, parecendo que ambos 
tinham os braços estendidos; e estavam deitados sobre o 
lado direito, com a face em terra e a cabeça para NO mas 
bastante inclinada para O, um ao lado do outro. Os esque- 
letos eram de indivíduos adultos, mas um d'elles ainda muito 
moço, como parecia indicar o pouco desbaste dos dentes. O 
estado da decomposição dos ossos não permittiu que se le- 
vantassem da terra senão em fragmentos. 

Adiante da face de cada esqueleto havia um vaso de 
barro muito escuro, com a forma approximadamente hemis- 
pherica e de bordo vertical, como muitos dos que temos 
descoberto na necropole neolithica da Serra do Cabo Mon- 
dego. A pasta é trabalhada somente á mão e muito branda. 
Foi este um dos nossos mais preciosos achados, mas de que 
só colligimos alguns fragmentos, que o proprietário nos deu. 

Por debaixo d'estes esqueletos, separado por pequena 



NATURAES E S0C1AES 63 



espessura da terra, jazia outro esqueleto humano de adulto, 
collocado na mesma posição dos superiores, excepto quanto 
aos braços, de que não pudemos verificar a verdadeira po- 
sição. Este esqueleto tinha a columna vertebral inteira e tão 
recurvado para O, que ficava atravessado na sepultura. 
Nenhum vaso ou outro artefacto estava associado a estes 
ossos. 

Pensámos que a inhumação dos três indivíduos a que 
pertenciam taes esqueletos não fora simultânea, posto que 
não seja raro encontrarem-se em hypogeus dos tempos pre- 
historicos os esqueletos em camadas sobrepostas, indicando 
algumas d'estas estações mortuárias que muitas victimas ha- 
viam sido feitas pela guerra e que o deposito dos cadáve- 
res fora feito na mesma occasiao. Considerando a pequena 
altura dos supportes e o nivel do esqueleto inferior, repu- 
tamos muito difficil admittir que três corpos alli coubessem. 
O mais verosímil é que os dois corpos superiores fossem 
inhumados já depois de consumido o que jazia inferiormen- 
te. Verdade é que, segundo as observações feitas tanto em 
sepulturas luso-romanas, por nós exploradas no Valle do 
Mondego e no concelho de Olhão, como em sepulturas da 
Grécia prehistorica deseriptas por Perrot e Chipez, quando 
se fazia a inhumação dalgum morto em logar já oc- 
cupado pelos restos de outros, desarranjavam-se e remo- 
viam-se os ossos para dar logar ao novo deposito. Mas não 
pôde concluir-se que fosse esta a pratica observada em to- 
dos os tempos e em todos os povos; nem em caso de guer- 
ra, epidemia ou outra calamidade haveria tempo para seme- 
lhantes trabalhos. 

Inhumação simultânea foi muito provavelmente a dos 
indivíduos dos esqueletos superiores, attendendo á disposi- 
ção d'estes e ao nivel em que se achavam; mas não é licito 
affirmar que só se aproveitasse um tão acanhado espaço por 
serem muitos os mortos e não haver tempo para construir 
outros tantos monumentos. Semelhante hypothese seria pre- 



64 REVISTA DE SCIENCIAS 



matura, porque nós só tivemos tempo para explorar mais 
uma sepultura, e as outras descobertas anteriormente ha- 
viam sido excavadas sem uma observação methodica. 

A sondagem da faxa do terreno em que se achava esta 
sepultura assignalou outra i m ,8o approximadamente ao O. 
Afastada a terra que a envolvia, encontrou-se uma cober- 
tura feita com duas lages feitas de calcareo cinzento muito 
duro, emparelhadas do nascente a poente. A do norte me- 
dia o m ,70 por o m ; 45 e o m ,i na espessura: a do sul, mais irre- 
gular, i m ,5o por o m ,5o d'um lado e o ra ,83 do outro, e o m , 12 
de espessura media. Estas lages deviam ter vindo, segundo 
nos informaram, do sitio de Alface, a 7 kilometros da ne- 
cropole. 

Levantados, appareceram os topos de cinco suppor- 
tes, feitos com lages brutas da mesma rocha, cravadas de 
cutello. A sepultura estava orientada ao rumo magnético 
de NS. Um dos supportes, na direcção de LO, fechava o re- 
cinto pelo N ; outro, na direcção de NS, formando appro- 
ximadamente um angulo recto com o anterior, fechava o 
lado de L; outro ao sul formava um angulo obtuso como o 
segundo; e dois formavam o lado do O, mas descrevendo 
entre si um angulo reintrante, talvez proveniente de deslo- 
cação que soríressem pela pressão lateral e exterior das ter- 
ras. Se não fossem estas irregularidades, a forma da sepul- 
tura seria sensivelmente rectangular. 

Os supportes mediam na altura de ò m ,46 a o m ,75: o do 
norte o m ,83 no comprimento e o m ,o8 na espessura; o do nas- 
cente i m ,20 no comprimento e o m ,io na espessura; o do sul 
o m ,5o no comprimento e o m ,07 na espessura; um dos colloca- 
dos ao oeste o m ,56 no comprimento e o m ,o7 na espessura, e o 
outro o m ,37 no comprimento e espessura igual á do anterior. 
Explorado o entulho, em que não encontrámos indícios de re- 
meximento, verificámos a existência de um esqueleto humano 
de individuo adulto, parecendo occupar a posição dos encon- 
trados na primeira sepultura, e recolheram-se duas pontas de 



NATURAES E S0C1AES 65 



cTalfinetes de cobre muito oxydado, de secção quadrangu- 
lar, medindo o m ,o32, e um vaso hemispherico de barro do 
typo e estructura dos que ficam descriptos, medindo appro- 
ximadamente entre o m ,i7 e o m ,2 no diâmetro irregular da 
bocca. Notámos nos fémures uma pilastra muito desenvol- 
vida; mas pareceu-nos que a platycnemia das tibias era 
bastante attenuada. 

A natureza do metal, de que eram fabricadas as refe- 
ridas pontas, foi-nos confirmada pela analyse chimica. O 
snr. Figueiredo concedeu-nos uns pedaços sobre que operou 
o snr. Sotero Simões d'01iveira, habilissimo pharmaceutico 
da Figueira, que se tem encarregado das analyses .chimicas 
para o Museu Municipal. Um dos fragmentos era tão pe- 
queno que a analyse não podia dar um resultado certo; 
mas só encontrou nelle o cobre, e o aspecto da parte in- 
terna do objecto nem indicava outra cousa, nem era diverso 
do que apresentava o outro fragmento, acerca do qual o 
snr. Oliveira nos dirigiu o relatório seguinte: 

«Pelo seu aspecto exterior e pelas oxydações que tinha 
mostrava pertencer a um objecto antigo, tendo o aspecto 
interior, a cor e o brilho do cobre. Seguindo os methodos 
por via húmida indicados no tratado de oAnalyse chimica 
qualitativa do cx. mo snr. Joaquim dos Santos e Silva, veri- 
fiquei ser o cobre metallico. » 

Não podemos fazer verificar pela analyse a composição 
dos outros objectos recolhidos na necropole antes da nossa 
exploração, porque não nos pertenciam; mas a brandura, o 
brilho e a cor do metal são iguaes aos dos fragmentos ana- 
lysados; e objectos semelhantes, recolhidos por Estacio da 
Veiga em outras estações, e de que adiante havemos de fai- 
lar, foram analysados chimicamente por pessoa auctorisada, 
e não se encontrou n'elles outro metal. Por isso, até prova 
em contrario, nós reputamos todos esses artefactos de cobre. 

A i m ,5o approximadamente para o norte d'esta ultima 
sepultura a sonda indicou outra. Excavado o solo, encon- 



66 REVISTA DE SC1ENC1AS 



traram-se apenas as ruínas do monumento. Dois supportes, 
um de i m e outro de o m ,8o de comprimento e de espessura 
quasi igual, estavam ainda cravados de cutello em alinha- 
mento de NS, e ao lado do primeiro appareceram alguns 
fragmentos doutras lages. N'este sitio fora plantada uma 
amendoeira, e o entulho da sepultura estava muito reme- 
xido e carregado do adubo que fora applicado áquella arvo- 
re; o que explica sem duvida a destruição. 

Não podemos levar mais longe a exploração por causa 
das chuvas. Ainda voltámos um mez depois a Faro, a ten- 
tar a continuação dos nossos estudos; mas as terras esta- 
vam em lama, e por isso foi forçoso adiar os trabalhos para 
outra epocha. 

Não desistimos, porém, do nosso propósito. Se conhe- 
cemos já, por diversos exemplares, um typo da cerâmica 
que procurávamos, interessam muito agora outros proble- 
mas. Um d'elles é se na necropole não haverá sepulturas 
marcando uma epocha de transição. As duas que nós estu- 
dámos não continham instrumento algum ou lasca de rocha 
que indicasse a idade da pedra; posto que seja frequente, 
até em sepulturas de epochas históricas, apparecerem silices 
trabalhados e instrumentos neolithicos, que nos terrenos 
haviam abandonado as populações que os usavam, e que 
foram sem duvida misturados nos entulhos que cobriram os 
corpos. Por outro lado também nada appareceu que podesse 
fazer suspeitar o conhecimento do bronze. Se assim acon- 
tecer em todas as que nos restam, ou, pelo menos, em todas 
as sepulturas que forem exploradas, nós teremos verificado 
com certa segurança a realidade d'uma estação do cobre 
puro, e então o estudo archeologico dos monumentos e do 
mobiliário permittirá traçar a vida do homem n^essa epocha, 
c o estudo dos esqueletos, que porventura se encontrem em 
estado regular de conservação, dará á anthropologia ele- 
mentos para nos explicar as caracteristicas da raça a que 
pertenciam. 



NATURAES E S0C1AES 67 



Outro problema, muito mais restricto, é se o modo de 
inhumação, que nos foi indicado pela posição dos quatro 
esqueletos, será constante em todas ou em grande parte das 
sepulturas da necropole. Se for geral ou muito frequente, 
será licito pensar em algum rito funerário que lhe servisse 
de norma. 

Nós ficámos verdadeiramente surprehendidos por aquella 
descoberta. Estacio da Veiga nada nos tinha deixado escri- 
pto sobre o assumpto, descrevendo aliás numerosas esta- 
ções mortuárias que reputou typicas da epocha do cobre no 
Algarve, muitas das quaes foram exploradas por elle. As 
explorações parecem ter sido desacompanhadas de uma 
attenção minuciosa quanto ás circumstancias da situação 
dos ossos e objectos no entulho das sepulturas, circumstan- 
cias que tinham uma importância capital para a ethnogra- 
phia. 

Inhumações de cocaras, na epocha neolithica, já nós tí- 
nhamos encontrado no estudo do megalitho de Santo Amaro 
da Serra, próximo do Cabo Mondego, e vimos depois con- 
firmadas em outro monumento da mesma epocha, recente- 
mente explorado; mas na posição indicada pelos esqueletos 
das sepulturas da Campina não temos noticias de inhuma- 
ções na paleoethnologia portugueza. 

Para encontrar algum facto semelhante podemos talvez 
ir muito longe da Península, sem comtudo nos julgarmos 
auctorisados a estabelecer qualquer relação ethnicá entre os 
povos em que elle tem sido observado. O montículo de 
Hanaí-Tépeh, na Troada, encerrava sepulturas em que não 
pôde duvidar-se da existência de tal pratica nos enterra- 
mentos; e Perrot e Chipiez notam certa semelhança entre a 
cerâmica doesta estação e a da primeira cidade de Hissarlik, 
cujos restos se encontram debaixo das ruínas de Tróia : 
postoque em Hana*í-Tépeh apparecesse o bronze e n'aquella 
estação o cobre. Eis a descripção que apresentam esses au- 
ctores : «Les seules sépultures desquelles on puisse affir- 



68 REVISTA DE SCIENCIAS 



mer qu'elles sont contemporaines des premiers efforts que 
1'homme a faits, dans cette contrée, pour sortir de la bar- 
bárie, c'est celles qui ont été reconnues dans 1'étage inférieur 
de ce monticule d'Hanaí-Tépeh qui, pendant l'âge classique, 
portait à son sommet le temple d'Apollon Thymbroeos. Au- 
dessous des restes de cet édifice, on a rencontré les débris 
d'un village de 1'époque préhistorique, ou la poterie est aussi 
rudimentaire que dans les couches les plus profondes du 
tertre á^Hissarlik; presque tous les outils y sont en pierre 
et en os; le bronze y est rare. On a trouvé là un certain 
nombre de squelettes, tantôt sur le roc même, tantôt un peu 
au-dessus, dans ce qui semble avoir été le sol de certaines 
maisons. Ces squelettes étaient ensevelis la face contre terre, 
les têtes tournées à 1'ouest et les genoux pliés en deux. 
Point de fosses creusées dans la roche vive ou à parois ma- 
çonnées; on se contentait de creuser un trou en terre et d'y 
placer les corps. II n'y a d'exception que pour deux tombes 
d'enfant, faites de briques séchées au soleil Ç 1 ). 

Outro ponto a resolver será a forma typica dos monu- 
mentos funerários, se porventura alguma existiu. A necro- 
pole está n'uma planície, e os dois monumentos por nós 
estudados não apresentam a forma quadrangular; e por 
conseguinte temos novas excepções para as caracteristicas 
geraes da epocha do cobre formuladas por Estacio da Veiga. 
Se as explorações proseguirem n'esta e n'outras estações 
ainda ignoradas, serão regras ou excepções os caracteres 
estabelecidos por aquelle illustre archeologo? Ninguém o 
poderá prever. 

Ainda sobre a cerâmica ha a averiguar se na necropole 
não haverá variedades quanto a estructura, forma e orna- 
mentação. Já sabemos pelos três vasos que encontrámos e 
por alguns restos recolhidos no entulho sahido das sepultu- 
ras destruídas antes da nossa exploração, que nem a pasta, 

(*) Histoire de VArt, t. 6.°, pag. 5Ô2. 



NATURAES E SOCIAES 69 



nem o trabalho, nem a forma diíTerem dos que temos estu- 
dado em vasos da necropole neolithica da Serra do Gabo 
Mondego. É o mesmo barro annegrado, com mistura de 
grãos quartzosos, trabalhado á mão e levemente cosido. 
Amigos nossos, que chegaram recentemente das margens 
do Madeira, confluente do Amazonas, onde residiram mui- 
tos annos, affirmam que os Índios d^quellas regiões ainda 
presentemente assim trabalham e cosem o barro das suas 
louças, dando-lhe a côr negra com o pó de carvão da casca 
de certas arvores, na persuasão de que a pasta fica por 
este meio mais solida. O mais notável é que alli alguns co- 
lonos europeus, que vivem mais desviados dos centros de 
população, fabricam também louças por este processo pri- 
mitivo ! 

A forma hemispherica é a mais geral na referida necro- 
pole neolithica. Nós até possuimos um vaso, exposto no 
Museu Municipal da Figueira, que facilmente se confundiria 
com o maior dos que nós recolhemos na Campina, hoje res- 
taurado e em poder do illustre director da Escola Pratica 
d^gricultura. 

Tudo isto vae sem duvida abalar o asserto de Estacio 
da Veiga, que reputa característica da epocha do cobre uma 
cerâmica differente e mais aperfeiçoada do que a neolithica, 
tendo até formas melhoradas. Se elle quiz referir-se á forma 
hemispherica modificada por uma depressão concava desde 
metade ou um terço do bojo até á bocca, de que apresenta 
exemplares nos n. oa 8 e 11 a i3 da estampa i3. a do 4. vo- 
lume da sua obra, e a alguns dos quaes chama bellissimos, 
nós podemos affirmar que semelhante typo pertence á epo- 
cha neolithica, porque nós encontrámos um exemplar em 
um dos megalithos da Serra do Cabo Mondego, que se acha 
também exposto no referido Museu. 

Mas deixemos a futuras explorações a solução completa 
d'estes e d'outros problemas; e passemos á descripção dal- 
guns dos objectos provenientes da necropole da Campina. 



70 REVISTA DE SC1ENCIAS 



A adaga é do typo da representada na fig. 14.*, es- 
tampa io. a , do tomo 4. da obra do snr. Estacio da Veiga, 
e que este diz ser proveniente da necropole do Monte do 
Castello, a que já nos referimos n'este escripto; typo que 
está também desenhado na obra do snr. Cartailhac sobre a 
prehistoria da Península, a pag. 216. Mas ha duas differen- 
ças dignas de reparo. O exemplar da Campina, em vez 
d'uma aresta longitudinal no meio das faces da lamina, tem 
uma forte nervura de forma convexa, que começa na ponta 
e vae alargando até á altura dos ângulos externos que pa- 
recem separar a lamina do espigão, onde attinge o m ,oi5 de 
largura, e vae também abatendo de altura até confundir-se 
com a superfície da lamina. Esta nervura dava incontesta- 
velmente maior solidez á arma, do que a simples aresta do 
exemplar de Estacio da Veiga. 

A outra diíferença está em que os referidos ângulos ex- 
ternos da lamina são muito mais salientes do que n^este 
exemplar: um d^elles attinge o m ,oi2. Tem dois orifícios cir- 
culares no espigão, para as cavilhas que fixavam o cabo; 
mas estas, que deviam existir na sepultura, não foram reco- 
lhidas. 

Mede esta peça o m ,225 no comprimento, e na largura 
da lamina, junto aos ângulos externos, o m ,o 42, n'estes ângu- 
los o m ,o65, e na extremidade inferior do espigão o m ,o32. O 
diâmetro dos orifícios é de o m ,oo5. 

A ponta de lança, que estava inteira, tem a forma das 
que estão representadas nas fig. as 1 . a , 2. a e 4- a da estampa 
12. a , volume 4. , da obra de Estacio da Veiga, a duas das 
quaes este chama facas ou adagas, classificando a outra de 
adaga, provenientes do sitio das Antas e da necropole do 
Serro da Eira da Estrada; typo reproduzido na alludida 



NATURAES E SOCIAES J l 



obra do snr. Cartailhac, pag. 216. Mas tem quatro orifícios 
na base, e estes são circulares. Duas pequenas cavilhas de 
cobre conservam-se ainda fixas nos respectivos orifícios; e 
a o m ,o2 da base convexa da lamina nota-se uma pequena 
aresta transversal formada, segundo parece, por aggregação 
terrosa, que indica o ponto onde terminava a haste em que 
a peça era fixada. 

Mede no comprimento o m J47, na maior largura da 
base o m ,o32 e na espessura máxima o m ,ooi5. Se a oxydação 
não causou a perda d'uma parte considerável da primitiva 
espessura d^sta arma, não nos parece que ella tivesse mais 
vantagens do que uma ponta de lança de silex : antes pen- 
samos que lhe seria muito inferior. 

O fragmento da outra ponta de lança tem quatro enta- 
lhos lateraes junto á base, que serviam, sem duvida, para 
fixal-a por meio d'algum fio ou fibra na respectiva liaste. 
Mede o m ,029 na maior largura e o m ,oo2 na espessura. 

Esta ultima peça é interessante. Estacio da Veiga apre- 
sentou as pontas com entalhos na base como fundamental- 
mente características das estações de transição do neolithico 
para o cobre, e as pontas com orifícios e cavilhas na base 
como características da plena epocha do cobre; mas na ne- 
cropole da Campina, onde não ha instrumentes de pedra, 
nem vestigies d'elles, pois que todos são de cobre, das duas 
únicas pontas de lança conhecidas uma tem entalhos e outra 
orifícios. Isto quer dizer que em plena epocha do cobre 
qualquer des methodos de fixar as pontas de lança não ex- 
clue o outro, poisque coexistiram ambos. 

Emfim o adorno de ardósia polida é muito importante 
para nós. Se porventura recorda a idade da pedra, nem por 
isso lhe pertence. A pedra, empregada só nos adornos, não 
é pertença d'uma epocha: ainda hoje as rochas figuram nes- 
ses objectos entre es povos mais civilisados. Nós encontra- 
mos uma placasinha de osso nos depósitos de Santa Olaya, 
concelho da Figueira, com a forma d'aquella: era rectangu- 



72 REVISTA DE SC1ENC1AS 



lar e alongada, e também tinha um orifício junto a cada 
uma das extremidades; mas continha uma singular orna- 
mentação, que aqui não importa conhecer. Estava associada 
a louças grosseiras, mas muito mais duras do que as da 
Campina, e que nós por emquanto attribuimos a epocha do 
cobre no Valle do Mondego. 

Mede o objecto da Campina o m ,o7i no comprimento, 
o m ,o22 na maior largura e o m ,oo4 na espessura. Os orifícios 
são de forma cónica e abertcs pelas duas faces da placa. 

Nenhum adorno semelhante tem sido encontrado por 
nós entre o mobiliário da necropole neolithica da Serra do 
Cabo Mondego, posto que tenhamos encontrado alguns com 
dois orifícios. 

Quanto ao modo de o suspender, pensamos que o fio 
do collar devia passar pelos dois orifícios, afim de manter o 
objecto em posição horisontal. Assim temos collocado o seu 
similar de Santa Olaya em um collar restaurado que se acha 
exposto no Museu Municipal da Figueira. 

Considerando a diversidade d'estes objectos e dos des- 
cobertos por nós, e que a nossa exploração, como dissemos, 
só comprehendeu verdadeiramente duas sepulturas, tendo 
sido as outras excavadas sem uma observação minuciosa, 
é fácil presumir que a necropole, methodicamente explorada, 
deve fornecer despojos abundantes, talvez sufíicientes para 
explicarem uma das epochas mais obscuras e mais interes- 
santes da idade dcs metaes no Algarve. 

Figueira da Foz, 1895. 



Santos Rocha. 



ALGUNS TÓPICOS DE UMA THEORIA 



DAS 



ANOMALIAS ÓPTICAS DOS CRYSTAES (*) 



O problema das anomalias ópticas dos crystaes é um 
dos mais interessantes e complexos da crystallographia con- 
temporânea, não só porque ellas constituem por assim dizer 
um desmentido apparente ás leis fundamentaes da crystal- 
lographia, mas também porque do seu estudo se podem» 
como-creio, deduzir já algumas consequências que principiam 
a esclarecer um ponto até aqui completamente obscuro mas 
importante para a sciencia: qual a causa que pôde alterar 
mais ou menos o arranjo molecular do crystal e até certo 
ponto qual a natureza d'essa alteração. 

A determinação da symetria dos crystaes faz-se princi- 
palmente por dois processos : o goniometrico e o da inves- 
tigação óptica. 

Nos crystaes theoricamente normaes os resultados a 
que se chega por um ou por outro processo são natural- 
mente idênticos; nos crystaes anómalos porém, cujo nu- 
mero cresce de um modo notável em cada anno de obser- 



(*) Resumidos, na maior parte, de uma memoria publicada com o 
titulo: Beiirag %u einer Thcorie der optischen zAnomalien der regu- 
lar en Krystalle. Lisboa, 1894. 



74 REVISTA DE SC1FNC1AS 



vação e com cada progresso realisado nos apparelhos cVopti- 
ca, o grau de symetria do crjsta] anómalo obtido pelo me- 
thodo goniometrico é superior ao que se deduz da sua 
observação óptica. 

A esta incongruência chama-se vulgarmente anomalia 
óptica. 

Em França, e nos paizes seus subsidiários sob o ponto 
de vista scientifico, é geralmente acceite a theoria das ano- 
malias de Mailard. 

Na Allemanha porém, alguns auctores teem procurado 
refutar aqueila theoria, mostrando que ha um grande numero 
de phenomenos anómalos que a contradizem, sem comtudo 
se ter formulado uma synthese theorica destes phenomenos 
que possa contrapôr-se á theoria de Mailard. 

Antes de resumir aqui uma explicação minha publicada 
recentemente, em que ordenei e completei varias notas e 
estudos anteriores sobre o mesmo assumpto (}), principiarei 
por dar uma ideia rápida da theoria de Mailard mostrando, 
por meio de alguns exemplos, que ella não é acceitavel. 



( i 1 ) I c Beitràge ^iir Kenntniss der optischen Eigenschaften des 
oAnalcim in Nachrichten v. d. K. Gesellsch. der Wissenschaften ele. 
Gõttingen. 5 março 1881. 

II Ueber den Analcim. N. Jahrb. f. Mineralogie etc. vol. I 1882. 

III Ueber den Perowshite. Gõttingen 1882. 

IV Ueber doppelbrechende Steinsal^ Krystalle N. Jahrb. f. (Mi- 
neralogie etc. vol. I í88j. 

VI cAnomalias ópticas. Jornal de Sciencias (Math. Phys. e 
Naturaes. Lisboa i8S3. 

VII Note sur la cause de la birefringence de quelques cristaux de 
sei gemme etc. ^Bitl. d. I. Soe. minéralogique de Fr. Tome VI. i883. 

VIII T)a incongruência entre a observação e a theoria em al- 
guns crystaes, etc. Lisboa 1884. 

IX Beitrag z. e. Theorie des optischen Anomalien etc. Lisboa 
1894. 

X Note sur la corrosion d'un alun biréfringent. Comm. da 
Commissão dos trabalhos geológicos. Vol. III- i8q5. 



NATURAES E SOCIAES 75 



No que segue referir-me-hei de preferencia aos crystaes 
cúbicos, porque rTelles a birefrangcncia anómala, quando 
existe, é mais facilmente observável do que nos crystaes já 
de si normalmente birefrangentes, em que os phenomenos 
ópticos são uma resultante da birefrangencia normal theori- 
camente prevista, combinada cem a anómala. De resto os 
phenomenos anómalos nos crystaes cúbicos ou não cúbicos 
são da mesma natureza, e podem por isso applicar-se a 
todos os crystaes em geral os resultados a que chegarmos 
pelo estudo dos crystaes cúbicos. 



Mallard admitte que os crystaes cúbicos anómalos são 
apenas cúbicos na apparencia externa, mas que realmente 
se acham formados de um conjuncto de indivíduos birefran- 
gentes (e portanto de symetria inferior á apparente) ligados 
entre si segundo leis de geminação mais ou menos com- 
plicadas. 

O crystal anómalo é pois, segundo este auetor, um 
conjuncto symetrico formado por partes assymetricas ou 
de menor symetria. 

Citemos um exemplo: 

Segundo Mallard, um dodecaedro de granada anómala 
é constituído geralmente por 12 pyramides rhombicas tendo 
cada uma d'ellas uma face de 00 O (no) por base. 

Posteriormente reconheceu-se porém, que a granada 
anómala crystallisada com a forma de 2O2 (211) é consti- 
tuída por 24 partes apparentemente monoclinicas. 

Cada uma das partes ópticas assenta n'uma das faces 
de 2 O 2 (2 1 1). 

Se a granada é limitada pelo hexakisoctaedro 30§(32i), 
na composição do crystal entram 48 partes de caracter 



y6 REVISTA DE SC1ENC1AS 



óptico triclinico e cada parte óptica termina externamente 
em uma das 48 faces do hexakis-octaedro. 

As propriedades ópticas indicam pois, segundo o ponto 
de vista de Mallard, um trimorphismo da granada, que se- 
ria rhombica quando em rhombo-dodecaedros, monoclinica 
quando em icositetraedro e finalmente triclinica quando em 
hexakisoctaedros. 

Se porém, um único crystal de granada anómala é limi- 
tado pela combinação de varias formas, esse crystal é então 
formado por partes pertencentes opticamente a vários sys- 
temas, como mostrou C. Klein (1894) e o auctor d 'esta nota 
previra já em 1883. (^1) O- Se a theoria de Mallard fosse 
verdadeira, chegaríamos á seguinte conclusão: 

As varias modificações da granada crystallisam simul- 
taneamente nas mesmas condições e podem formar um só in- 
dividuo colleclivo de symetria cubica. 

Esta conclusão é evidentemente absurda porque contra- 
ria o seguinte principio estabelecido por innumeras expe- 
riências : 

As varias modificações de um corpo polymorpho crys- 
tallisam sempre em condições diversas. 

O caso da granada não é isolado. A analcima, limitada 

pela combinação de ao O 00 (100) e 2 O 2 (21 1), é formada 

de seis partes uniaxiaes (tetragonaes) e 24 partes biaxiaes 

(monoclinicas). O nitrato de chumbo, na combinação de 

00 O 2 

O (iii)> ir (2 10), é formado por 8 pyramides unia- 

ji 

xiaes (rhomboedricas) e 12 biaxiaes (monoclinicas), etc. 

A hypothese de Mallard, que parece com eífeito satis- 

factoria, quando se estudam crystaes anómalos limitados 

por formas simples, é pois inadmissivel, porque as suppos- 



(*) Quando me refirir a alguns dos trabalhos citados a pag. 3 men- 
cionarei apenas o numero d'ordem chronologica porque alli se acham 
designados. 



NATURAES E S0C1AES 77 



tas modificações polymorphas se encontram n'um mesmo 
individuo quando este é limitado por uma combinação de fa- 
ces de s/me tr ia diversa ( x ). 

Como porém, os phenomenos anómalos são de egual 
natureza, tanto nas formas simples como nas combinações, 
não pôde duvidar-se de que a explicação de Mallard é falsa 
desde que as propriedades ópticas de uma dada espécie 
mostrem variações dependentes da variação morphologica. 



Das nossas observações, assim como de estudos e ob- 
servações alheias, chegámos á convicção de que os crystaes 
anómalos pertencem ao systema da crystallisação em que 
entram as formas que os limitam externamente e de que as 
suas propriedades ópticas são, por assim dizer, phenomenos 
de segunda ordem. 

A nossa concepção das anomalias, para os crystaes cú- 
bicos, pôde formular-se da seguinte maneira: Os crystaes 
cúbicos anómalos são realmente cúbicos, mas são anisoiropos; 
porque a disposição das suas densidades máximas e mínimas 
é um pouco differente da prevista na theoria para o caso dos 
indivíduos isotropos. Posto assim o problema, dividimol-o 
logicamente em duas partes : 

a) — Determinar qual a disposição material que produz 
os phenomenos de anomalia. 

b) — Achar a causa que produz a disposição anormal 



( d ) Este principio da dependência das propriedades ópticas da sy- 
metria das faces do crystal foi nitidamente estabelecido por mim em 
i883 (Vi), e depois em 189 1 pelo professor Brauns que, ao que parece, 
não tinha conhecimento do meu trabalho de i883, com quanto sobre 
elle escrevesse, em 1886, ama critica assa^ superficial. 



?8 REVISTA DE SCIENC1AS 



dos máximos e mínimos de densidade, isto é — a causa da 
pycno-anomalia. ( x ) 



Uma lamina de um cubo de analcima, passando pelo 
centro d'este solido parallelamente a um par das suas faces, 
divide-se em quatro áreas triangulares de orientação óptica 
diversa, tendo cada uma das áreas um dos lados da lamina 
por base. 

Ligando os vértices da placa quadrada, pelas suas dia- 
gonaes, estas coincidem com zonas estreitas quasi ou total- 
mente isotropas que separam as quatro áreas birefrangentes. 

E, como são idênticas as propriedades ópticas de uma 
qualquer das três placas que, do cubo de analcima, se po- 
dem cortar parallelamente a um dos três pares de faces que 
limitam o crystal, conclue-se que este se acha formado por 
seis pyramides, tendo cada uma d'ellas uma face do cubo 
por base e o vértice no centro do crystal (II). 

Cada uma doestas pyramides é uniaxial, como o mostra 
a observação em luz polarisada convergente, e o eixo óptico 
coincide com a normal á face do cubo que lhe serve de base. 

Um tal cubo de analcima, attacado durante alguns mi- 
nutos pelo acido chlorhydrico morno, apresenta figuras de 
corrosão visiveis ao microscópio, de uma forma sui generis, 
parecendo furos de verruma mais ou menos próximos das 
perpendiculares ás faces do crystal (II, flgs. 24 a 26). ( 2 j 

(*) Termo que empregaremos como synonymo de anomalia da 
distribuição dos máximos e mínimos de densidade de um modo não pre- 
visto na theoria. 

( 2 ) Numa noticia recente, Àmbronn e Le Blanc (K. Gesellsch. d. 
Wissenschaften. \. Leipzig, 2 julho Q4) descrevem phenomenos de 
corrosão semelhantes observados principalmente em crystaes formados 



NATURAES E S0C1AES 79 



Significam estas figuras que a solubilidade é maior nas 
direcções normaes ás faces do crystal do que em qualquer 
outra direcção. 

Esta disposição das densidades está porém, em opposi- 
ção com a theoria que ensina serem ellas eguaes nas três 
direcções parallelas ás arestas do cubo. 

A densidade no cubo da analcima anómala é pcis me- 
nor nas direcções normaes ás faces, isto é nas direcções de 
menor crescimento do crystal. 

D'esta e outras observações realisadas em crystaes de 
apophyllite, alúmen, fluorite, milarite e penta-erythrite, per- 
tencentes a vários systemas de crystallisação, deduzimos 
que os crystaes anómalos se formaram com densidades nor- 
maes somente nas \onas em que a força de crystallisação 
actua com maior energia {entre o centro e as arestas) ; nas 



n'uma mistura de duas soluções, uma de nitrato de baryo, outra de ni- 
trato de chumbo, as quaes apresentam egualmente anomalias. Estes au- 
ctores julgam que, nos orifícios formados por corrosão, se encontraria 
um dos saes que se acha no crystal em grosseira mistura mecânica 
com o primeiro. N'esta mistura de dois saes isotropos reside, segundo 
os auctores citados, a causa da anomalia, mas vem expressamente no- 
tado, no escripto interessante a que nos referimos, que fragmentos dos 
crystaes de eguaes dimensões ou menores do que a dos orifícios de cor- 
rosão se mostram egualmente birefVangentes, o que não está bem d'ac- 
cordo com a opinião citada dos auctores. 

Na analcima do Algarve principalmente, a formação de canaes e 
orifícios de corrosão é muito apparente, e no emtanto não se pôde 
admittir que a anomalia e a formação dos ditos canaes seja proveniente 
de differentes substancias em mistura que não existem n'estes crystaes, 
como prova uma analyse do snr. Lepierre. 

Nos crystaes de nitrato de baryo e nitrato de chumbo as pyrami- 
des correspondentes ás faces do cubo são isotropas, como mostrou 
Brauns. N'um crystal formado dos dois saes, como Ambronn e Le Blanc 
suppõem, deveriam estas pyramides ser birefrangentes; ou então, se fos- 
sem formadas de um só dos saes (o que levaria a suppor enormes diffe- 
renças de composição dentro do mesmo individuo), não deveriam pro- 
duzir-se os canaes de corrosão descriptos pelos auctores citados. 



8o REVISTA DE SC1ENCJAS 



direcções de menor crescimento {entre o centro e as faces) a 
densidade é relativamente menor do que nos crystaes nor- 
maes. (VI, VIII). 

A explicação[da birefrangencia é naturalmente fornecida 
pela anomalia da densidade observada n'aquelíes corpos. 
Com effeito; é geralmente sabido que os crystaes isotropos 
se tornam birefrangentes quando lhes alteramos as densida- 
des por pressão. 

No cubo, por exemplo, a diminuição de densidade na 
direcção do menor crescimento produz, em cada pyramide 
que tem por base uma das suas faces, uma disposição ma- 
terial equivalente á de um individuo tetragonal, passando 
cada face do cubo a ter a valência de oP (oo i). 

A observação óptica confirma este raciocínio (VI, IX). 

De egual modo se podem deduzir à priori as proprie- 
dades ópticas das partes que devem compor cada uma das 
formas simples do systema cubico. As deducções concordam 
de um modo surprehendente com as observações realisadas 
em numerosos corpos anómalos (IX, pag. 23). (*) 



Uma particularidade óptica de alguns crystaes anóma- 
los é ainda o apresentarem-se as partes de orientação di- 
versa, de que elles se compõem, formadas por camadas pa- 
rallelas a cada uma das faces com caracteres ópticos de 
signal opposto. 

Tem-se procurado explicar esta particularidade admit- 
tindo que taes crystaes são formados por camadas de com- 
posição diversa, attribuindo-se além d'isso birefrangencias 

(*) Por engano acha-se alli a rhodizite incluída entre os corpos 
anómalos pseudo-rhombicos, quando é de facto pseudo-monoclinica. 



NATURAES E S0C1AES H l 



oppostas ás hypotheticas componentes isomorphas que alter- 
nadamente entrariam na composição dos crystaes (Brauns, 
Klein). Não ha porém nenhum fundamento chimico, no que 
respeita a crystaes naturaes, para sustentar tal hypothese; 
contra ella poderíamos, em muitos casos, fazer valer argu- 
mentos de ordem physica (IX). 

Esta particularidade explica-se egualmente de um mo- 
do satisfactorio pela nossa hypothese da diminuição de den- 
sidade, como vamos ver. 

Consideremos uma das seis pyramides apparentemente 
tetragonaes que constituem o cubo anómalo e que teem por 
base uma das faces do cubo. Esta pyramide é formada evi- 
dentemente de um numero relativamente menor de molécu- 
las do que a parte correspondente em um cubo isotropo, por 
isso que esta é menos densa. 

O eixo óptico, n'esta pyramide, é normal á face do cubo 
que lhe serve de base e tem a valência óptica de um pina- 
coide tetragonal. 

Como a symetria da distribuição material é a mesma 
na face do cubo isotropo e no oP (ooi) tetragonal, o numero 
menor de moléculas que consiitue a 'pyramide do individuo 
anómalo está disposto de tal modo que a symetria da face 
do cubo se conserva a mesma para o cubo normal ou anó- 
malo. 

E fácil de ver que são dois os agrupamentos possíveis 
que satisfazem áquella condição. 

Supponhamos o cubo theorico formado de fiadas de 
moléculas parallelas aos três eixos principaes, e chamemos 
x a distancia entre duas moléculas visinhas segundo qual- 
quer das três direcções. 

O problema consiste em achar os modos de coordenar 
um numero de moléculas inferior ao que constitue o cubo 
isotropo, de modo que a symetria da face do cubo anómalo 
seja egual á d^quelle. 

No cubo theorico temos uma malha cubica formada 



S2 REVISTA DE SC1ENC1AS 



por oito moléculas; ao passo que na pyramideanomala do 
cubo se realisa um dos dois casos seguintes: 

a) — Segundo os dois eixos parallelos á base (uma das 
faces do cubo) conservam-se as distancias moleculares eguaes 
a x; segundo o terceiro eixo normal á base a distancia é 
maior e igual a x -f- n; teremos pois uma malha paralleli- 
pipeda cujos maiores lados estariam dispostos perpendicu- 
larmente á base. 

b) — Segundo os dois eixos parallelos á base a distancia 
intermolecular será x -\- n; na direcção do terceiro eixo nor- 
mal á base a distancia será x; teremos, n^ste caso, uma 
malha parallelipipeda cujos menores lados serão perpendi- 
culares á base. Q-) 

O caso primeiro corresponde á disposição molecular de 
um crystal isotropo dilatado segundo o eixo perpendicular 
á base; o caso segundo representa a disposição molecular de 
um corpo isotropo comprimido segundo a mesma linha. Cor- 
pos normalmente isotropos dilatados n^ma direcção são ani- 
sotropos com birefrangencia de signal opposto á dos mesmos 
corpos comprimidos na mesma direcção. O nitrato de chum- 
bo anómalo em octaedros comporta-se como se fosse dila- 
tado segundo as normaes ás faces do octaedro; o alúmen 
egualmente em octaedros comporta-se como se fosse umas 
vezes dilatado outras vezes comprimido. 

A estructura molecular destes corpos não pode deixar 
de corresponder a um dos dois casos possíveis a que o racio- 
cínio nos conduz, se com effeito estes corpos são cúbicos, 

A variação do signal de birefrangencia deduz-se pois 
eguaimente da anomalia de densidades; e o apparecimento, 
n\im mesmo crystal, de camadas alternadas de signal óptico 
opposto não pôde deixar de se explicar por um crescimento 



(*) Haveria mais um caso possível : aquelle em que as distancias 
intermoleculares, nas direcções dos três eixos, fossem eguaes a x -f- n ; 
mas esse conduzir-nos-hia ao caso do cubo theorico e não seria portanto 
anómalo. 



NATURAES E SOCIAES 83 



realisido ora segundo a hypothese a, ora segundo a hypo- 
these b. 



Pela pycno-anomalia se explicam também com facili- 
dade certas variações goniometricas dos crystaes anómalos, 
a formação de fendas e tensões, as estructuras leuciticas e 
as deducções concordam com as observações, como tive oc- 
casião de mostrar desenvolvidamente n'outro logar (IX). 

Da hypothese que as anomalias são causadas por alte- 
rações de densidade não previstas na theoria geral dos crys- 
taes, deduzem-se pois as explicações dos phenomenos se- 
guintes : 

1) — Birefrangencia anómala; 

2)— Dependências das propriedades ópticas da forma 
que limita o crystal; 

3)— Composição do mesmo crystal de partes uniaxiaes 
e biaxiaes; 

4)— Variação do signal da birefrangencia; 

5)— Certas variações angulares; 

6) — Tensões, etc. 

A nossa hypothese, repito, está solidamente baseada 
n'um numero considerável d^bservações feitas em vários 
crystaes anómalos e até hoje não aproveitadas para a ex- 
plicação geral dos phenomenos citados. 



Os crystaes d'alumen são isotropos quando chimica- 
mente puros e anómalos quando conteem misturas isomor- 
phas, isto é, quando um mesmo crystal é formado n'uma 
solução de vários alúmens. 

Brauns, que estabeleceu este curioso facto, já não de 



84 REVISTA DE SC1ENC1AS 



todo desconhecido de Biot, conclue d'elle que no alúmen e, 
por analogia, em muitos outros crystaes, as anomalias são 
provenientes de mistura de moléculas isomorphas no mesmo 
crystal. Taes misturas de moléculas produzem tensões, se- 
gundo o auctor citado, e estas actuam por seu lado sobre o 
crystal, como uma prensa actuaria sobre um individuo iso- 
tropo, tornando-o birefrangente. 

Esta hypothese, acceite por vários auctores allemães, 
parece-nos não resistir á menor critica. Com effeito, se a 
mistura de moléculas isomorphas produzisse anomalias, as 
series dos carbonatos deveriam * apresentar anomalias em 
quasi todos os individuos, o que não succede. 

Mas, cingindo-nos até somente ao alúmen, é fácil mos- 
trar que a hypothese carece de fundamento. 

1) — O alúmen anómalo (formado portanto de mistura 
de moléculas, no. sentido de Brauns) é atravessado por zo- 
nas isotropas ou quasi isotropas que separam os vários 
campos birefrangentes. Se fosse verdadeira a explicação de 
Brauns estas zonas seriam egualmente anisotropas como o 
resto do crystal. 

2) — Quando um crystal é formado em uma solução de 
d fferentes alúmens, e limitado pela combinação do octaedro 
com o cubo, as pyramides que assentam nas faces do cubo 
são isotropas (segundo o próprio Brauns). A isotropia des- 
tas partes do crystal é explicada por este auctor admittindo 
que, nas pyramides correspondentes ás faces do cubo, se 
desenvolvem durante a crystallisação tensões eguaes segun- 
do os três eixos principaes do crystal. 

Esta hypothese gratuita é porém, inadmissível porque 
nada explica. Se fosse verdadeira, um crystal de alúmen li- 
mitado simplesmente pelo cubo seria sempre isotropo, até 
quando contivesse misturas isomorphas. Biot e depois Klocke 
mostraram porém, e nós podemos confirmar plenamente as 
suas observações, que o alúmen em cubos pode ser tão 
birefrangente como o crystallisado em octaedros. 



NATURAES E S0C1AES 85 



Havendo pois, nos crystaes cTalumen limitados por fa- 
ces octaedricas e cubicas, partes isotropas egualmente for- 
madas da mistura de alúmens differentes, e sendo inadmis- 
sível a hypothese auxiliar de Brauns.da egualdade das ten- 
sões nas pyramides correspondentes ás seis faces do cubo, 
não pôde admittir-se que seja a mistura de alúmens vários 
no mesmo crystal que produza a anomalia. Antes pelo contra- 
rio; pôde affirmar-se que a mistura isomorpha não evita 
que certas partes de extensão relativamente considerável 
sejam opticamente normaes. 

D'estas considerações deduz-se pois : 

— que a anomalia do alúmen não é devida a misturas 
isomorphas no crystal; 

2)— e somente que a anomalia é devida á existência de 
misturas na solução. É um facto conhecido que misturas 
isomorphas na solução difficultam a formação de crystaes 
perfeitos; a anomalia óptica é evidentemente devida a uma 
imperfeição de crystallisação, como vamos ver. 

O exemplo do iodeto de mercúrio (Hgl 2 ) é egualmente 
instructivo. Os crystaes d'este sal que se formam em solu- 
ções onde ha mistura de certas substancias orgânicas são 
anómalos. 

Aqui egualmente não são misturas isomorphas que pro- 
duzem a anomaiia, mas simplesmente as influencias devidas 
á presença de substancias extranhas na solução. 

Sal commum crystallisado lentamente em uma solução 
de agua pura é opticamente normal. Juntando um pouco de 
urêa á solução, os crystaes obtidos apresentam alterações 
morphologicas e birefrangencia anómala. Aqui não é permit- 
tido tão pouco pensar que haja quaesquer relações de iso- 
morphismo entre os dois corpos urêa e chloreto de sódio ; 
mas simplesmente influencias difficeis de explicar, devidas 
com certeza á presença do acido úrico na solução. 

Os crystaes de penta-erythrite formados lentamente 



86 REVISTA DE SC1ENCIAS 



são normaes; os que se formam com rapidez, pela evapora- 
ção de solutos alcoólicos, são anómalos. 

Para bem podermos interpretar esta observação de J. 
Martin basta lembrar que um augmento de rapidez da crys- 
tallisação corresponde a um augmento de viscosidade do 
dissolvente (O. Lehmann), e que ambas estas modificações 
podem produzir irregularidades de crystallisação. N'este 
exemplo a causa da anomalia é egualmente uma causa ex- 
terna, pois nem é permittido pensar que quaesquer sub- 
stancias extranhas contidas no meio possam ser mecanica- 
mente incluídas nos crystaes (como admittem Ambronn e 
Le Blanc), visto que taes substancias não existiam no dis- 
solvente. 

Uma solução acidulada de iodeto de sódio fornece fa- 
cilmente crystaes normaes; ao passo que a solução em agua 
pura fornece crystaes anómalos. Para interpretar devida- 
mente esta observação é sufficiente lembrar um facto conhe- 
cido de todos os que teem procurado obter crystaes perfei- 
tos no laboratório. — Em geral os crystaes formam-se com 
muita mais perfeição em soluções acidas do que em soluções 
neutras, facto este solidamente averiguado, com quanto 
pertença ao futuro explical-o. 

A serie de exemplos citados, que seria fácil augmentar 
com alguns outros, leva-nos a concluir que as anomalias se 
produzem, pelo menos, em crystaes formados nas seguintes 
circumstancias : 

a) — em soluções contendo substancias extranhas; 

b)— em crystallisações muito rápidas; 

c) — em soluções neutras. 

Estas três condições de crystallisação geram, como é 
sabido, imperfeições morphologicas referiveis em geral a in- 
sufficiencia de matéria que afflue ás regiões das faces dos 
crystaes, ou n'ellas se deposita. Como vimos, ellas podem 
provocar as anomalias ópticas; produzem pois, não somente 



NATURAES E S0G1AES Ky 



irregularidades morphologicas do crystal, mas também irre- 
gularidades na sua disposição molecular. 

Os casos b e c são, sem a menor duvida possível, 
provocados por influencias externas do meio; o caso a deve 
egualmente sel-o, como procurámos mostrar quando nos re- 
ferimos ao alúmen. Já vimos que o facto de, n'um crystal 
de alúmen, existirem misturadas moléculas de 2 alúmens 
differentes, não impede a isotropia em algumas das suas 
partes; podemos pois concluir que: a pyeno- anomalia que 
produ\ os phenomenos anomalo-dioptricos em alguns crys- 
taes ê devida a uma influencia externa do meio em que elles 
se formaram. 

Por analogia é permittido concluir que também, nos 
crystaes cujas condições de crystallisação nos são desconhe- 
cidas, a causa dos phenomenos é da mesma natureza. 



Os crystaes são em geral mais ou menos perfeitos se- 
gundo se formam lentamente ou de um modo precipitado; 
no primeiro caso teem geralmente as faces planas e poucas 
ou nenhumas soluções de continuidade. 

Se a crystallisação é imperfeita por qualquer razão, ape- 
nas se formam de um modo normal as \onas que correm do 
centro do crystal para as suas arestas. Os espaços compre- 
hendidos entre as arestas e o centro do crystal conservam- 
se vasios (tremonhas), ou preenchem-se por matéria inter- 
rupta e cheia de inclusões das aguas mães. N 7 este ultimo 
caso as arestas que penetram mais profundamente na solu- 
ção recebem ainda sufficiente matéria para se formarem 
normalmente; ás faces afflue uma menor quantidade de ma- 
téria que é no emtanto empregada em realisar o melhor 
possível a symetria crystallina. 



88 REVISTA DE SCIENCIAS 



A causa physica da anomalia óptica é, até certo ponto, 
comparável com este caso. 

Nos crystaes anómalos de analcima, alúmen, apophylli- 
te, fluorite, millarite, penta-erythrite, etc. encontram-se, 
como no caso anterior, zonas opticamente normaes ou quasi 
normaes entre o centro e as arestas; e quando n'ellas se 
encontra uma birefrangencia, esta é ainda em regra inferior 
á das restantes partes do crystal. 

Nas partes comprehendidas entre o centro e as faces é 
que se manifesta principalmente a irregularidade do cresci- 
mento, como no caso da formação de tremonhas. A diffe- 
rença porém consiste em que nos crystaes anómalos a ma- 
téria insuficiente que afflue ás faces e n'ellas se consolida, 
em vez de se depositar de um modo interrupto, se deposita 
sobre o crystal sem solução de continuidade, produ\indo-se 
por isso as diminuições de densidade, causa physica da ano- 
malia. 

Que assim deve ter sido demonstram-no as figuras de 
corrosão, como acima fica notado. 

Um crystal anómalo ê pois, até certo ponto, um termo in- 
termediário entre o crystal theoricamente normal e o crys- 
tal com interrupções mater iaes. 



Como vimos a causa da anomalia reside, segundo cre- 
mos, n'uma influencia externa do dissolvente; e portanto 
devem notar-se differenças ópticas nos crystaes segundo 
faces homologas que forem diversamente banhadas pela so- 
lução. 

Penso eu pois que é a este facto que se devem attri- 
buir as differenças ópticas notadas primeiro por Klocke (1880) 



NATURAES E SOCIAES 8o 



e depois estudadas por Brauns (i 883) ( 1 ), factos estes cuja 
explicação tem até hoje sido procurada debalde. 

Se um crystal octaedrico de alúmen se forma egual- 
mente rodeado de solução por todos os lados, vamos encon- 
tral-o constituido por oito pyramides uniaxiaes, tendo cada 
uma d'ellas uma face do octaedro por base. 

N'um crystal formado no fundo do crystallisador as 
propriedades ópticas são diversas; a ultima camada da so- 
lução próxima do fundo do vaso é mais concentrada. Isto 
facilmente se pôde reconhecer por tentativas, visto existir 
dentro da solução uma zona na qual um crystal suspenso 
por uma linha se dissolve na parte superior e continua a 
crescer na parte inferior. 

Logo um crystal de alúmen, collocado no fundo d'um 
crystallisador sobre uma das suas faces octaedricas, só é 
alimentado por egual modo nas seis faces que n'esta posi- 
ção formam, alternadamente com o fundo do vaso, três ân- 
gulos agudos e três obtusos. A alimentação das outras duas 
faces parallelas ao fundo do crystallisador é um pouco di- 
versa e inferior á das primeiras seis; por isso segundo essas 
duas faces o crystal toma a forma tabular. O crescimento 
segundo a face inferior é quasi nullo. 

São apenas equivalentes sob o ponto de vista óptico as 
faces que foram alimentadas do mesmo modo. A face supe- 
rior do crystal divide-se em 3 campos biaxiaes ; as faces 
lateraes são uniaxiaes. 

É possível que a composição do crystal seja levemente 

( d ) Brauns attribue a influencia da posição do crystal durante o 
crescimento sobre .as suas propriedades ópticas ao « peso das molécu- 
las » (!) que segundo este auctor deforma um pouco o crystal á maneira 
que cresce no fundo do crystallisador. Não se comprehende porém como 
o peso das moléculas produza taes deformações no fundo do crystallisa- 
dor e as não provoque quando o crystal se acha suspenso por uma linha 
a alguns centimetros acima do fundo. Esta explicação é evidentemente 
inadmissível. 



QO REVISTA DE SC1ENC1AS 



diíferente nas suas diversas reçiões ; mas esta differenca, 
se existe, não pôde ser causa da anomalia, porque em mui- 
tos crystaes impuros não se encontram vestígios de anoma- 
lia, e também porque em outros de composição absoluta- 
mente pura observamos phenomenos anómalos. 

Se a anomalia não fosse devida a uma influencia ex- 
terna do meio, a differenca de concentração só por si produ- 
ziria apenas desegualdades de crescimento. 

Mais uma observação de Brauns até hoje inexplicada 
virá confirmar a nossa conclusão. 

A influencia do meio deve ser em geral mais accen- 
tuada n^um meio liquido do que n'um meio gazoso, visto 
que, sendo todas as demais circumstancias eguaes, o attrrcto 
do meio é maior n'um liquido do que n'um gaz. 

A senarmontite, que crystallisa em octaedros, encon- 
tra-se geralmente na natureza empastada em argillas e em 
condições de jazigo que mostram não se terem os crystaes 
formado por sublimação, comquanto seja difficil ou impos- 
sível determinar corn certeza o processo da sua formação. 
Os crystaes de senarmontite naturaes são fortemente anó- 
malos; se sublimamos um crystal anómalo de senarmonti- 
te, obtemos pequenos crystaes também octaedricos mas que 
se comportam de um modo absolutamente normal em lu^pola- 
risada. Isto mostra que são apenas anómalos os crystaes 
de senarmontite formados no meio que offerece maior resis- 
tência á mobilidade das moléculas antes da sua consolida- 
ção no crystal. 

Uma outra experiência de Brauns, que se conservava 
até aqui inexplicada, pôde por egual comprehender-se facil- 
mente: Um cubo de clivagem de sylvina, aquecido n\im 
bico de Bunsen e subsequentemente arrefecido n'um banho 
d'azeite, mostra-se depois da tempera formado por 6 pyra- 
mides ópticas tendo cada uma d'ellas a base n'uma das 
faces do cubo. Antes da tempera o cubo de clivagem era 
isotropo. Eis como explico este curioso phenomeno: 



NATURAES E S0G1AES <)l 



A contracção proveniente da tempera foi a mesma se- 
gundo os dois eixos crystallographicos parallelos a cada uma 
das faces do cubo, porque segundo essas direcções o arre- 
fecimento realisou se no mesmo tempo. Na direcção do ter- 
ceiro eixo perpendicular á face do cubo porém, o arrefeci- 
mento foi mais lento, de modo que a disposição material 
r^esta direcção fez-se de um modo diverso; ficou mais tempo 
ás moléculas para tomarem uma posição de melhor equilí- 
brio antes do arrefecimento completo. 

D'ahi resulta que, em cada pyramide que tem por base 
a face do cubo, a disposição material deve ser semelhante á 
de um crystal tetragonal, tendo a face do cubo a valência 
óptica de um oP (ooi). 

A pyeno-anomalia foi n^este exemplo provocada por um 
arrefecimento desegual, do fragmento de sylviona, ao passo 
que nos crystaes que a adquirem durante o crescimento 
ella é provocada por influencia externa do meio. 

Os crystaes são pois susceptíveis de soffrer alterações nas 
suas propriedades physicas devidas a influencias externas do 
meio em que se formam. 

Esta conclusão é nova na sciência, pois nenhuma theo- 
ria dos crystaes a tomou até hoje em consideração. Não 
implica isto só por si erro dos nossos raciocinios ; mas se- 
gundo creio deficiência da theoria dos crystaes sobre a qual 
a interpretação das anomalias virá a exercer uma acção pro- 
funda. O simples facto da existência de anomalias dos crys- 
taes prova de sobejo que a theoria é insufficiente. 

Se com effeito «não ha prova mais convincente da ver- 
dade de uma theoria geral do que a possibilidade de. . . in- 
terpretar por meio d'ella phenomenos considerados anterior- 
mente como anomalias inexplicáveis» ( x ) deverão ser justas 
as proposições seguintes: 



0) A R. Wallace. 



92 REVISTA DE SC1ENC1AS 



a)— A anomalia óptica é produzida pela pycno-anomalia. 

b) — A pycno-anomalia é devida a uma influencia externa 
do meio. 



APPENDICE 



N'uma nota apresentada á real Sociedade das Scien- 
cias de Gõttingen, (I) indiquei pela primeira vez a analogia 
existente entre as propriedades ópticas de modelos de crys- 
taes de gelatina e as de crystaes cúbicos anómalos. 

As minhas experiências de então teem sido citadas por 
vários auctores, e até por alguns erradamente, attribuindo-as 
em parte ao snr. C. Klein. 

Gomo nunca se me offereceu ensejo de explicar essa 
curiosa analogia devida ao modo especial de contracção da 
gelatina quando começa a seccar, vou procurar fazel-o agora. 

Um modelo de gelatina tornar-se-ha tanto mais denso 
quanto maior for a quantidade d^agua que abandonar pela 
evaporação As quantidades d n agua evaporadas serão 
eguaes, para superfícies egualmente extensas, nas mesmas 
unidades de tempo, se a evaporação se fizer sempre -em 
condições idênticas. 

A gelatina exposta ao ar attinge mais rapidamente 
uma maior densidade á superfície do modelo, porque alli se 
realisa melhor a perda d'agua. As camadas internas paralle- 
las a uma das faces do modelo terão em geral uma densi- 
dade tanto menor, quanto mais distantes se acharem da face 
externa. 

Quando duas faces formam um angulo diedro, a den- 
sidade da gelatina na aresta será superior á de qualquer ou- 



NATURAES E S0C1AES Q)Ò 



tro logar, por isso que a evaporação se elíectua na aresta 
pelas duas faces que a formam. E, como podemos conside- 
rar um modelo constituído por uma serie de modelos envol- 
ventes, sobrepostos parallelamente, o plano bisector d'um 
angulo diedro conterá em si todas as linhas de maior densi- 
dade pertencentes ao cruzamento das camadas successivas; 
e portanto o conjuncto d'essas linhas formará paredes de 
gelatina mais densa que dividem os ângulos diedros do mo- 
delo em partes eguaes e se dirigem para o seu interior. 

No modelo do octaedro, por exemplo, formam-se doze 
paredes de maior densidade que ligam as arestas com o 
seu centro. O conjuncto d'estas paredes consideradas por si 
só é idêntico, na sua forma e posição, a um octaedro com 
tremonhas (em que se formassem apenas as paredes, conser- 
vando-se vasias as outras partes do crystal) como se ob- 
serva ás vezes em crystallisações demasiado rápidas de alú- 
men ou de outros saes. 

No modelo de gelatina do octaedro as paredes de maior 
densidade dividem o espaço em oito octantes ; cada um 
d'estes é preenchido por uma pyramide de gelatina cuja 
base é a face do octaedro e cujo vértice se acha no seu 
centro. A base de cada uma d'estas pyramides terá o ponto 
de menor densidade no crusamento das bissectrises dos ân- 
gulos, e a partir d'este ponto haverá um augmento gradual 
de densidade na direcção normal a cada uma das três ares- 
tas da base. A base de cada pyramide divide-se portanto 
em três áreas triangulares de densidades symetricamente 
dispostas, tendo cada uma a aresta octaedrica por base e 
por lados as bisectrizes dos ângulos planos da face octae- 
drica. As densidades estão dispostas n'estas três áreas como 
se se exercessem pressões normaes ás arestas da base. 

Ora na direcção do eixo da pyramide deve também exis- 
tir um augmento de densidade a partir do centro do modelo, 
como se sobre a própria base se exercesse uma pressão. 
Cada área triangular da base da pyramide actuará pois sobre 



94 REVISTA DE SC1ENCJAS 



a luz polarisada como um corpo biaxial ; como acontecerá 
rTum pingo de cera e resina sobre o qual se exerçam duas 
pressões, uma normal e outra lateral, o que reproduz d'uma 
maneira exacta os phenomenos biaxiaes dos crystaes. 

Cada terço da pyramide será equivalente aos dois con- 
tiguos, tendo apenas orientações ópticas que differem de 
6o° entre si. 

E isto o que revelam effectivamenu os modelos octae- 
dricos de gelatina e os crystaes octaedricos de alúmen e de 
nitrato de chumbo em que se notam anomalias ópticas. De 
modo análogo será fácil explicar as propriedades ópticas dos 
outros modelos. 

A analogia das propriedades ópticas dos modelos de 
gelatina com as de corpos anómalos não significa que pos- 
samos comparar corpos amorphos com outros francamente 
crystallinos. Significa apenas que alterações de densidade 
análogas produzem effeitos ópticos análogos até em corpos 
tão diflerentes sob o ponto de vi>ta da estructu r a molecular. 

Lisboa, 6 de maio de 1895. 



Alfredo Bensaude. 



MATER1AES PARA A ARCHEOLOGIA 



DO 



DISTRICTO DE VIANNA 



Antas do monte de sancto Antão (Caminha). — Uma 
d'ellas ficava alguns passos a sudeste dacapella, hoje arrui- 
nada, do sancto, que veio innovar a denominação do monte, 
atirando ao esquecimento o nome antigo, como succedzu in- 
felizmente em muitas partes. Eu disse: ficava, porque actual- 
mente não existe uma só das pedras do monumento, sendo 
muito provável que todas ellas fossem esquartejadas, e se 
encorporassem na construcção da capella. 

A mamôa está bem conservada; e é, attendendo ás suas 
dimensões, que eu me inclino a crer que dentro d'ella houve 
uma anta, e não uma antella. 

A exploração no centro da mamôa nada produziu. 

— A uns i:3oo passos e á vista d'esta, quasi na aresta 
da coroa do monte e olhando para o valle, onde se esten- 
dem as freguezias de Azevedo e Venade, existe uma segunda 
mamôa. 

Mais feliz que a sua visinha, que não é conhecida por 
nome especial, esta tem dous. Uns chamam-lhe «Poço da 
chã», outros «Cova do Armada». Cova do Armada! Eu 
ia empregar toda a manha do methodo socrático, para ex- 
trahir do meu ciceroni todos os mysterios que esta extranha 
denominação me promettia, quando elle, ás primeiras per- 






96 REVISTA DE SCIENC1AS 



guntas, me explicou que o Armada era um sujeito, que ti- 
nha por costume roçar mato na mamôa e arredores. O no- 
me de «Cova do Armada» era o reconhecimento d^sta 
quasi posse, tolerada pelos seus comparochianos. 

Tive de me contentar com o nome menos immodesto 
de «Poço da chã». Qualquer das duas denominações deixa 
ver, aqui mais claramente que n^outras partes, d'onde nas- 
ceu a ideia de chamar cova, poço, etc, a um montículo de 
terra: despreza-se o accessorio, para só attentar no principal 
— a sepultura (que faz lembrar, principalmente nas antellas, 
as guardas dum poço), ou a «cova» que deixou a extracção 
das suas pedras e que conserva tradições mysteriosas. 

As dimensões d'esta mamôa são eguaes ás da próxima 
da capella: 22 passos regulares de diâmetro. 

Como quasi sempre acontece, a meza foi a primeira a 
desapparecer; atraz delia foi a maior parte dos seus suppor- 
tes, mas a exploração mostrou que toda a galeria escapara 
aos demolidores. 

O leitor sabe de certo o que é a galeria d'uma anta. 
Se não sabe, imagine dous renques de pedras, em regra 
tendo metade da altura das paredes lateraes da anta, assen- 
tados no mesmo pavimento e correndo n'uma mesma linha 
com ellas para a circumferencia da mamôa e na direcção mais 
ou menos rigorosa do nascente, (i) E' como uma avenida 
da camará funerária; e, visto esta occupar sempre o centro 
da mamôa, a galeria está para elía, como o raio d'um circulo 
para o seu centro. A antella, pelo que fica dito atraz, nunca 
pode ter galeria, de modo que, muito embora do monumento 
central da mamôa não reste uma só pedra, a existência da 
galeria basta para o classificar como anta . 

A galeria da anta do «Poço da chã» tem uma parti- 



(1) A galeria pôde S2r descoberta, ou coberta, segundo se lê em 
algumas discripções. Eu nunca vi nenhuma que não fosse descoberta, e 
receio muito que nas galerias cobertas tenhamos novo equivoco. 



NATURAES E SOC1AES 97 



cularidade, que ainda não encontrei n^outra parte: a entrada 
que vira para o nascente e, já disse, olha para o valle de 
Azevedo, era ladrilhada, e o ladrilho ultrapassava alguns 
palmos a orla da mamôa. Hoje pouco resta d^elle. A maior 
parte das suas pedras foram saqueadas, e uma d'ellas, se- 
gundo me disseram, foi aproveitada para um lar (*). 

O estado de ruína, em que já achei a entrada da galeria, 
e a confusão de informações dos que me diziam tel-a visto 
em melhores tempos, não me permittiu tirar nada a limpo 
sobre este incidente architectonico pouco vulgar. 

Uma outra particularidade da anta que nos occupa é que 
n^uma das pedras, que entrou na sua construcção, appare- 
cem duas «covinhas» (fossettes dos francezes), celebres por 
se encontrarem, pouco mais ou menos, por toda a parte, em 
Portugal, na Galliza, na Bretanha, na Inglaterra, na Suissa, 
etc, etc. e, a bem dizer, estampilhando monumentos pre- 
historicos de diversa ordem, mas sempre relacionados uns 
com es outros, A sua concavidade apresenta o aspecto, que 
poderia deixar a impressão d^m corpo espherico duro n'uma 
superfície branda, calculada a sua profundidade n'um terço 
proporcional ao seu diâmetro. Este diâmetro varia de 2 a 4 
polegadas (por excepção o dobro, ou muito mais). 

As «covinhas» são de ordinário perfeitamente polidas, 
e também, ordinariamente, apparecem aos grupos, sem nu- 
mero certo. Tenho encontrado grupos de mais de sessen- 
ta; mas não vi que a sua distribuição obedeça a qualquer 
regra. 

O seu fim e significado são desconhecidos até hoje. Per- 
tencem, porém, indubitavelmente á mesma cathegoria de si- 
gnaes symbolicos, que es círculos concêntricos, espiraes, suas- 



( 1 ) Desconfio muito (Testa informação. As pedras do ladrilho, que 
ainda restam, são as d'um ladrilho regular. Eu suspeito que a pedra, 
transformada hoje em lareira, era nem mais, nem menos, que a meza 
da anta. 



9$ REVISTA DE SC1ENC1AS 



tikas ete.; com os quaes as tenho encontrado associadas em 
mais que uma parte. 

A exploração da mamôa do « Poço da chã» não forne- 
ceu mais que alguns fragmentos de louça preta, muito meu. 
dos, e outros de cor mais clara, um d^elles de barro extre- 
mamente fino. 

Antas em Rubiães (Paredes de Coura). — -Escreven- 
do estas notas, foi sempre propósito meu limitar-me a dar 
conta dos monumentos que examinei com os meus próprios 
olhos. 

As informações que vão seguir-se são, porém, tão fi- 
dedignas, que não posso deixar de as inserir aqui. 

«Como lhe disse, tinha combinado uma excursão a Ru- 
biães para hoje, afim de examinarmos os taes montes de 
terra, que existem em terreno, que uns dizem ser da fre- 
guezia de Montestrido, mas que me parece indubitável per- 
tencer ao logar d'Antas, da freguezia de Rubiães, d'esta 
comarca. 

« Encontramos no meio de pinhaes três montes de terra, 
formando na sua base um circulo, que presjmim s ter 12 
metros de diâmetro, e tendo no centro um grande buraco, 
como o d'um poço. 

«Estes três montes levantam-se n'um terreno quasi pla- 
no e apresentam uma forma muito saliente e manifestamente 
artificial. O primeiro está distante do segundo talvez 100 
metros, e o terceiro distante d'este 20 metros, pouco mais 
ou menos. Estão todos três n'uma linha quasi recta. 

«No primeiro montículo fizemos excavações pouco pro- 
fundas, porque nem havia tempo para maiores trabalhos, 
nem a chuva permittia fazel-os. 

«Ainda assim descobrimos que um dos lados do poço 
era formado por três pedras revestindo o mesmo lado, e 
collocadas ao alto, duas em linha recta, e outra formando 
com aquellas um angulo, como o da Fig. 5. Estas pedras 



NATURAES E S0C1AES 99 



tinham uma pequena inclinação, no sentido cTapertarem para 
a bocca do poço, inclinação que pôde ajuisar pela da linha 
(a) na F"ig. 3, que cahe sobre a horisontal. 

« Na profundidade de 8 m ,8o, encontramos duas pedras, 
uma sobreposta á outra, ou, melhor, n'essa disposição a 
formar um cone, tendo por base o fundo do poço. Havia, 
porém, n^sta base uma outra pedra, cuja posição lhe não 
posso indicar, por que parámos com a excavação tanto 
por a chuva nos impedir a continuação dos trabalhos, como 
pelo receio de desfazermos alguma cousa, que convenha 
ser conservada. Ainda assim parece-me que esta ultima 
pedra estava cahida e que primitivamente completaria o 
cone. 

«No segundo montículo encontramos uma pedra larga, 
disposta com grande inclinação (Fig. 4) n'um dos lados do 
poço, e vestígios de se ter tirado uma outra bastante gran- 
de e com egual inclinação. Esta pedra dizem que foi di- 
vidida em duas partes e que estão formando os tranqueiros 
d'uma entrada que vimos no pinhal. 

«No terceiro montículo não ha pedra alguma; mas en- 
contraram-se signaes de as ter havido. N'este não se fez 
excavação. » 

Pôde dizer-se com segurança, que íoi o nome do Logar- 
Antas — (S. Bartholomeu d'Antas) que motivou esta desco- 
berta. 

Quando o anno passado fui examinar os marcos millia- 
rios que existem na capella d'aquella invocação, colhi cPum 
sujeito da localidade, que havia para o lado da egreja de 
Montestrido uma mamôa, d'onde sahira uma pedra «com 
lettras em volta, » pedra que estava actualmente n'um por- 
tello. 

Não pude ir ver a pedra, nem a mamôa; mas os meus 
illustres amigos, doutor José Maria Pestana e doutor Nar- 
ciso Alves da Cunha, incumbiram-se logo d'explorar o ter- 
reno na primeira occas ; ão opportuna, e é á amabilidade 






100 REVISTA DE SC1ENC1AS 



cTaquelles cavalheiros que devo as noticias, que ficam acima 
transcriptas. 

Dos desenhos, que acompanhavam estas noticias, vê-se 
claramente que a inclinação d'algumas pedras é toda inten- 
cional, e isto bastaria para demonstrar que as mamôas de 
Rubiães cobriam antas e não outra cousa. 

Tenho também como certo que foi d'estes monumentos 
que a localidade tirou o nome, que ainda conserva. 

A «pedra com lettras » ainda não pôde ser encontrada; 
mas, se existe, ha de apparecer mais cedo, ou mais tarde. 
E' muito provável que as pretendidas lettras sejam alguma 
gravura. Gravura ou inscripção, imagina-se a sua impor- 
tância. 

Antas na Lameira (Paredes de Coura). — Pertence 
ainda aos meus distinctos amigos de Paredes de Coura a 
descoberta de oito mamôas no sitio da Lameira, freguezia 
de S. Martinho de Vascões. 

« Fizeram-se excavações em dous monticulos, diz a carta 
que tenho á vista — e verificamos que os mesmos cobriam 
dolmens regularissimos, como o d'Ancora (Lapa dos Mou- 
ros), faltando-lhes em todos as pedras que formavam o tecto, 
de certo por lhes terem sido roubadas. Teem a entrada for- 
mada por um renque de pedras d'um e d'outro lado, e uma 
formidável pedra ao fundo, com disposição egual á d'An- 
cora. N'um d^elles, onde fizemos maiores excavações, as 
pedras mostram ter altura superior a 12 palmos.» 

Estas excavações tiveram por fim, menos uma explo- 
ração, que um reconhecimento. Não appareceu, pois, nada 
digno de menção; nem admira que uma exploração metho- 
dica dê resultados negativos, porque aqui, como em toda a 
parte, os esquadrinhadores de thesouros vêem de quando 
em quando revolver o interior da camará das antas e dis- 
persar o que encontram dentro. Conta-se d^m d'estes ma- 
níacos de Coura que levou para casa um sapo, e só se 



NATURAES E SOC1AES IOI 



desenganou que elle não era uma moira encantada, desde 
que o mísero animal lhe morreu de fome ! 

A Lameira é um terreno sempre pantanoso, ainda no 
pino do verão. No sitio, chamado Lameira do Salgueirinho, 
diz a tradição estar submergida uma cidade e ahi na noite 
de S. João ouve-se tocar debaixo da terra um sino d'ouro. 



Do que fica dito conclue-se que, ao contrario do que 
se tem affirmado, o numero das antas ainda existentes no 
Minho deve ser avultado, visto que os dous únicos pontos 
do concelho de Vianna, que teem merecido a attenção dal- 
guns investigadores, offerecem uma lista que não é de todo 
despresivel. 

Vamos ver que succede o mesmo com as antellas e 
com os castros ; mas antes d'abandonarmos o presente ca- 
pitulo, faremos uma rectificação e uma observação. 

A rectificação consiste em restituir ao seu legitimo do- 
no o achado da machadinha, que dissemos existir actual- 
mente na Secção Geológica e haver sido encontrada pelo sr. 
capitão Costa, na exploração da mamôa do Fraião. O acha- 
dor foi um cavalheiro d'Ancora, o sr. Torres, e não me 
souberam precisar o sitio onde a arma appareceu. 

Vem a propósito dizer que no caminho, que leva da 
ponte de Abbadim á egreja d' Ancora, no rodado dos carros, 
encontrei eu casualmente uma outra, menos mal conservada 
attendendo ás péssimas condições em que esteve, quem 
sabe, por quantos annos ! 

A principal observação que me suscita o conhecimento 
das antas, atraz mencionadas, é que todas ellas eram co- 
bertas por mamôas. Insisto n'esta observação, porque já 



102 REVISTA DE SC1ENC1AS 



li impresso, e por mais cTuma vez, que as antas de Portu- 
gal eram todas descobertas. 

No Minho (para me limitar ao que melhor conheço) 
ainda não encontrei uma só anta sem mamôa; e não com- 
prehendo mesmo que podesse haver antas descobertas, salvo 
se algumas tinham outra serventia que não a de monumen- 
tos sepulchraes — o que tem sido sustentado, mas com ra- 
zoes muito ambíguas. 

Guimarães, 1882 



F. Martins Sarmento. 



VARIA 



Questões Iquicolas 



JlL m0S e ex. mos srs. directores da «Revista de Sciencias Naturaes 
e Sociaes». — O quarto numero do segundo anno dos Annaes de scien- 
cias naturaes encerra umas paginas que o director d'aquella revista su- 
bordina ao titulo de Notas para as contrapor á minha Resposta a uma 
apreciação publicada no ultimo numero da Revista que v. ex. as tão 
proficientemente dirigem. 

Embora o director dos Annaes mandasse separatas d'aquellas No~ 
tas a varias pessoas que d'ellas me fallaram, persuadidas de que as tives- 
se recebido, entendeu ser prudente não me dar noticia do que publicou 
contra mim, não me contemplando com um exemplar do seu escripto, 
em que me dirige toda a casta de insultos, esperançado, decerto, na im- 
punidade que para elle resultaria de não me dar noticia da má fé, igno- 
rância, desleixo e outros muitos defeitos e vicios que me attribue trai- 
çoeiramente, por estar persuadido que não costumo ler os Annaes. 

Fugindo, portanto, d'esta maneira á responsabilidade do que es- 
creve, para se dar uns ares de razão, pega em phrases que publiquei, 
divide-as em quartos, oitavos, décimos e outras fracções e, findo este 
trabalho de cautelleiro, affirma que engeito o que escrevi. Como prova, 
peço a v. ex. as que vejam aquelle em demasia sobrecarregada, que elle 
aprecia depois de deixar de citar um «embora não sahisse por emquanto 
do campo theorico» que está logo a seguir ás duas palavras sobre que 
se espraia em considerações tornadas inúteis completando a phrase, 
como agora succede. 

Também aquelle « nada haveria que dizer do estabelecimento des- 
tinado para Aveiro pela Commissão central permanente de piscicul- 
tura » sem o começo do periodo, «na hypothese» que o director dos An- 



104 REVISTA DE SC1ENC1AS 



naes achou geitoso supprimir, na apreciação, assim como est'outra 
phrase que encontra três linhas abaixo d'aquellas que aponta : «N'este 
caso a piscina que o sr. Baldaque da Silva destina, para Aveiro » e 
ainda um « expõe o sr. Baldaque da Silva os intuitos » e outro « nada 
haveria que objectar a este programma » que, referentes ao mes- 
mo assumpto, se acham respectivamente 36 e 22 linhas antes da phrase 
que o sr. Pereira truncou com propósitos de que me não queixo, porque 
estão na lógica do temperamento que vou reconhecendo no director 
dos Annaes. 

Depois, no alto da ultima pagina das taes Notas, falia nos terrenos 
situados ao norte do laboratório por mim projectado e cuja posição fixo 
claramente com as palavras « comprehendido entre a mota do sul do 
norte do Espinheiro ao Forte da Barra e a mota norte do esteiro do 
Oudinot » que o sr. Pereira não quiz ler. 

Ora o sobredito sr. Pereira, por muitos motivos, o menor dos 
quaes é ser eu ignorante, como elle diz, sabe muito bem que estes ter- 
renos distam do edifício para o laboratório pelo menos 200 metros e em 
parte alguma encontra a affirmação de que os terrenos referidos sejam 
adjacentes áquelia casa, como de facto não são. 

A 36. a linha de pag. 42 do meu opúsculo diz o seguinte : «No sitio 
do Forte da Barra construindo-se um deposito d'agua potável... » e a 
4. a linha de pag. 43 : «Demais a agua que se encontra no deposito refe- 
rido é a melhor que existe n'aquelle local. . . » 

As palavras deposito e construiu-se dão claramente a entender a 
toda a gente de boa fé que se fez uma obra para guardar agua e o dire- 
ctor dos Annaes, se argumentasse lealmente, escusaria esta explicação, 
quando de mais sabe evidentemente também que a agua para o tal de- 
posito o attinge depois de percorrer uma canalisação de ferro com 1:200 
metros. 

O resto das Notas pôde ser aquilatado pela inconsciência de que 
o seu auctor deu provas no que v. ex. as acabam de ler e por isso dei- 
xal-as-hei envoltas no despreso que merecem, visto que já ficou bem 
em foco a capacidade moral da animula vagula et blandiáa que move 
este representante d'aquella mocidade a que um de v. ex. as se referiu em 
folhetim do Primeiro de Janeiro (*). 

Posto de parte o director dos oAnnaes, resta-me pedir a v. ex. as 
que me desculpem, promettendo em breve occupar as paginas d'esta Re- 
vista com trabalhos mais úteis, sem largar mão da piscicultura. 

Um daquelles a que pretendo referir-me é á escolha do pessoal 
que me parece que deve ser recrutado, como é de uso, de ha muito» 

(1) Vid. Um curso livre, n.° m de 1893. 



NATURAES E S0C1AES IO5 



entre nós, para tudo quanto se refere a assumptos industriaes. Contra- 
ctar no estrangeiro um pratico, conhecedor dos tours de main d' atelier, 
que é o que praticamente convém saber, que venha reproduzir em Por- 
tugal o que está acostumado a fazer no estabelecimento em que traba- 
lha, parece-me ser a única solução viável n'este assumpto. Assim pro- 
cedeu o Marquez de Pombal, quando reorganisou as nossas industrias, 
assim praticam os nossos modernos estadistas, renovando contractos 
com professores estrangeiros para as nossas escolas industriaes, assim 
fazem os industriaes que pretendem estabelecer industrias novas no 
paiz ou melhorar as existentes, porque assim se poupam ás despezas re- 
sultantes das tentativas inúteis e das experiências improfícuas. A aqui- 
cultura deve portanto sujeitar-se á lei commum, mesmo porque, se se 
quizer applicar um dito de um estadista nosso, n'este caso já não existe 
desgraçadamente a prata da casa, de subido quilate que possuimos e 
que não aproveitamos em vida. 

Aqui ponho ponto, e não sem tempo, a esta carta, subscrevendo- 
me com toda a consideração. 

Aveiro, 27 de outubro de 1895. 



De V. Ex. as 

amigo muito obrigado 

Mello de Mattos. 



BIBLIOGRAPHIA 



Stanislas Meunier — la géologie comparée — > voi. in 8.° cart. 

á ingieza. Fclix Alcan. 



Na investigação da terra a sciencia reconheceu desde muito três 
grandes reinos naturaes: o animal, o vegetal e o mineral. Os seres agru- 
pados em cada um d'esses reinos caracterisam-se, nas regiões médias, pelo 
menos, por qualidades peculiares de segura observação, bem distinctas 
dos privativos dos reinos visinhos; caminhando para os limites attenuam- 
se as differenças, fundem-se os caracteres e a sciencia actual não pôde 
affirmar com segurança, se entre os Feres fronteiriços dos três grandes 
reinos ha ou não barreiras insuperáveis. E' um problema para a sciencia 
futura. Além das individualidades que se agrupam nestes três reinos da 
natureza, os mineraes, os vegetaes e os animaes, outros ha que em 
nenhum d^lles teem cabimento. A terra, a lua, o sol, os astros em ge- 
ral são individualidades de um outro reino natural a que poderá chamar- 
se o reino astral. Cada astro tem a sua individualidade própria, o seu cy- 
clo evolutivo, a sua historia natural. A terra, podendo ser directamente 
observada e até certo ponto experimentada, prcsta-se no estudo ao em- 
prego dos methodos da historia natural de uso corrente em qualquer 
dos outros três reinos. A sciencia que faz a historia da terra pelos me- 
thodos e processos da historia natural é a geologia. 

Será pois, sob o ponto de vista philosophico, um capitulo da his- 
toria natural do reino astral, sciencia em via de formação, fundada por 
o sr. Stanislas Meunier, e de que no bello livro da «Bibliothèque scien- 
tifique internationale» ultimamente apparecido, La géologie comparée 
por Stanislas Meunier, se faz, pela primeira vez, tentativa coroada do 
melhor êxito, da exposição syntnetica d'essa sciencia, que não é, como 
poderia suppor-se pelo objecto do estudo, uma astronomia, apresentada 
sob nome diverso. 

A astronomia occupa-se, é certo, dos astros, mas sob um ponto 
de vista especial : os seus fins e os seus methodos são outros. 

A geologia comparada é a sciencia historico-natural do quarto reino 
da natureza, e emprega como as sciencias historico-naturaes, suas con- 
géneres, como a geologia em especial, os methodos e processos de uso 
corrente n'estas sciencias — o seu fim é fazer a historia natural de cada 
astro, como o fim da geologia é fazer a historia natural da terra. 

Poderia snppor-se que os materiaes faltam para realisar semelhante 
tentativa. Lendo o explendido livro do sábio professor sr. Meunier, ver- 



NATURAES E S0C1AI.S K>7 



se-ha que temos já meios seguros para tentar a empreza, pelo menos no 
que diz respeito a grande numero de planetas. 

Não podemos deixar de aconselhar vivamente aos nossos leitores a 
leitura d'este novo l ; vro, onde encontrarão compendiados todos os anti- 
gos trabalhos do sr. Stanislas Meunier sobre o assumpto, e tudo quanto 
diz respeito a nova e formosíssima sciencia — a Geologia comparada. 

W. DF. L. 



Paul Choffat. — pro.wenade au gerez. souvenirs d'un géo- 

LOGUE. 8-°> 18 pa^. Lisbonne, 1S95. 

Como o auetor confessa (pag. 8), o seu curioso artigo publicado 
no Boletim da Sociedade de Geographia de Lisboa, do qual fez uma 
tiragem em opúsculo, não é mais do que uma publicação a juntar ás 
que precedentemente se teem oceupado do Gerez, e, de leve, tratado da 
geologia da serra. Digo : não se trata dum estudo geológico regional 
completo. O titulo avisa. São apontamentos de viajante que estacionou 
por dias nas caldas, e na sua paixão e no seu eruditismo, toma notas, 
aproveita ensejos para leves indicações, espreita, busca, mas discre- 
tamente. No curto período de repouso, legitimo descanço que deveria 
conceder-se, não cessa, naturalista cupido, de tomar notas, registrar 
factos. Pois até hesita, no comboyo. entre o magnifico -panorama do 
'Porto (pag. 2) e a observação dos accidentes graníticos, da outra ban- 
da da linha! Pois vae ao Bom Jesus (pag. 3), paraíso brazileiro no co- 
ração minhoto, para ver os blocos de granito no parque e as grandes 
lages da escadaria que do sopé da montanha levam ao templo ! Mas 
assim é, moços patrícios, o excepcional temperamento do investigador 
que chega ! 

A paixão e o habito do estudo, a sua inestancavel producúvidade, 
mais uma vez lhe proporcionam occasião para gisar essas despretencio- 
sas linhas, onde, depois d'umas palavras prévias sobre o histórico do 
interessante massiço, nos descreve, á ligeira, os limites, os aspectos, a 
natureza da rocha, os filões, as inclusões, as deslocações, a desagrega- 
ção, as aguas thermaes, os depósitos de transporte, a questão glaciaria 
no tocante á região, etc. Sob o ponto de visla geológico a leitura do 
artigo dispensa a consulta de outros trabalhos referentes ao assumpto. 

Não é uma memoria, entendido ? Souvenirs, sub-titúla o auetor. 
Mais alguma coisa: petils grains de sable pour lédification d'une 
description oéoloçique de celte belle contrée. 

" * R. P. , 



Paul Choffat. — coup d'oeil sur la géologie de la pro- 

V1NCE d'aNGOLA. 8.°, g pags. Lisbonne, 1895. 

Resumo dos conhecimentos geológicos adquiridos n'uma d'aquel- 
las regiões luso-africanas, provavelmente escripto com o especial desti- 



IOS REVISTA DE SCIENCIAS 



no de ser, como foi, publicado no numero de julho (1895) do Portu- 
gal em cÁfrica. Dá concisamente a ideia geral do que se sabe actual- 
mente sobre geologia angolense e allude aos conhecidos trabalhos mais 
importantes que os estudiosos poderiam ler com proveito. Bom artigo 
de vulgarisação. 



R. P. 



M. Paulino d'01iveira. — opistobranches du portugal. — 

8. 9 , 29 pags. Coimbre, 1895. 

Promettendo o apparecimento successivo de varias communica- 
ções acerca dos molluscos que possue e que colheu em Portugal, o 
illustre e incansável naturalista, enriquecendo progressivamente a docu- 
mentação historico-natural portugueza, abre -a série com uma lista de 
45 opistobranchios obtidos na Granja, Buarcos, Setúbal, Sines, Villa 
Nova de Mil Fontes e Faro e que fazem parte do seu museu particular. 
Das espécies indicadas, i3 ou 14 são novas para a fauna do Atlântico e 
37 para a nossa; 3 ('Doriopsilla Pelseneeri. Paul., Facelina varie- 
gata, Paul. e ^Phyllaplysia c Paultni, Mazzarelli) veem-se pela primeira 
vez descriptas nesta enumeração. São, indiscutivelmente, valiosos ma- 
teriaes para um districto da malacologia ainda pouco explorado entre 
nós. A introducção remata com uma bibliograpbia que, decerto, será 
muito útil para os investigadores que se queiram votar ap estudo dos 
opistobranchios. 

R. P. 



J. V. Barbosa du Bocage. — herpetologie d'angola et du 

CONGO. — 8.°, 2o3 pags. e XIX ests. Lisbonne, 1895 

Ha 29 annos que o erudito e respeitável director do Museu da 
Escola Polytechnica de Lisboa publicou o primeiro ensaio acerca da 
herpetologia da Africa occidental portugueza, numa epocha em que 
a fauna da região era quasi inteiramente desconhecida e dos reptis 
se tinham occupado apenas dois naturalistas. Iniciados, pela memoria 
de 1866, os estudos da nossa fauna africana, o eminente zoologista por- 
tuguez não tem cessado de proseguir na enumeração das aves, reptis 
e peixes encontrados na nossa vasta região occidental da Africa e ainda 
em outros territórios ultramarinos que nos restam. Vastíssima toda a 
obra do insigne trabalhador e principalmente esparsa, como é sabido, 
no Jornal da Academia, não conta o paiz naturalista que mais ampla- 
mente tenha contribuido com tão valiosa, abundante e interessantíssima 
reunião de documentos para a zoologia luso-africana. 

Ao fazer-se a historia das sciencias naturaes em Portugal a indivi- 
dualidade que avultará pela precedência, pela iniciativa verdadeiramen- 



NATURAES E SOCIAIS I ()() 



te corajosa ante o desdém nacional, pela persistência do trabalho, atra- 
vez das oceupaçóes mais oppostas á plácida locubração scientifica, 
pelos embaraços que, certamente, terá encontrado e vencido, é a sym- 
pathica, querida e veneranda physionomia do insigne fundador do Mu- 
seu Nacional. 

Nem a cruel hostilidade do publico ou, sequer, a fria indifferença 
perante a tenacidade quasi ininterrupta n'uma obra scientifica de 3o 
annos, demoveram o eminente homem de sciencia de proseguir no fa- 
digoso inquérito da zoologia colonial ; na metrópole, mesmo, não con- 
tamos homem cujos serviços se comparem, em numero, aos prestados 
pelo notável zoologo só com os seus materiaes para o conhecimento 
cTum dos grupos descriptos e dispersos pelas suas numerosas memorias, 
noticias e nótulas. Mas ainda que não referida a sua larga obra descri- 
ptiva, destacam, pela imDortancia, pela opportunidade, pelo carinho, 
os seus exforços em favor do desenvolvimento das sciencias naturaes 
entre nós, da organisação do Museu de Lisboa, da exploração nas pos- 
sessões, da propaganda de toda a ordem, emfim, com que, em mais 
d'um quarto de século, tem vulgarisado, promovido e animado o estu- 
do da Historia Natural Portugueza. 

O presente livro é mais um documento a confirmar a elevada si- 
tuação do emérito naturalista portuguez — como incansável trabalhador 
e honestissimo sábio. São n'elle apontadas e quasi todas descriptas cerca 
de 200 espécies de reptis e batrachios de Angola e Congo, na sua 
grande maioria obtidos por José de Anchieta nas suas dilatadas explo- 
rações. N'este collaborador encontrou o snr. Barbosa du Bocage o mais 
extraordinário auxiliar da sua obra, o qual, se por muitos e vários mo- 
tivos tem um logar á parte e de alta evidencia na historia da explora- 
ção scientifica nacional, não se aparta do estudioso assiduo e perseve- 
rante da Escola Polytechnica quando a sua obra é consultada e apre- 
ciada. 

A herpetologia de Angola e do Congo tem merecido estudos fra- 
gmentados de vários naturalistas estrangeiros ; mas até hoje em traba- 
lho algum se reuniu a copiosa série de 191 espécies que o livro recente 
do snr. Barbosa du Bocage enumera. Abre a memoria por uma intro- 
ducção histórica na qual se indicam umas 60 espécies privativas das 
faunas angolense e congoleza ; segue-se-lhe uma lista methodica, a dis- 
tribuição geographica das espécies, a parte descriptiva, que é a capital 
da memoria e o Índice alphabetico. Em dezenove estampas se figuram 
exemplares inteiros ou fragmentos de muitas das espécies descriptas. 

A Herpetologia de zA ngola e do Coiigo^ como a Ornithologia, de 
cAngola, pôde cònsiderar-se um verdadeiro monumento de sciencia 
portugueza, se, ao fazermos o balanço da nossa produetividade scienti~ 
fica, levarmos em devida linha de conta as circumstancias em que se 
trabalha n'este districto do saber em Portugal, que meio encontrou o 
illustre sábio ao iniciar os seus estudos e, desgraçadamente, que aco- 
lheita é esta, a de ainda hoje, por um publico descortezmente alheio e 
voluntariosamente insciente. 

R. P. 



110 REVISTA DE SC1ENC1AS 



Albert Girard. — révision de la faune malacologique des 

ILES DE ST. THOMÉ ET DU PR1NCE. 8.°, 36 pag. c I est. Lisbonne, 

1893. 

N'cste trabalho, iniciado pelos molluscos terrestres e fluviaes, o 
snr. Girard propõe-se effectuar uma revisão das espécies já conhecidas 
das ilhas portuguezas do golfo da Guiné e de dar a conhecer as faunas 
recentemente descobertas por um collector portuguez, o snr. F. Newton. 
A malacologia das duas ilhas tem interessado até agora vários natura- 
listas e viajantes, d'entre os quaes destacaremos Ravy, Folin, Morelet, 
Welwitsch, Dohrn, Greef, Grosse, etc. Dispersas, porém, e incompletas 
as noticias publicadas acerca d'este ramo da historia natural.de S. Tho- 
mé e Principe, o emprehendimento iniciado pelo snr. Girard é para re- 
gistrar com prazer, uma vez que á esclarecida competência do illustre 
malacologista se allia a conhecida meticulosidade dos seus trabalhos, 
penhor e garantia da conscenciosa monographia agora encetada. Nas 
paginas já publicadas os géneros são descriptos em ordem systematica, 
afim de não retardar o apparecimento da publicação; entre elles, al- 
gumas espécies novas. Pela necessidade mais que averiguada d'esta 
Révision é-nos grato ainda outra vez registrar o valor da monographia 
intentada pelo illustre conservador do Museu de Lisboa. 

R. P. 



Albert Girard. — déscription de deux ennea nouveaux de 

LILE FERNANDO PÓ 8-.% 3 pags. Lisbonne, ^92. 

A' fauna conchyliologica de Fernando Pó accrescenta o snr. Gi- 
rard uma espécie terrestre nova, Ennea V^ewtoni, um pouco seme- 
lhante aos Enneastrum da Africa occidental, e uma variedade da E. ca- 
videns, Martens, var. Eemando-Poensis. Vem a propósito reproduzir 
aqui uma observação do auctor : nenhuma das espécies terrestres de 
Fernando Pó foi ainda assignalada nas ilhas próximas de S. Thomé e 
Principe. 

R. P. 



Albert Girard. — mémoire sur un poisson des grands pro- 

FONDEURS DE l'AtLANT1QUE, LE « SAGCOPHARYNX AMPUL- 
LACEUS » ET OP.SERVATIONS SUR L« HALARGYREUS JOHN- 
SON1 » 4.°, 4o pags. e IV ests. Lisbonne, 1895. 

Na primeira parte do opúsculo indicado estuda o snr. Girard, 
com a individuação que comporta o exame do animal, tendo em vista a 
sua conservação 'para o Museu de Lisboa, a interessantíssima e rara es- 
pécie de peixe que apenas existiu representada até agora no Museu de 
Londres por um exemplar adulto e outro juvene. O curioso habitante 
dos abysmos submarinos, poucas vezes obtido nas explorações scien- 
tificas marítimas, tem occupado alguns naturalistas europeus e norte- 
americanos. 



NATURAES E S0C1AES I I I 



A's descripções existentes junta agora o snr. A. Girard a sua me- 
moria acerca do exemplar alcançado a 9 milhas a SSO. da barra do 
Tejo, num estado notável de deformação, mercê das excessivas e in- 
comportáveis dimensões d'uma preza que o animal fizera. E' curioso 
notar que a preza referida consiste precisamente na mesma espécie de 
peixe já encontrado por Johnson, em 1862, n'um outro Saccopharynx, 
capturado nas costas da ilha da Madeira. 

O estudo do snr. Girard é meticuloso e servido por uma copiosa 
bibliographia que mais ou menos diz respeito á espécie descripta. A' in- 
dicação d'elle segue-se o histórico do género, a descripção da espécie 
obtida nos mares de Portugal, os costumes e o habitat, e classificação 
do género. Três planchas completam a memoria. 

Seguidamente o illustre naturalista descreve o peixe extrahido do 
estômago da espécie precedentemente estudada, Halargyreus Johnsoni, 
egualmente próprio da fauna abyssal e do qual se conhecem poucos e 
maus exemplares, existentes ainda no Museu Britannico. Foi este animal 
o que causou a morte do Saccopharynx descripto agora e á mesma 
espécie pertencia o que Johnson encontrara no estômago do seu exem- 
plar obtido na Madeira. 

O Halargyreus referido é analysado detidamente pelo estudioso 
investigador e figurado pela primeira vez na plancha IV do opúsculo. 
Gomo na descripção do precedente, como em memorias anteriores, o 
snr. Girard certifica progressivamente as suas notáveis faculdades de 
naturalista. E\ um trabalhador muito consciencioso, honesto e intelli- 
gente,' de cujas aptidões e assignalada actividade a sciencia portugueza 
tem muito a esperar, felizmente. 

R. P. 



Balthasar Osório. — segundo appendice ao « catalogo dos 

PEIXES DE PORTUGAL» DE FÉLIX CAPELLO — 8.°, 16 pags. Lis- 
boa, 1895 

Enumeração de 66 espécies, na quasi totalidade obtidas em 
Mattosinhos, 10 das quaes são novas para a fauna portugueza e uma 
outra, Centrolophus Newtoni, Osório, é nova para a sciencia. 

Nas seis primeiras paginas d'este folheto, o snr. Balthasar Osó- 
rio junta as suas palavras auctorisadas ás de muitos que, de longa data, 
desde Lacerda Lobo, nos fins do século XVIII, — sei lá! — desde o es- 
crivão da dizima do pescado de Cezimbra, Álvaro Dias, no século XV, 
vecm lamentando a incúria dos poderes do estado perarte as depra- 
dações irreflectidas e impunes nas aguas marítimas e fluviaes. Allude 
ás nossas prosperidades d'outr'ora, quanto á pesca de bacalhau na 
Terra Nova, de cujo banco foi descobridor o armador Fagundes, de 
Vianna. E sublinha com tristeza uma decadência que já tem uma 
dramática historia, dramática e longa, apezar d'um ou outro fugaz 
período áureo, como a remota pesca dos coraes, como as heróicas 
pescarias das baleias! Não diz nada de novo, pelo motivo chão 
c simples de que ha séculos, embora intercadentemcnte, se vêem 



112 REVISTA DE SC1ENCIAS 



levantando clamores contra o geral desdém por um problema econó- 
mico do mais* alto interesse nacional. Mas teem valor as suas pa- 
lavras, por partirem d'um observador estudioso, e, nomeadamente, 
d\im especialista que não limita a esphera da sua actividade á simples 
inquirição especifica da fauna ichthyologica. 

Não teem sido bastantes os brados ainda recentes de Filippe 
Simões, de Félix Capello, de Oliveira Martins e d'outros publicistas, 
nas suas obras de caracter geral ou em monographias locaes e outros 
escriptos; não alcançou o êxito appetecido a acção frouxa das institui- 
ções destinadas, entre nós, ao estudo, propaganda, ensinamento e fisca- 
lisação dos serviços de pescarias e aquicolas. Urge, pois, proseguir 
insistentemente na campanha a favor da repovoação das nossas aguas, 
da introducção de espécies convenientes e da regulamentação effectiva 
e efficaz da pesca. E para tal evidentemente que se requerem estudos 
vastos e complexos, mal embryonados, desgraçadamente, em Portugal! 

Para lamentar é que os trabalhos como este do snr. Osório te- 
nham no paiz uma leitura demasiadamente restricta. O publico man- 
tem-se alheio ás publicações especiaes. Torna-se, pois necessário, 
atacar a questão em publicações de mais accesso, a ver se, clamando 
vehementemente, se consegue interessar uns poucos, sequer, na sal- 
vação da riqueza a que o snr. Osório se refere com doloridas palavras. 

De resto, a quem isto escreve, mesmo essa propaganda — para a 
qual pretendeu contribuir em revistas (*) e em jornaes ( 2 ) — não se 
antolha ingenuamente efficaz, tão adormecido no espirito publico vae 
o interesse, a curiosidade, ao menos, pelos assumptos mais pondero- 
sos da economia nacional ! 

Emtanto, talvez a epocha chegue em que o esforço não seja in- 
teiramente inútil, e, como poucos, o snr. Balthasar Osório pôde 
contribuir com assignalado préstimo. 

A introducção do folheto a que nos vimos referindo termina com 
alguns informes acerca da pesca da sardinha, colhidos nos pescadores 
que vêem a Mattosinhos vendêl-a. E digo que vêem a (Mattosinhos, 
porque n^sta localidade o numero d 1 esses profissionaes é bastante di- 
minuto relativamente ao d'outras praias. Decerto que, por incompleta- 
mente informado, o snr. Osório nada diz acerca dos pescadores da 
Povoa de Varzim que a Mattosinhos aportam frequentemente em 
grande numero — varias centenas, não raro — e aos quaes, quem isto 
escreve, tem ouvido muitas das interessantes noticias que o illustre 
naturalista da Escola Polytechnica resume n'este seu trabalho. A his- 
toria da pesca da sardinha em Portugal, quando se fizer por completo, 
terá que buscar um dos seus mais importantes capítulos na industria 
exercida pelo poveiro. 

R. P. 



(!) ZMuseus regionaes, in Revista de Portugal, n.° 14, vol. III, pags. 184-194. 
Porto, 1890; E tacões de aquicultura, in 'Boletim do Atheneu Commercial do 'Porto, n. 0í 
3-4, vol. II, pags. 97-109. Porto, 1892 (reproducção d'uma Memoria presente ao Con- 
gresso pedagógico de Madrid, realisado em 1892); Industria aquática, in Revista d'Hoje, 
n.° 2, vol. I, pags. 47-49- Porto, 1895. 

( 2 ) A piscicultura, in 'Primeiro de Janeiro, do Porto, de 21 de dezembro de 1892; 
Uma estação de piscicultura em Aveiro, id. de 23 de novembro de 1895; Miséria poveira, 
id. de 28 de abril de 1894; Aquicultura, id. de 12 de dezembro de 1894; Um laboratório 
marítimo em Aveiro, (illustrado), in Século, de Lisboa, de 23 de dezembro de 1894. 



A Revista tem recebido as seguintes publicações, d'al- 
gumas das quaes se occupará na sua secção bibliographica: 

António dos Santos »ochn. — Antiguidades prehistoricas do concelho da 
Figueira, III, parte. 4.°, 181 pags. e VIII ests. Coimbra, 1895. 

Charles Janet.— Eludes sur les fourmis, les guêpes et les abeilles, 10. ème 
note. 8.% 57 pags. e var. gravs. Beauvais, 1895. 

-Id. ll. ème note. 8.°, 25 pags. Limoges, 1895. 

—Observations sur les frelons, 4.°, 4 pags. Paris, 1895. 

— Sur la «Vespa crabro». Ponte; conservation de la chaleur dans le nid. 4.°, 
3 pags. Paris, 1895. 

«tephen Return Rlggs.— Dakota Grammar f texts and Ethnography, 4,°, 
239 pags. Washington, 1893. 

irvln? and fan Hlse.— Tfie Penokee Iron-Bearing Series of Michigan and 
Wisconsin, 4.°, XXXVII ests. e 534 pags. Washington, 1892. 

Scudder.— Tertiary Rhynchophorous Coleoptera of lhe United States, 4.°, 
XII pis. e 206 pags. Washington, 1893. 

Henry Gannett.— .4 Manual of Topographie Methods, 4.°, XVIII ests e 
300 \)»z<. Washington, 1893. 

xester F. ward.— Uatuts of lhe Mind Problem, 8.°, 18 pags. Washing- 
ton, 1894. 

w. Megee.— The Earlh lhe Home of Man, 8.°, 28 pags. Washington, 1894. 

James Filling. —Bibliography of lhe Salishan Languages, 8.°, 86 pags. 
Washington, 1893. 

—Bibliography of the Wakashan Languages^ 8.°, 70 pags. Washington, 1894. 

F. Hodge.— List of the publications of lhe Bureau of Ethnology, 8.°, 24 
pags. Washington, 1894. 

Cyras Thomas.— The Maya Year, 8.°. 64 pags. Washington, 1894. 

Garland Follard.— The Pamunkey Indians of Virginia, 8.°, 19 pags. Was- 
hington, 1894 

w. Holmes.— An Ancient Quarry in Indian Territory, 8.°, 19 pags. Was- 
hington, 1894. 

List ofthe Linnean Society of London (1894-1895), 8.°, 51 pags. London, 1895. 



Annaes de sciencias naturaes, tom. II, n.° 3. Porto, 1895. 

Archeologo portuguez, tom. I, n. os 7-10. Lisboa, 1895. 

Archivos de Historia da Medicina portugueza, toms. I-Ví. Porto, 1887-95. 

Boletim da Real Associação dos architectos e archeologos portuguezes, III 
serie, n. os 2 4. Lisboa, 1895. 

Boletim da Sociedade de Geographia detLisboa, XIV serie, n. os 1-3. Lis- 
boa, 1895. 

Boletim da Sociedade Broteriana, tom. XII, n.° 2. Coimbra, 1895. 

Instituto, tom. XLli, n. os 6-12. Coimbra, 1895. 

Jornal da Sociedade pharmaceutica lusitana, XI serie, n. os 5-8 e 10-11. 
Lisboa, 1895. 

Portugal agrícola, tom. VI, n.° 12; tom. VIT, n. os 1-5. Lisboa, 1895. 

Revista de educação e ensino, tom. X, n.. os 7-12. Lisboa, 1895. 

Revista florestal, tom. I, n.° 12; tom. II, n.° 1. Aveiro, 1895-96. 

.Revista de obras publicas e minas, tom. XXV, n os 301-310. Lisboa, 1895. 

Revista w - \'mho, tom. XI, n.« s 7-15. Espozende, 1895. 

Revista de Guimarães, tom. XII, n.° 4. 1895. 

Anales de la Sociedad Espanola de Historia Natural, II serie, tom. III; 
tom. IV, cuad. I. Madrid, 1894-95. 

Atti delia Societa italiana di Scienze Naturali, tom. XXXV, fase. 1-2. Mi- 
lano, 1895. 

Bullettino dei Real Comitato Geológico d'ltalia, tom. VI, n. os 2-3. Roma, 
1895. 

Bulletino di paletnologia italiana, serie III, n. os 4-5 e 10-12. Parma, 1895. 

Bulletin de la SociHé d 1 Anlhropologie de Paris, tom. VI, n.° 1. Paris, 1895. 

Bullelin de la Société des sciences historiques et naturelles de Semur, se- 
rie II, n.° 8. Semur, 1895. 

Feuille des jeunes naturalistes, tom. XXV, n. os 298-300, tom. XXVI, n.° 303. 
Paris, 1895. 



Recue mensuelle de VÉcole d'Anthropologie, tom. V, n. os 4 e 7-12. Paris, 1895. 
fíulletin de la Société vaudoise des sciènces naturelles. tom. XXXI. n. os 117- 

118. Lausanne, 1895. 
Bulletin de la Société belge de Microscopie, tom. XXI, n. os 7-9. Bruxelles. 

1895. 
Annales de la Société belge de Microscopie, toms. XVI-XVIII. Bruxelles, 

1892-94. 
fíulletin de la Société belge de Géologie, de Paléontologie et tfHydmlogie. 

tom. IV, n.° 2; tom. V, n.° 2; tom. VI, n.° 3; tom. VII, n.° 1-3; 

tom. VIII, n.° 1. Bruxelles, 1891-94. 
Société Royale Matacologique de fíelgique. Procès-verbaux dejulho-dezem- 

bro, 1891 e JHiieiro-setembro de 1893. Bruxelles, 1891-92. 
Verhandlungen der k k. Zoologisch-botanischen Gesellschaft in Wien, tom. 

XLV, n. os 6-9, Wien, 1895. 
Verhandlungen der Berliner Gesellschasf filr Anthropologie, Ethnologie und 
Urgeschichte, n. os de janeiro-maio. Berlim. 1895. 
Proceedings of the Linnean Society o f London, Sessão de 1893-94. Lon- 

don, 1895. 
Abstracts of the proceedings o f the Geological Society o f London, n. os 647- 

650. London, 1895. 
Mémoires du Comité Géologique de St. Pétersbourg. tom. IX, n.° 4; tom. 

X, n.° 3; tom. XIV, n.° 3. St. Pétersbourg, 1895. 
Bulletins du Comité Géologique de St. Pétersbourg, tom. XIII, n. 0s 8-9; 

tom. XIV, n. os 1-5. Si. Pétersbourg, 1894-95. 
Bulletin de 1'Instilut E'gyptien, serie III, fase. 6-9. Le Caiie, 1894. 
Mineral Resources of the United States (1892-1893) 2 vols. Wash'nglon, 

1893-1894. 
Twelfth Annual Repor t (1890-91). Part l—Geology. Part ll—Irrigation. 2 

vols. com numer. gravs. Washington, 1891. 
Ihirteenth Annual Repor t of the United States Geological Survey. (1891-92). 

Part. l—Report of the director. Part. ll—Geology. Part. lll—Irriga- 

tion. 3 vols. Washington, 1892-93. 
Annual Report of the Bureau of Ethnology (1888-89, 1889-90, 189091). 3 

vols. com numer. gravs. Washington, 1893-94. 
Bulletin of the United States Geological Survey, n. os 97-117. Washington,. 

1893-94. 
The American Anthropologist, vol. VII, n. os 1-4; vol. VIII, n.° 1. Washin- 
gton, 1894-95. 
Actes de la Société scientifique du Chili, tom. IV, n.° 5. Santiago, 1895. 

llllllllllllllllllMlIllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllIIIIIIIIIIIIIIIIMtllllllllllllllllllllllllllllllnlinilllllllii 

REVISTA 

DE 

SCIENCIAS NATURAES E SOCIAES 
Condições de publicação 

A REVISTA sahirá regularmente quatro vezes por anno, em fas- 
cículos de 48 pags., 8.° 

PREÇOS DA ASS1GNATURA 
Portugal : 

Anno ou serie de 4 números ... i$200 reis 
Numero avulso ....... 3 00 » 

PAIZES COMPREHEND1DOS NA UNIÃO POSTAL: 

Anno. . 8 fr. 

Numero avulso 2 » 

Para os outros paizes que não fazem parte da união,, aceresce o 
porte do correio. 

A correspondência deve ser dirigida a Rocha Peixoto, na Acade- 
mia Polytechnica — PORTO. 



REVISTA 



DE 



Sciencias Naturaes e Sociaes 



I»X7J3 3LiIC-A.Ç-A.O TRIMESTRAL 



DIRECTORES 

WENCESLAU DE LIMA 

Director da Eschola Medico-Cirurgica do Porto 

RICARDO SEVERO ROCHA PEIXOTO 

Engenheiro civil Naturalista adjunto ao Gabinete de Geologia 

da Academia Polytechnica; 

Yoltime quarto — N.° 15 

(li SERIE — N.° 7) 




PORTO 



TYPOGRAPHIA OCCIDENTAL 

8o, Rua da Fabrica, 8o 



896 



SUMMARIO 



MEMORIAS ORIGINAES 



"Tradições populares portuguesas —A caprificação, por 

F. Adolpho Coelbo pag. n3 

cA necropole protohistorica da Fonte 'Velha, em c Bensa- 

fnm, no concelho de Lagos, por A. dos Santos Rocha pag. 145 

(Materiaes para a archeologia do districto de Vianna, 

por F. Martias Sarmento pag. 146 

Estudos deflora local — Vasculares do Porto, por Gonçalo 

Sampaio . . . . . . pag. i5o 



BIBLIOGRAPHIA 



^Antiguidades prehistoricas do concelho da Figueira, de 

António dos Santos Rocha, por R. P pag. 159 

Note sur V existence d'anciens glaciers dans la vallée du 

[Mondego, de J. F. Nery Delgado, por R. P. . . . pag. 160 

J^ote sur les tu/s de Condeixa et la découverte de Vhyp- 

popotame en Portugal, de Paul ChofFat, por R. P. . pag. 161 

r 'Productos agrícolas das colónias portuguezas. (Biblio- 
theca do « 'Portugal dkgricolav), de Rocha Peixoto, 
por D. Luiz de Castro pag. 161 



NOTICIAS 



■Oslreicultura, por R. P. . . pag. l63 

çA pesca a vapor, por R. P. pag. 166 



TRADIÇÕES POPULARES PORTUGUESAS 



A CAPRIFICACAO 



O estudo das tradições populares é vasto e complexo. 
Não se trata simplesmente nelle de colligir poesias, lendas, 
contos, provérbios, enigmas, o que constitue a litteratura 
popular, — as superstições, as crenças religiosas, de descrever 
e reproduzir graphicamente as dansas, os vestidos, as habi- 
tações, a musica, a pintura, a esculptura, a linguagem, os 
gestos, os symbolos graphicos; é necessário estudar tam- 
bém as industrias do povo no que ellas tem de tradicional, 
os conceitos não supersticiosos sobre a natureza, o homem, 
a sociedade, emfim o saber popular em todas as suas rami- 
ficações, justificando a expressão com que os inglezes desi- 
gnam ofolk-lore; ou se, se prefere, estudar a vida do povo 
sob todos os seus aspectos. 

Pouco satisfeitos com as classificações que até hoje che- 
garam ao nosso conhecimento das divisões do folk-lore, 
tentamos uma nova, cujas bases fomos buscar á psycholo- 
gia e á ethica. 

Spencer classificou os sentimentos em — sentimentos 
egoístas, ego-altruistas e altruístas e sentimentos esiheticos ( 1 ). 

(*) H. Spencer, Príncipes de psychologie, trad. fr. § 5i3 e se- 
guintes. 

8 



114 REVISTA DE SC1ENC1AS 



Sergi modificou essa classificação na terminologia divi- 
dindo os sentimentos em 



i ,° sentimentos individuaes 
2. » individuo-sociaes 

J.° » sociaes 

4. » estheticos. 

Os últimos constituem uma classe á parte (V). 

Poderá completar-se esse quadro juntando mais duas 
classes de sentimentos — os religiosos, e os que se referem 
ao dominio da verdade, da sciencia, porque não pode ser 
negada a existência de taes sentimentos que acompanham 
o processo do espirito no descobrimento da verdade, deter- 
minam a formação da convicção, da certeza e attingem o 
caracter de emoções, por exemplo, na contemplação das leis 
astronómicas e até na das verdades da mathematica pura. 
Para esses sentimentos pode adoptar-se a expressão de 
sentimentos lógicos, empregada por Wundt, que os colloca 
entre os sentimentos intellectuaes, junto com os sentimentos 
estheticos, etílicos e religiosos ( 2 ). Acima os sentimentos étni- 
cos acham-se já representados nas três classes dos senti- 
mentos individuaes, individuo-sociaes e sociaes. 

Deixando aqui de lado muitas questões que se ligam á 
classificação dos sentimentos, ás emoções ( 3 ), assentaremos 
pois a seguinte: 

i.° individuaes 
I. Sentimentos ethicos{2.° individuo-sociaes 

3.° sociaes. 



(*) G. Sergi, La psychologie fthysiologique, trad. fr., p. 327. 

( 2 ) W. Wundt, Psychologie physiologique, trad. fr. 11, 293-299. 

( 3 ) A. Bain, Les émotions et la volonté, trad. fr. Append. B. 
apresenta classificações dos sentimentos dadas por differentes auctores. 



NATURAES E S0C1AES I I 5 



II. Sentimentos estheticos. 

III. » religiosos. 

IV. » lógicos. 

É evidente que classificação análoga pode applicar-se 
a todas as formas da actividade humana (formas da vida); 
e alcançamos assim uma base, que se nos afigura excellente, 
de classificação para os factos que o folk-lore e a ethnogra- 
phia se propõem estudar. 

Wundt dá a seguinte classificação das formas da vida 
moral: i. Formas individuaes: a) a alimentação; b) a ha- 
bitação; c) o vestuário; d) o trabalho. 2. As formas de 
relação entre os indivíduos (verkehrformen) : a) a organisação 
do trabalho; b) o jogo; c) o decoro, o porte pessoal; d) 
as formas de polidez, a saudação. 3. As formas sociaes: a) 
a familiá e os laços de sociedade; b) o direito matriarchai e 
patriarchal; c) a família como communidade moral de vida; 
d) o desenvolvimento dos sentimentos de sympathia e pie- 
dade; é) o estado e os laços de tribu;/) o desenvolvimento 
das formas do estado; g) o sentimento da communidade 
nacional e politica; h) o estabelecimento da ordem juridica; 
i) o poder penal do estado, etc. 4. As formas humanas da 
vida: a) o desenvolvimento geral dos sentimentos de huma- 
nidade; b) a amizade; c) a hospitalidade; d) a beneficên- 
cia (i). 

Partindo desses dados estabelecemos a seguinte classi- 
ficação em que temos em vista não só a vida do povo entre 
as nações cultas, mas ainda nos grupos chamados incultos 
ou selvagens : 

Formas da vida ethnica. 
I. Formas da vida pratica, 

(*) W. Wundt, EthiJc. Eine Untersuchung der Thatsachen und 
Gesetze des sittlichen Lebens^ (Leipzig, 1886), pp. 3i8-30.3„ 



IIÓ REVISTA DE SC1ENCJAS 



i. Formas individuaes. 

a) A alimentação (matérias empregadas, instrumentos 
e utensílios respectivos, processos de preparação; costumes 
e crenças que se lhe referem). 

b) A habitação (a casa e o seu mobiliário, a casa iso- 
lada e os agrupamentos de casas, do logarejo á cidade, etc). 

c) O vestuário e as armas. 

d) O trabalho (a agricultura e industrias annexas, as 
outras industrias; matérias primas, instrumentos, processos; 
costumes e crenças respectivas). 

2. F^ormas individuo-sociaes. 

à) A organisação do trabalho (senhor, patrão, empre- 
sário, mestre e operário (official, aprendiz); relações diver- 
sas). 

b) O commercio, formas diversas, costumes, crenças, 
etc. 

c) Associações, companhias, confrarias, corporações 
d'officios. 

d) A linguagem, a escripta. 

e) O decoro, o porte pessoal. 

f) As formas de polidez e de respeito. 

g) O jogo (passagem para as formas da vida artística). 

3. As formas sociaes. 

a) A família (a vida da família: o casamento, a gravi- 
dez, o nascimento, a educação dos filhos, as diversas eda- 
des, a posição social da mulher, a morte, etc). 

b) O direito matriarchal e patriarchal. 

c) Os laços da sociedade. A tribu e o estado. 

d) As formas do estado. 

é) O sentimento da communidade nacional e politica. 
f) A organisação jurídica (systema penal, etc). 

4. As formas humanas. 

a) Os sentimentos de humanidade em geral. 

b) A amizade. 

c) A hospitalidade. 



NATURAES E SOCIAES II7 



d) A beneficência. 

é) As relações internacionaes. 

aà) pacificas 

bb) bellicosas. 

II. Formas da vida artística (esthetica). 

1. Dança. 

2. Musica. 

3. Litteratura. 

4. Desenho, pintura. 

5. Esculptura. 

6. Architectura. 

III. Formas da vida religiosa. 

IV. Formas da vida especulativa (saber popular, pro- 
priamente dicto). 

1. Emquanto ás fontes : 

a) Observação, experiência. 

b) Conversação, tradição. 

c) Reflexão. 

2. Emquanto ao objecto: 
à) A natureza. 

b) O homem. 

c) As causas ultimas. 

A sciencia e a philosophia teem as suas raizes na acti- 
vidade mental do povo, da qual as separam a reflexão sys- 
tematica com mira no descobrimento das leis, caracteristica 
da sciencia, e a elaboração consequente das hypotheses, re- 
lativas ás causas ultimas, caracteristica da philosophia. Mas 
nem a sciencia nem a philosophia teem direito de olhar com 
desprezo para os productos da mente popular, que muitas 
vezes se acham nellas, apenas decorados com nomes pom- 
posos ( x ). A sciencia tem também a sua superstição. A phi- 
losophia não poude ainda, em geral, produzir senão ou ne- 
gações a respeito d'uma causa ultima ou concepções d'essa 

(*) Vid. por exemplo o meu artigtf anterior nesta Revista. 



Il8 REVISTA DE SC1ENCIAS 



causa n'uma forma mais ou menos eivada cTanthropomor- 
phismo, o que tem egualmente as suas raizes em con- 
ceitos populares. 

Deixo para um trabalho especial desenvolver e funda- 
mentar a classificação apresentada, assim como incluir o 
estudo das tradições populares no quadro d'uma classifica- 
ção geral do saber humano. Indicarei agora os grãos d'esse 
estudo. São elles: 

i.° Grão descriptivo (simples colleccionação de dados, 
com ou sem classificação immediata). 

2. Grão comparativo (colleccionação de parailelos da 
tradição do mesmo e de diíferentes povos, no presente e no 
passado, quando possível). 

3.° Grão histórico (determinação da origem ethnica da 
tradição, sua migração, se a houver, e transformações). 

4. Grão genético (estudo da formação da tradição).' 

O primeiro grão está, por assim dizer, ao alcance de toda 
a gente; para desempenhar-se com mérito a tarefa que im- 
põe exige, porém, perfeita probidade, tacto e talento d 'obser- 
vação que nem todos possuem. 

O segundo grão depende da erudição; exige o conheci- 
mento de línguas que, quanto mais extenso for mais profí- 
cuo será naturalmente, e excellente memoria; e, se os pa- 
railelos não são feitos em globo, mas descem ás particulari- 
dades, buscam as razões das differenças e teem em vista a 
solução dos problemas dos grãos seguintes, suppõe verda- 
deiro espirito scientifico. 

O terceiro grão, que muitas vezes se confunde com o 
quarto, oíferece já graves difficuldades, de que são prova, 
por exemplo, as discussões pendentes sobre a origem ou 
antes origens dos contos populares, exemplo, ao mesmo 
tempo, nalguns auctores d'aquella confusão. Ainda que se 
tenha conseguido demonstrar (o que é empresa árdua) que 
tal conto é d'origem budhica ou assyria, ou egypcia, ou 
grega, ou remonta ao passado selvagem do homem europeu, 



NATURAES E SOC1AES IIQ, 



etc, fica ainda para resolver a questão de como elle se ori- 
ginou. 

O grão genético depende em grande parte do progresso 
da psychologia applicada e da vulgarisação d'essa sciencia 
entre os folk-loristas. 

Propomo-nos reunir aqui alguns exemplos para mostrar 
a extensão do domínio do folk-lore e applicar os seus 
methodos d'investigação. O meu artigo anterior (*) tem já 
esse ponto de mira; hoje darei um exemplo simples, mas 
que se me afigura instructivo. 



II 



Silva Lopes falia na sua Corographia do Algarve de 
diversas qualidades de figos alli cultivados como cóteos 
(pop. coitos), enxartos brancos, enxartos pretos, marchaxotes 
(pop. barsajotes), sofeiros, e diz: «O figo enxario precisa 
de ser tocado para amadurecer... figos ha que sem esse 
adjutorio cahem pecos das figueiras em pequenos, como os 
enxarios, vindimos, e outros; e ainda mesmo os cóteos, 
que, sim amadurecem sem toque, são mais fartos de miolo 
porém, posto que tomem hum sabor mais acre e picante, 
sendo tocados. Faz-se esta singular operação pendurando 
nas figueiras enfiadas de outros figos de figueiras bravas 
(Caprificus). Produzem estas figueiras o fructo três vezes 
no anno: os primeiros vem em abril e cahem sem amadu- 
recer em setembro e outubro: os segundos apparecem no 
fim de setembro e ficam na arvore até ao fim de maio: nes- 
te tempo se descobrem os terceiros. Nenhum destes figos 
são bons para comer: a natureza os destinou só para fazer 



(*) Revista de Sciencias Naturaes e Sociaes, tom. m, pp„ 
i 17-124, 169-185. 



120 REVISTA DE SCIENOIAS 



amadurecer os de algumas figueiras cultivadas. Certos mos- 
quitos depõem os ovos nos figos do outono, aili se gerão 
uns vermes que, tornando-se em outros mosquitos, picão 
em outubro os figos do inverno, e então cahem aquelles: 
contêm estes do inverno os ovos alli depostos, os quaes 
desenvolvendo-se em novos mosquitos, quando os figos 
estão nascidos, chegão a certa grossura, os picão no olho, 
e lá introduzem seus ovos; de que nascem ainda outros 
mosquitos em junho e julho. Neste tempo he que se apa- 
nhão estes figos do verão, enfião-se aos dois ou três em 
palmas, juncos, ou espartos, e pendurão-se nas figueiras 
que precisão ser tocadas : destes figos sahem os mosquitos 
que vão tocar no olho os outros, que então são do tamanho 
de amêndoas sem casca, depondo alli seus ovos com a vida 
para a darem a esses figos, que sem isso não medram. No 
Algarve he tão antigo este conhecimento como na Grécia e 
Malta, onde também está em uso desde tempo imme- 
morial í 1 ).» 

« No sul da França e em Itália, desde tempos muito re- 
motos que se conhece e usa uma practica curiosa que dá 
em resultado apressar consideravelmente a maturação dos 
figos, concorrendo ainda a augmentar-lhes o volume : con- 
siste na applicação d'uma gotta de azeite, com uma palha 
fina ao olho do figo, quando elle começa a inchar; imme- 
diatamente toma grande desenvolvimento, augmenta muito 
de volume e amadurece dentro em poucos dias. Esta pra- 
ctica é sem duvida muito útil, mas muito trabalhosa e inap- 
plicavel na cultura em ponto grande. 

« Também no Algarve é ella desnecessária, porque aqui 
obtem-se o mesmo resultado da caprificação natural que se 
opera do seguinte modo: 



(*) João Baptista da Silva Lopes, Corographia ou memoria eco~ 
nomica, estatística e topográfica do Reino do Algarve (Lisboa, 1841), 
pp. 141-2. 



NATURAES E S0C1AES 121 



«É conhecida e muito vulgar a variedade de figueiras 
chamadas de toque: produzem figos pequenos rugosos que 
nunca chegam a amadurecer; ha um pequeno insecto que 
persegue esta casta, perfurando o figo no olho e depositando 
no seu interior uma grande quantidade de ovos; estes no 
começo do estio desenvolvem-se e do interior do figo sahe 
então um enxame de insectos que se expande pelo figueiral 
e vae perfurar os olhos aos figos que encontram isto justa- 
mente na epocha que convém ao seu rápido desenvolvi- 
mento e maturação. E pois este insecto que se encarrega 
de realisar uma operação tão útil e que se fosse operada 
por mão de homem daria immenso trabalho. Ha muitas 
variedades que não sendo caprificadas nunca dão fructo que 
preste. 

«Hoje todos reconhecem não só a vantagem, mas mesmo 
a necessidade da caprificação e por isso quem planta um 
figueiral planta sempre algumas figueiras de toque, de per- 
meio com as que destinam á producção de fructos. 

« Quando nas circumvisinhanças não ha figueira d'aquella 
casta, na epocha própria, procuram-se alguns figos de toque 
se enfiam n'uma linha, fazendo se um pequeno rozario e 
dependuram-se nas figueiras; a seu tempo produzem os in- 
sectos necessários para a caprificação » ( 1 ). 

Estes testemunhos escriptos são confirmados por noti- 
cias havidas de diversas pessoas naturaes ou residentes no 
Algarve. D'uma delias até é que tivemos o primeiro conhe- 
cimento da existência d'aquella pratica na referida provín- 
cia; depois achamos, procedendo a outras investigações, as 
passagens citadas. Não sabemos em que textos ou docu- 
mentos Silva Lopes se fundou para asseverar que a capri- 
ficação é antiga no Algarve; por ventura uma simples tra- 
dição. Em todo o caso não parece existir nenhum testemu- 



(*) Alexandre de Sousa Figueiredo, Manual de arboricultura, 
(Porto, 1875), pag. 296. 



122 REVISTA DE SC1ENC1AS 



nho em contrario. A existência do processo no Archipelago 
grego é, porém, certa nos tempos modernos. Com relação a 
Malta nno encontramos trecho comprovativo. 

«... Pline a remarque que 1 on cultivoit dans Zia (Gea) 
les flguiers avec beaucoup de soin; on y continue encore 
aujourd'hui la caprifícation. Pour bien comprendre cette ma- 
nufacture de figues, il faut remarquer que Pon cultive dans 
la plúpart des Isles de PArchipel deux sortes de flguiers; la 
premiere espéce s^ppelle Omo^ du Grec litteral Erinos Fi- 
guier sauvage, ou le Caprificus des Latins ; sa seconde es- 
péce est le Figuier domestique : le sauvage porte trois sor- 
tes de fruits, Fornites, Cratitires, Orni, absolument neces- 
saires pour faire meurir ceux des flguiers domestiques. 

Ceux qu'on appelle Fornites paroissent dans le móis 
d'Aout et durent jusques en Novembre sans meurir; il s'y 
engendre de petits vers, d 'ou sortent certains moucherons 
que Pon ne voit voltiger qu^autour de ces arbres : dans les 
móis d'Octobre et de Novembre ces moucherons piquent 
d^ux-mêmes les seconds fruits des mêmes pieds de figuier; 
ces fruits que l'on nomme Cratitires ne se montrent qu'à la 
fin de Septembre; et les Fornites tombent peu à peu après 
la sortie de leurs moucherons: les Cratitires au. contraire 
restent sur Tarbre jusques au móis de May, et renferment 
les ceufs que les moucherons des Fornites y ont déposé en 
les piquant : dans le moi de May la troisième espèce de fruit 
commence à pousser sur les mêmes pieds de flguiers sauva- 
ges, qui ont produit les deux autres; ce fruit est beaucoup 
plus gros et se nomme Orni: lorqu'il est parvenu à une 
certaine grosseur, et que son oeil commence à s'entrouvrir, 
il est pique dans cette partie par les moucherons des Cra- 
titires qui se trouvent en état de passer d'un fruit à 1'autre 
pour y décharger leurs ceufs. 

II arrive quelquefois que les moucherons des Cratitires, 
tardent à sortir dans certains quartiers, tandis que les Orni 
de ces mêmes quartiers sont dispôs à les recevoir: on est 



NATURAES E SOC1AES I23 



obligé dans ce cas-là cTaller chercher les Cratitires dans un 
autre quartier et de les íicher à 1'extremité des branches des 
figuiers dont les Orni sont en bonne disposition, à fin que 
les moucherons les piquent: si l'on manque ce temps, les 
Orni tombent, et les moucherons des Cratitires s^nvolent; 
il n'y a que les paysans appliquez à la culture des figuiers 
qui connoissent les moments, pour ainsi dire, ausquels il faut 
y pourvoir, et pour cela vis observent avec soin 1'oeil de la 
figue; non seulement cette partie marque le temps oú les 
piqueurs doivent scrtir, mais aussi celui oú la figue doit 
être piquée avec succès ; si 1'oeil est trop dur et trop serre, 
le moucheron n'y sçauroit déposer ses oeufs, et la figue 
tombe quand cet ceil est trop ouvert. 

Ges trois sortes de fruits ne sont pas bons à manger; 
ils sont destinez à faire meurir les fruits des figuiers domes- 
tiques; voici Tusage qu'on en fait. Pendant les móis de Juin 
et de Juillet, les paysans prennent les' Orni dans le temps 
que leurs moucherons sont prêts a sortir, et les vont porter 
tous enfilez dans de fêtus sur les figuiers domestiques; si 
1'on manque ce temps favorable, les Orni tombent, et les 
fruits du figuier domestique ne meurissont pas, tombent 
aussi dans peu de temps; les paysans connoissent si bien 
ces précieux moments que tous les matins en faisant leur 
revuê, ils ne transportent sur les figuiers domestiques que 
les Orni bien conditionez, autrement ils perdroient leur re- 
colte: il est vrai qu^ls ont encore une ressource quoique 
legère, c'est de répandre sur les figuiers domestiques VAr- 
colimbros plante três commune dans les Isles, et dans les 
fruits de laquelle il se trouve des moucherons propres à pi- 
quer; peut-être que ce sont les moucherons des Orni qui 
vont picorer sur les fleurs de cette plante: enfin les paysans 
ménagent si bien les Orni que leurs moucherons font meurir 
les fruits du figuier domestique dans 1'espace de quarante 
jours. 

Ces figues fraíches sont fort bonnes: pour les sécher on 



124 REVISTA DE SC1ENC1AS 



les expose au soleil pendant quelque tcmps, puis on les passe 
au four afin de les conserver le reste de 1'année ; le pain 
d^rge et les figues sèches sont la principale nourriture des 
paysans et des moines de 1'Archipel; mais il s'en faut bien 
que ces figues soient aussi bonnes que celles que l'on sèche 
en Provence, en Italie, et en Espagne; la chaleur du four 
leur fait perdre toute leur délicatesse et leur bon gout: d\m 
autre côté elle fait périr les ceufs que les piqueurs de VOrni 
y ont déchargez, et ces oeufs ne manqueroient pas de pro- 
duire de petits vers dont ces fruit seroient endommagez. 

Voilà bien de peine et du temps pour n'avoir que de 
mauvaises figues? Je ne pouvois assez admirer la patience 
des Grecs occupez pendant plus de deux móis à porter ces 
piqueurs d^n figuier a 1'autre; j'en appris bientôt la raison: 
un de leurs arbres raporte ordinairement jusques à deux cens 
quatre-vingts livres de figues, au lieu que les nôtres n'en 
rendent pas vingt-cinq livres... nos figues em Provence et 
à Paris même meurissent bien plutôt sion pique leurs yeux 
ávec une paille graissée d'huile d^live...» (*) 

O processo era já conhecido na antiguidade e estava 
exactamente em uso entre os gregos, com effeito. 

«E admirável a pressa d^ste fructo (da figueira), único 
como tal entre muitos, para a maturação, em virtude d'um 
artificio da natureza. Chama-se caprifico certa variedade de 
figueira brava que nunca amadurece, mas dá ás outras o 
que não tem, por isso que é natural a transmissão das for- 
ças (causarum) naturaes e da putrefacção se gera alguma 
coisa. Essa figueira dá á luz pois mosquitos (culices); estes, 
faltando-lhes alimento na mãe, pela putrefacção d'ella, voam 
para a arvore parente e por meio de frequente mordedura 
dos figos, isto é, abrindo-lhes, ávidos de pasto, os poros 
(ora), e penetrando n^lles fazem entrar comsigo o sol e 



(*) Pilton de Tournefort, Relation cTun voyage du Levant. 
(Lyon, 1727), t. 11, pp. 23-26. 



NATURAES E SOC1/VES 12$ 



introduzem por essas portas abertas o ar fecundante (ceria- 
les auras). Em breve consommem o humor leitoso, isto é, 
a infância do íigo, o que também se pode dar espontanea- 
mente; por isso nos íigueiraes põe-se um caprifico contra o 
vento, de modo que o sopro leve os mosquitos ao voarem 
para os figos. D'ahi resultou inventar-se a pratica de atar 
ramos de caprifico, cortados n'outro logar, e lança-los sobre 
a figueira domestica. O que não é necessário nos terrenos 
magros e expostos ao aguião ; porque n'elles seccam os figos 
espontaneamente pela posição do logar e as fendas produ- 
zem o mesmo effeito que o trabalho dos mosquitos. O 
mesmo se dá onde ha muito pó, como acontece nas figueiras 
collocadas ao lado d 'uma estrada; pois a poeira tem a pro- 
priedade de seccar os figos e absorver o humor leitoso ( 1 ). 
Já antes de Plinio (m. 79 p. Chr.), Theophrasto, o dis- 
cípulo de Aristóteles e fundador da botânica (m. 286 a. Chr.) 
fallara da caprificação, mas com menos minudência relati- 
vamente a esse processo; dá porem a noticia de que não se 
praticava na Itália. (Historiae plantarwn lib. 11, cap. 9). 



III 



A tradição que nos occupa entra no domínio dos pro- 
cessos agrícolas, portanto na divisão da classificação apre- 
sentada. 1 Formas da vida pratica. 1. Formas individuaes. 
d) O trabalho. Não consegui saber se no Algarve o povo 
dava alguma explicação do phenomeno do amadurecimento 
dos figos pela caprificação; se ella existe, entra em iv. For- 
mas da vida especulativa 2. a) (op. a explicação de Plinio, 
que todavia não pode dizer-se popular e que do teor de 
muitas outras contidas nos antigos naturalistas). É natural 

( 4 ) Plinio, Historiae naturalis lib. xv, cap. 21. 



I2Ó REVISTA DE SC1ENC1AS 



que o povo algarvio conheça o processo apenas como coisa 
da pratica tradicional, sem se importar com explicações. A 
verdadeira só a physiologia botânica dos nossos dias podia 
dá-la. 

Buscámos comprovar a existência da tradição por teste- 
munhos seguros, o que é sempre necessário, porquanto 
muitas vezes se attribuem a povos tradições que ou são 
pura invenção dos que as notificam ou pertencem a outros 
povos, como se deu, por exemplo com a couvade pretendida 
dos bascos (*), como mais de uma vez se deu comnosco. 
chegando até um colleccionador a dar-nos contos que lhe fo- 
ram enviados e eram simplesmente traduzidos de Perrault. 

Passamos a investigar os parallelos e achamo-los só, com- 
provados por testemunho seguro, nas ilhas do mar Egeo. Se 
investigação mais extensa no-los descobriria n'outras partes 
a não ser nos paizes circumvizinhos, é o que os testemunhos 
negativos de vários escriptores de botânica e arboricultura 
que consultamos nos permittem pôr em duvida : a caprifi- 
cação não existe nem na Itália nem na França, nem no resto 
da peninsula ibérica, fora do Algarve; não parece existir 
também na Africa septentrional. 

D^outro lado vemos na antiguidade clássica o processo 
em voga entre os gregos, mas desconhecido na Itália, se- 
gundo Theophrasto. 

A pátria da figueira cultivada (Ficus carica, L.) é a Ásia 
anterior semítica, a Syria e a Palestina. Na Phrygia e na 
Lydia era o seu fructo também muito prezado. Na epocha 
a que a remontam as diversas partes da Uiada parece ser 
elle ainda desconhecido nas costas e ilhas próximas da Ásia 
menor, pois não é mencionado n'aquelle poema, e com maior 
razão o seria na Grécia europêa. Na Odyssea acha-se a 
menção da figueira em logares que a critica considera como 

(*) A. Hovelacque et Jules Vinson, Eludes de linguistique et 
tféthnographie (Paris, 1878), pp. 197-209. 



NATURAES E SOC1AES I27 



dos mais recentes do poema; na Nekuia, na descripção de 
Tântalo no supplicio (xi, 588 n.), accrescento evidente, n'uns 
versos que se repetem na descripção do palácio d'Alcinoo 
(vn, io3-i3i), com perturbação da continuidade e ainda no 
episodio de Laertes, accrescento no canto xxiv. Nos poemas 
hesiodicos não ha menção do fructo, que apparece já em 
Archiloco (c. 65o a. Chr.) como producto da ilha de Paros, 
sua pátria; depois passou a figueira domestica para a Attica 
e Peleponeso e outras partes da Grécia e pelas colónias 
gregas estendeu-se o seu habitat por toda a costa septen- 
trional mediterrânea ao occidente da Grécia. (*) 

£, impossível determinar se a figueira domestica nos 
chegou directamente por colónias gregas ou indirectamente. 
A sua cultura achava-se florescente na Africa septentrional, 
em Carthago, no tempo das guerras púnicas; não sabemos 
também se a caprificus precedeu a espécie de fructo comes- 
tível no nosso território; mas é natural a hypothese de que 
o processo da caprificação seja dirigem grega; comquanto 
se possa também pensar que os habitantes do Algarve 
achassem por si esse processo peia observação da influencia 
dos insectos nascidos nos figos bravos sobre a maturação 
dos comestiveis. O grão histórico na investigação das tradi- 
ções populares leva-nos muitas vezes a dupla hypothese aná- 
loga, sobretudo quando se tracta de tradições simples de na- 
tureza, a que falta clara característica de tempo, lugar ou po» 
vo. Mas a verdade é que o facto de se encontrar, tanto quanto 
a investigação no-lo permitte affirmar, a tradição de que se 
tracta só entre gregos e no Algarve dá á hypothese da ori- 
gem hellenica grande probabilidade. 

Não podemos duvidar da existência de colonisação grega 
no Algarve. Referindo-se a nomes contidos em inscripções 
de Balsa (cerca de Tavira) diz o snr. Emilio Hubner: «Se 



(*) Victor Hehn, Kulturjlaii7 x en and Hausthiere in ihrem Ue~ 
bergang aus Asien ele, 5. a ed. (Berlin, 1887), pp. 79-82. 



128 REVISTA DE SC1ENC1AS 



a estes nomes se juntarem os que se acham em algumas: 
das outras inscripções. . . observar-se-ha, embora a esta- 
tística seja muito incompleta, uma certa preponderância do 
elemento grego na classe inferior dos habitantes. Esta obser- 
vação é plenamente confirmada pela nomenclatura dos ha- 
bitantes de Faro (Ossonoba), e d'outras cidades de com- 
mercio marítimo no resto da península. » (}) 

O grão genético no estudo da caprificação reduz-se a 
pouco: não estamos aqui em frente d'um problema como o 
que oíferecem os mythos, os contos populares. Tracta-se 
d\im facto d^bservação convertido em experiência e en- 
globado no thesouro do saber pratico d'um povo. Mas essa 
observação exige espirito fino, muito attento á natureza; 
essa experiência iniciativa firme, capaz de s se emancipar 
d'uma rotina e tentar novos processos: eram dotes que os 
gregos possuiam em alto grão, mas que não nos achamos 
com direito de negar por completo aos antigos habitantes^ 
do Algarve. Emquanto aos modernos algarvios não nos pa- 
rece que no domínio da agricultura e da arboricultura seja 
notável o seu espirito inventivo. 

Lisboa, 6 de janeiro de 1896. 



F. Adolpho Coelho. 



(*) E. Húbner, Monumentos de Balsa na Revista Archeologica v 
publ. por Borges de Figueiredo, vol. 1 (1887), pp. 33-38. 



A NECROPOLE PROTOHISTORICA 



DA 



FONTE VELHA, EM BENSAFRIM 



NO 



CONCELHO DE LAGOS 



No anno de 1878 o reverendo Manoel José de Barros^ 
parocho em Bensafrim, assignalou a Estacio da Veiga a 
sitio da Fonte Velha ou Solões da Mina, a 1 kilometro ap- 
proximadamente do povoado, como estação rica em monu- 
mentos sepulcraes de remotas eras, d'onde se haviam já 
extrahido algumas lages com inscripções em caracteres exó- 
ticos. Estacio da Veiga procedeu á exploração do local; e 
encontrou as dezesete sepulturas rectangulares que são des- 
criptas na sua obra sobre a prehistoria do Algarve ( x ). Es- 
tavam a profundidade variável, todas orientadas, no seu, 
eixo maior, de NNO a SSE, por debaixo diurna necropole 
romana por incineração; e quasi todas mediam internamente 
pouco mais de i m no comprimento e de o m ,5o na largura, 
variando a profundidade entre o m ,35 e o m ,70. Dentro delias, 
descobriu o illustre explorador ossos humanos, algumas 
lascas de silex e de quartzite, artefactos de ouro, cobre* 
chumbo, bronze e ferro, contas de vidro, sendo muitas> 

(*) tAnt. monum. do &4/^., t. 4. , pag. 25i e seg. 



1^0 REVISTA DE SC1ENC1AS 



crestas esmaltadas, fragmentos cTuma urna de barro escuro, 
com pasta grosseira, mas bem cosida, e outros restos de 
louça ordinária. 

Uma das sepulturas era feita com lages de grés verme- 
lho; e n'outra uma das lages lateraes tinha gravada uma ins- 
cripção em caracteres chamados ibéricos. Acerca das ins- 
cripções d'esta natureza, que se encontram na necropole, 
nota que ellas formam os flancos ou os topos das sepultu- 
ras, e estão voltadas para dentro. 

Apesar da mais escrupulosa observação com que o insi- 
gne archeologo declarou ter feito as explorações, não se sabe 
se as sepulturas eram cobertas com lages — qual a posição 
dos ossos humanos — se cada sepultura continha um só es- 
queleto — e sobretudo se haveria indicios de profanações; 
circumstancias que, a nosso ver, eram da máxima impor- 
tância. 

A interessante necropole foi por elle attribuida á pri- 
meira idade do ferro, não só por ter recolhido três artefa- 
ctos d^ste metal, mas porque contas de vidro semelhantes 
ás da Fonte Velha foram encontradas na necropole de Vil- 
lanova (Itália), explorada por Gozzidini e pertencente 
áquella epocha, e em outras necropoles mencionadas pelo 
snr. Chantre na sua obra sobre a primeira idade do ferro. 

Das inscripções em caracteres ibéricos, que, segundo 
boas auctoridades, derivam do alphabeto phenicio, e que o 
próprio Estacio da Veiga reconheceu que existem em gran- 
de parte nas mais antigas inscripções phenicias de Garthago 
e de outras estações do Mediterrâneo, nenhum argumento 
parece ter tirado aquelle auctor para determinar a epocha 
da necropole; porque encontrou inscripções semelhantes em 
estações que suppoz typicas da epocha do bronze e até em 
um caco da epocha neolithica, que o snr. Gongora y Mar- 
tinez recolhera na Cueva de los zMurciêlagos, em Albunol, 
província de Granada ; caco em que o snr. Martinez vira, 
e muito bem, apenas um adorno. 



NATURAES E SOCIAES [31 



Tendo presentes estas indicações, mas sem opinião 
formada sobre a epocha da necropole, sobretudo não ha- 
vendo estudos feitos sobre a primeira epocha do ferro em 
Portugal, proseguimos em março ultimo a exploração do 
sitio, sujeitando todo o trabalho á nossa observação pessoal. 
Serviu-nos de guia o illustrado prior de Bensafrim, reve- 
rendo António José Nunes da Gloria, um dos melhores or- 
namentos da archeologia do Algarve, a quem Estacio da 
Veiga devera assignalados serviços, e que conhecia bem os 
pormenores da exploração que este havia feito n'aquella lo- 
calidade. Foi elle que nos marcou no terreno a área d'esta 
exploração; que nos assistiu com o seu prudente critério em 
todos os trabalhos; e que afinal levantou a planta das nos- 
sas descobertas, que se acha hoje no Museu Municipal da 
Figueira, e na qual foram relacionados os trabalhos de Es- 
tacio da Veiga com os nossos. Por isso aproveitamos aqui 
o ensejo de mais uma vez prestarmos homenagem a esse 
illustre varão, tão distincto nas lettras como nas artes e na 
prática das virtudes christãs, testemunhando-lhe publica- 
mente o nosso reconhecimento e a sincera admiração que 
sentimos pelo seu mérito, tanto mais apreciável quanto é 
grande a sua modéstia. 



A nossa excavação cercou a área explorada anterior- 
mente pelo O, S e SSE, n'uma extensão de mais de 3o m ; 
mas pelo N penetrou n'essa área, descobrindo-nos três no- 
vas sepulturas, uma das quaes, segundo a informação do 
nosso excellente guia, tinha já sido posta a descoberto por 
Estacio da Veiga, que a tomara como resto de construcção 
romana, deixando-a intacta como nós a encontrámos, e que 
afinal foi precisamente a que nos forneceu o melhor dos re- 
sultados que colhemos n'aquella necropole. 



132 REVISTA DE SC1ENC1AS 



Na camada superior do terreno explorámos uma necro- 
pole luso-romana por incineração, que é objecto d'um es- 
cripto que estamos publicando no Archeologo 'Poríuguez; 
e por debaixo, a profundidade variável entre o m ,5o e o ,n ,8o, 
encontrámos e explorámos quatorze sepulturas da necropole 
protohistorica, isto é, menos três apenas do que as des- 
cobertas e exploradas pelo nosso predecessor. 

Estas sepulturas não eram todas rectangulares e orien- 
tadas de NNO a SSE, como as mencionadas por Estacio 
da Veiga. Apenas quatro tinham appareptemente a forma 
rectangular. Oito das restantes eram trapezoidaes, uma 
triangular e outra semicircular. Onze tinham o eixo maior 
no rumo de ONO a ESE, e uma no de NNE a SSO. A 
triangular offerecia um dos lados a NO; e a semicircular 
tinha a concavidade voltada para ONO. 

Também a profundidade não apresentava as grandes 
differenças indicadas por Estacio da Veiga. Nenhuma sepul- 
tura tinha menos de o m ,65; e nem o modo de inhumação 
permittia talvez menor profundidade para indivíduos adultos. 

Lages brutas de grés e algumas de calcareo, cravadas 
de cutello na argilla do sub-solo e sensivelmente inclinadas 
para fora, formavam os lados de treze d'essas sepulturas; 
mas uma d'ellas tinha um dos lados formado, em parte, 
com alvenaria secca. A semicircular era toda construida 
com esta alvenaria. 

Uma das rectangulares, orientada, no seu eixo maior, de 
ONO a ESE, offerecia a singularidade de ter do lado de 
ESE dois renques de lages parallélas, um ligado ao flanco 
de SSO e o outro ao de NNE, que era o mais comprido, 
sendo este segundo renque que envolvia o outro, de modo 
a formar alguma cousa semelhante a um pequeno corredor 
ou canal de o m ,2o de largura, communicando eom o inte- 
iror do monumento. Esta circumstancia excepcional coin- 
icde com a de ser essa a única sepultura onde jaziam dois 
esqueletos, um do lado ONO e o outro no de ESE. 



NATURAES E SOG1AES I 33 



As sepulturas trapezoidaes mediam internamente, no 
comprimento, entre i m , 10 e i n ,4o, no lado que figurava a 
base do trapézio, entre o m ,7o e i m ,3o, e no lado fronteiro 
quasi todas o m ,5o a o m ,7o. As rectangulares mediam de 
i m , 10 a i m ,35 no comprimento e o m ,7o a o m ,8o na largura. 
Os lados da triangular tinham de o m ,90 a i m ; e a semicir- 
cular approximadamente o m ,7o de diâmetro. 

Esta ultima não tinha cobertura alguma, nem indícios 
de remeximento no deposito. Quatro das outras eram co- 
bertas com lages brutas collocadas horisontalmente, e tam- 
bém não apresentavam signaes alguns de profanação ou re- 
meximento. As nove restantes ja não tinham tampa; mas 
cinco destas não oífereciam outros vestígios de profanação. 
Só quatro pareciam remexidas até ao fundo. 

Nós colhemos provas manifestas de que estas sepul- 
turas foram primitivamente todas cobertas. Encontrámos 
algumas das respectivas lages, ainda inteiras, ao lado das 
sepulturas, e restos de outras que os homens da necropole 
superior partiram, applicando muitos fragmentos a prote- 
gerem as urnas cinerarias. 

Os remeximentos nos depósitos dessas sepulturas de- 
vem ter sido obra dos mesmos homens. Encontrando nas 
suas excavações, para formarem as fossas em que incine- 
ravam os seus mortos e sepultavam as urnas, as lages de 
cobertura das sepulturas inferiores e levantando-as, viram 
necessariamente bem delineada nos topos dos supportes a 
forma d'esses monumentos escondidos no seio da terra; e 
por vezes, talvez emquanto não se convenceram da pobreza 
do espolio que elles encerravam, fizeram descer as excava- 
ções até ao fundo, arrastando e dispersando nos entulhos 
extrahidos os frágeis restos que continham. 

Bastará um dos factos por nós observados para con- 
firmar inteiramente esta hypothese. Um deposito luso-ro- 
mano de cinzas e carvões vegetaes, contendo vasos de vi- 
dro, bronzes e uma urna cineraria, estava deatro d\ima 



134 REVISTA DE SC1ENC1AS 



sepultura da necropole inferior, penetrando o m ,i5 a o m ,20 
abaixo dos topos dos supportes; e estes tinham vestígios 
d'um fogo intenso, indicando que a cremação do morto, cu- 
jas cinzas foram encerradas na urna, se fizera n'aquelle mes- 
mo logar. D'ahi para baixo, até ao fundo argilloso da sepul- 
tura, o entulho, com fraca cohesão, foi absolutamente es- 
téril. Os próprios ossos humanos tinham desapparecido ! 



A camada superior do terreno, onde se achava a ne- 
cropole luso-romana, continha, disseminados, muitos obje- 
ctos neolithicos, assim como alguns fragmentos de cerâmica, 
uns semelhantes ás louças neolithicas e ás da necropole da 
Campina, e outros com caracteres da roda do oleiro, ha- 
vendo até pela superfície da terra alguns com feição árabe. 

A's vezes no meio do entulho das sepulturas da necro- 
pole inferior, que haviam sido profanadas, apparecia isola- 
damente alguma lasca de silex, e em uma d'ellas recolheu- 
se um pequeno fragmento de cerâmica com pasta perfeita- 
mente egual á da mais antiga da camada superior. Para nós 
ficou bem manifesto que estes objectos foram introduzidos 
com o entulho, quer no acto da inhumação, quer por occa- 
sião das profanações. 

A' mesma causa deve attribuir-se a presença dos sílices 
e quartzites que Estacio da Veiga encontrou em sepulturas 
por elle exploradas. 

Cumpre advertir que nós descobrimos a algumas de- 
zenas de metros das sepulturas que explorámos, uma gran- 
de quantidade de pedras brutas, pela maior parte de forma 
polygonal irregular, parecendo ruinas de uma ou mais con- 
strucções, entre as quaes se encontraram cinzas e fragmen- 
tos de pequenos vasos, semelhantes, na grosseira estructura 
da pasta, mas não na forma, ás louças da Campina. Esses 



NATURAES E SOC1AES Itf 



vasos tinham fundo de prato. Ruinas semelhantes fornece- 
riam provavelmente esses fragmentos de louça primitiva 
que encontrámos esparsos no terreno que cobria a necro- 
pole de que tratamos. 

Nenhuma das sepulturas que explorámos, forneceu 
louça, a não ser o fragmento a que nos referimos. A profa- 
nação podia talvez ter feito desapparecer todos os vestígios 
(Telia, o que não era muito provável; mas a sua falta em 
nove sepulturas, umas intactas e outras em que a profana- 
ção não chegara ao deposito mortuário?! 

Também nenhum objecto de metal, a não ser um pe- 
queníssimo bocado que parece bronze, forneceram todas as 
nossas sepulturas. Esse objecto foi encontrado em uma se- 
pultura que fora profanada até ao fundo, como provaram a 
falta de ossos humanos que n'ella notámos e a desordem 
em que se acharam as contas de vidro. 

O que mais surprehende, em face das declarações de 
Estacio da Veiga, é a falta dos objectos metallicos nas se- 
pulturas não profanadas, sobretudo n'aquella em que encon- 
trámos o cippo com inscripção ibérica, que devia provavel- 
mente pertencer a um personagem de mais importância. 

Por outro lado é preciso notar que nós recolhemos na 
necropole luso-romana argolas de bronze que parecem se- 
melhantes áquellas que Estacio da Veiga diz ter encontrado 
na necropole inferior e de que apresenta os desenhos na 
sua obra (*) ; e que não encontrámos em sepultura alguma 
a camada de lascas de pedra que elle notou em sepulturas 
onde recolheu os objectos de ferro e chumbo e duas das re- 
feridas argolas. 

Tudo isto dá logar a muitas conjecturas, que nós pòr 
emquanto nos abstemos de formular e discutir, mas que, 
a nosso ver, não influem na questão da idade da necropole. 

Todas as sepulturas que reputamos profanadas até ao 

(*) D'estes objectos damos noticia no Archeolago Portuguez. 



I36 REVISTA DE SC1ENCIAS 



fundo, não continham vestígios apparentes de ossos huma- 
nos; e só duas d'ellas forneceram contas de vidro, mais ou 
menos dissemidadas no entulho. 

Das restantes uma continha fragmentos de dois esque- 
letos, como já dissemos, e cada uma das outras restos d'um 
esqueleto, e algumas também contas de vidro. Os ossos, 
com excepção dos encontrados na sepultura semi-circular, 
estavam completamente apodrecidos, mal se distinguindo, 
a olhos pouco exercitados n 'estes estudos/ do próprio entu- 
lho que os envolvia e de que haviam tomado a cor. Por 
isso apenas aproveitámos alguns fragmentos, São notáveis, 
pela sua extraordinária espessura, os fragmentos de fémur 
provenientes da sepultura semi-circular. 

Nos outros apenas nos feriu a attenção a platycnemia 
attenuada d\ima tibia. 

Em todas as sepulturas orientadas de ONO a ESE, 
que continham um só esqueleto, os ossos d'este estavam 
agglomerados para o lado de ESE. Este facto e o compri- 
mento das sepulturas, que não permittia a inhumacão hori- 
sontal de indivíduos adultos, assim como a sua profundidade, 
provam que os corpos eram inhumados de cocaras. 

Na sepultura orientada de NNE a SSO, que era a que 
continha a inscripção ibérica, o corpo fora inhumado do 
mesmo modo do lado de NNE. Agglomerados estavam 
também os ossos do esqueleto na sepultura semi-circular e 
os de cada um dos dois esqueletos na sepultura rectangular 
que tinha os dois renques de lages do lado de ESE. 

A inhumacão de cocaras representa um uso antiquís- 
simo, que nós temos observado nos monumentos neolithicos 
da Serra do Gabo Mondego; e afasta-se do modo de inhu- 
macão que notámos na necropole da Campina, pertencente 
á plena epocha do cobre, segundo os dados colligidos eté 
ao presente. 



NATURAES E SOC1AES I 37 



Na sepultura da inscripção ibérica nós pudemos obser- 
var a verdadeira situação das contas de vidro. Estavam 
junto aos fragmentos do craneo e dispostas seguidamente 
em duas curvas na direcção transversal da sepultura. 

As contas d'este monumento, as maiores de todas, são 
esphericas e feitas de vidro preto, conservando restos d^s- 
malte branco. Vê-se perfeitamente que eram formadas por 
um núcleo quadrangular de vidro negro, atravessado por 
um orifício, e coberto por laminasinhas alternadas de vidro 
negro e de esmalte branco. 

As outras são de vidro azul ou de vidro verde esmal- 
tado de branco, com forma discoide ou espherica e de di- 
versas dimensões ; mas ha uma, espherica, de cor rósea, e 
outra tubular de vidro amarellado. 

Todas estas contas têem similares nas que Estacio da 
Veiga representa na estampa XXVIII, fig. as i . a a 5. a , ter- 
ceiro exemplar superior da fig. a 6. a e nos tubosinhos mais 
estreitos da fig. a 7.**, da sua obra sobre as antiguidades do 
Algarve. 



A inscripção é gravada sobre uma lage bruta de grés 
vermelho, de forma irregular, medindo no comprimento 
i m ,34 e na máxima largura o m ,65. Esta lage fazia parte da 
tampa da sepultura, e tinha a face da inscripção voltada 
para baixo. Estava partida em três partes pela pressão ver- 
tical das terras: mas os fragmentos conservavam as rela- 
ções; e, quando estes foram levantados, os caracteres da 
inscripção appareceram reproduzidos em relevo no entulho 
sobre que assentavam. 



1^8 REVISTA DE SCIENC1AS 



A inscripção tem de ser publicada no oAvcheologo Por- 
tuguês; e d ella se enviou copia ao snr. Hubner. Por isso 
apenas diremos aqui que é gravada da direita para a es- 
querda, como na mais antiga escripta semítica. 



Estacio da Veiga baseou-se no apparecimento dos arte- 
factos de ferro para classificar esta necropole. Nós temos 
uma orientação diversa. Ignoramos se as sepulturas em que 
foram encontrados taes objectos apresentavam, ou não indí- 
cios de profanação; mas pensamos que, admittida a hypo- 
these de o deposito primitivo ser encontrado intacto, a pre- 
sença do ferro não seria bastante para attribuir a necropole 
aos primeiros tempos do uso d'este metal, assim como a 
sua falta não seria argumento absolutamente seguro para 
demonstrar que aquella pertenceria a uma epocha anterior, 
porque é sabido que o ferro foi de uso mui restricto até na 
antiguidade histórica. Nós temos encontrado numerosas se- 
pulturas manifestamente luso-romanas em que não appare- 
ceu aquelle metal : ao passo que outros descobriram sepul- 
turas phenicias em que o ferro até se encontrou nos pregos 
e argolas dos esquifes ( 1 ). 

O facto só nos auctorisaria a affirmar que a necropole 
pertence á idade do ferro; e nada mais. 

Ainda ninguém fez estudos bastantes para se estabe- 
lecerem as características da primeira epocha do ferro em 
Portugal; e não são de certo os elementos fornecidos pela 
necropole de Bensafrim que nos auctorisam a preencher esta 
lacuna da sciencia. 

Da presença das contas de vidro e do facto de se ha- 
verem encontrado exemplares, que se dizem semelhantes, 

(*) Hist. de VArt, de Perrot e Ghipiez, t. 3.° pag. 192 e 193. 



NATURAES E SOC1AES 139 



em estações estrangeiras, que alguns reputam da primeira 
epocha do ferro, também nada pôde concluir-se segura- 
mente, para fazer recuar a nossa necropole até essa epocha. 
E' o próprio Estacio da Veiga que confessa a falta de ele- 
mentos para comparar as estações descriptas pelo snr. E. 
Chantre com o pouco que da mesma epocha o illustre ar- 
cheologo portuguez julga estar descoberto no nosso paiz, 
notando até que nenhum dos artefactos de bronze ou de 
ferro, provenientes d'essas estações, tem similares conheci- 
dos em Portugal. A necropole de Hallstatt, na Áustria, 
considerada typica da primeira epocha do ferro, também 
lhe não serve para comparação : e, o que é mais notável, a 
própria necropole de Villanova não é, segundo elle, estação 
clássica para a Península. ( x ) Só n'uma cousa ella é clássica 
para a Península: — é nas contas de vidro, n 'essas contas 
que nem a gente de Villanova nem a da Fonte Velha fabri- 
cavam ! Assim seriamos levados a admittir para a Península 
uma primeira epocha de ferro que em nenhum dos artefa- 
ctos que lhe seriam próprios, se assemelharia á primeira 
epocha de ferro nas outras regiões da Europa, ainda as 
mais próximas! 



O que parece fora de duvida para nós, é que a necro- 
pole é pre-romana. A sua situação por debaixo da necropole 
luso-romana, a forma e dimensões das sepulturas, o modo 
de inhumação e ausência absoluta de qualquer objecto de 
fabrica romana nos depósitos mortuários não profanados, 
são argumentos que não têem fácil resposta. 

Mas, sendo pre-romana, pertencerá ao período d'influen- 
cia d'algum d esses povos, apenas mencionados na historia, 

(*) Obra cit., t. 4. , pag. 241-242, 248-249. 



I4O REVISTA DE SÇl.ENtíTAS 



que antes dos romanos se estabeleceram na Península? Nós 
assim o pensamos. Deve pertencer ao período da influencia 
phenicia ou lybi-phenicia, isto é, ao período que immediata- 
mente precedeu o da influencia romana, como indicam as 
contas de vidro e a inscripção em caracteres ibéricos. 

Não tentaremos longas dissertações para o demonstrar. 
Este apparato de erudição não nos ficaria bem, attendendo 
á nossa manifesta insufficiencia em assumptos de epigraphia 
e de archeologia phenicias. Limitamo-nos apenas a exhibir 
as opiniões dos mestres, de modo a coílocar os nossos 
contradictores na necessidade de os refutarem. 

Perrot e Chipiez, tratando da industria do vidro entre 
os phenicios, apresentam collares da estação phenicia de 
Tharros (Sardenha) e outros provenientes das explorações 
de M. Renan na Phenicia, em que se encontram contas 
eguaes ás nossas; e citam exemplares semelhantes encon- 
trados na parte mais antiga da necropole de Tarquinii e nos 
mais velhos túmulos de Cumas e de Syracusa (!). Tal é a 
auctoridade d'estes escriptores que o próprio Estacio da 
Veiga, divagando sobre a origem d'esses artefactos, admitte 
a possibilidade de serem de fabrica phenicia ou carthagineza 
e de a necropole da Fonte Velha ser contemporânea ou um 
pouco posterior á chegada dos phenicios ao nosso litoral ( 2 ). 

Por outro lado E. Hubner, tratando da origem da es- 
cripta ibérica, affirma o seguinte: — «Scripturam Ibericam e 
Phoenicia derivatam esse, non et Graaca, cum litterarum 
singularum formae demonstrant, ut statim apparebit, tum 
quod in ulteriore província tam in nummis quam in inseri" 
ptionibus nunquam desiit sinistrorsum derigi secundum Phce- 
niciorum consuetudinem ( 3 ).» Quer dizer: — «Que o alpha- 
beto ibérico deriva do phenicio, e não do grego, mostram- 



(*) Obra cit. t. 3.°, pag. 744-745, 747, notas, 825-827 e est. X. 

( 2 ) zAnt, mon. do cAlg., t. 4. , pag. 263 e 285. 

( 3 ) Monumento, linguae ibericce, pag. XXXI. 



NATURAES E S0C1AES I4 



n'o já as formas de cada uma das letras, como logo se verá, 
já também o facto de ser dirigido para a esquerda, o que 
nunca na província ulterior deixa de observar-se, quer nas 
moedas, quer nas inscripções». 

E' esta também a opinião de outros illustres orienta- 
listas, como Maspèro, e a que encontramos em Perrot e 
Chipiez. 

Como se propagou e modificou o alphabeto phenicio 
para formar as escriptas antigas, incluindo a ibérica, dizem- 
n'o estes últimos auctores nos termos seguintes: — «tous 
les peuples qui, par terre ou par mer, ont été en rapport 
avec les Phéniciens, leur ont emprunté cet alphabet, et, au 
prix de quelques retouches et de quelques additions, ils 
Pont adapte aux exigences des différents idiomes qu'ils par- 
laient. 

Les Phéniciens avaient tire de Técripture cursive égy- 
ptienne à la fois les formes et les valeurs de leurs signes. 
De proche en proche, ces signes passérent aux Hèbreux et 
aux Araméens, en même temps que, par TArabie méridio- 
nale, ils se répandaient chez les Libyens d'une part et de 
Pautre jusque chez les Hindous; dans la direction de l'Oc- 
cident, ils se propageaient chez les Grecs et les Italiotes, 
et les tribus mêmes de la lointaine Espagne en apprenaient 
Pusage. En faisant tant chemin, ces signes, on ne s'étonnera 
point, changérent beaucoup de forme et d'aspect ; tout y 
contribua, les habitudes de la main, plus ou moins adroite 
et pressée, suivant les temps et suivant les lieux, la diffé- 
rence des materiaux employés et celle des situations socia- 
les O». 

De resto, comparando nós os caracteres ibéricos com os 
das inscripções phenicias representadas por esses escripto- 
res, encontrámos uma semelhança notável entre muitos d^el- 
les, que parece apoiar inteiramente a opinião emittida. 

(*) Obra cit., t. 3.°, pag. 87. 



I42 REVISTA DE SC1ENC1AS 



Fixar, porém, uma data á nossa necropole é impossí- 
vel no estado actual da sciencia. Os phenicios, segundo 
Maspèro, Cartailhac e outros, fundaram Gadir ou Gadés, 
1100 annos approximadamente antes de Christo; mas já a 
esse tempo elles tinham colónias na Península, sobre o lit~ 
toral do Mediterrâneo ( 1 ). A influencia d^ste povo, conti- 
nuada pelos lybi-phenicios, seus irmãos, desde o 6.° século ( 2 ), 
durou na Península até aos fins do 3.° século antes de 
Christo, epocha em que começou o domínio romano. N J este 
largo período apenas podemos dar vagamente á necropole 
da Fonte Velha uma epocha em que a influencia civilisadora 
d'esses povos já se havia feito sentir profundamente, a 
ponto de os indigenas haverem comprehendido e apropriado 
á sua língua, modificando-o e vulgarisando-o entre si, o al- 
phabeto phenicio ; o que devia ter levado muito tempo, 
como bem notam Perrot e Ghipiez a propósito da introdu- 
cção do mesmo alphabeto na Grécia antiga. 

N'isto vemos nós mais uma razão para impugnar a hy- 
pothese de que aquella necropole pertence aos primeiros 
tempos do ferro. Este metal penetrou na Grécia i5oo annos 
antes da nossa era; e quando os phenicios fundaram Gadir, 
já a epocha do bronze segundo alguns, chegava ao seu termo 
na Itália e na Gallia ( 3 ), ou devia ter desapparecido, pelo 
menos na Itália, segundo a opinião que nos parece mais 
provável. Na Península o uso do ferro deve ter sido intro- 
duzido com as primeiras colónias phenicias. Os phenicios 



C 1 ) Vej. também a Hist. da cArte, t. 3.°, pag. 32 e seg, 

( 2 ) Obra cit., t. 3.°, pag. 42 e seg. 

( 3 ) Les ages préhist. de VEsp. et du Tort. do snr. Cartailhac 
pães. 8, 28 e 207. 



NATURAES E S0C1AE8 I43 



trabalhavam este metal, e faziam cTelle um commercio im- 
portante, posto que o bronze occupasse o primeiro logar, 
como entre todos os povos da antiguidade, incluindo os 
próprios romanos, que só começaram a usar o ferro nas 
suas armas desde o i .° século antes de Christo ( 1 ). Por isso 
com razão o dr. Landberg affirmou no congresso interna- 
cional de Stockolmo que o ferro abundava entre os povos 
semitas, mas que o uso do bronze sempre lhe foi prefe- 
rido ( 2 ). 

Na verdade Ezequiel diz que os tyrios negociavam em 
ferro com Tharsis (na Hespanha), Dan e Javan ( 3 ). O 
mesmo metal era objecto do seu commercio com Chypre ( 4 ); 
e uma inscripção phenicia, encontrada n^esta ilha, menciona 
um fundidor de ferro ( 5 ). «Nous savons, accrescentam Per- 
rot e Chipiez, que les cuirasses cypriotes de Demétrius Po- 
liarcete étaient en fer. Ces ouvriers experimentes avaient 
d'ailleurs, de bonne heure, reconnu que le fer était préféra- 
ble pour les armes offensives. On a la preuve; ainsi, dans 
la tombe d'ou est sortie la rondache d^mathonte, à Chypre 
on a aussi recueilli un sabre en fer d'environ 6o centimétres 
de longueur et une certaine quantité de pointes de javelot 
toutes faites de ce même metal ( 6 )». De resto nós já alludi- 
mos a outros artefactos de ferro encontrados em sepulturas 
phenicias ( 7 )-. 

(*) La vie antique, de Guhl e Kouer, t. 2. , pag. 453. 

( 2 ) Compte-renduy pag. 53. 

( 3 ) Liv. XXVII, vv. 12 e 19; Hist. de l'Art, t. 3.°, pag. 35, 

( 4 ) Hisl. cit., t. 3.°, pag. 489 e nota 1. 

( 5 ) Hist. cit., t. 3.°, pag. 864. 

( 6 ) Hist. e tomos cit., pag. 874. 

( 7 ) Para confirmar a remota antiguidade do uso do ferro entre 
os semitas, transcreveremos as palavras proferidas a este respeito por 
M. P. de Morgan na io. a sessão do congresso internacional, celebrada 
em Paris, no anno de 1889. 

« Je vous ai dit, Messieurs, que la connaissance du fer remonte 
dans 1'Asie antérieure à une antiquité extrêmement reculée. Les preuves 



144 REVISTA DE SC1ENC1AS 



D'este modo, devendo a necropole da Fonte Velha at- 
tribuir-se a uma epocha avançada da influencia phenicia, e 
sendo o ferro conhecido e trabalhado pelos phenicios e ob- 
jecto de commercio d^ste povo, que até o extrahia da Pe- 
nínsula, a solução mais aceitável é que essa necropole deve 
ser muito posterior aos primeiros tempos do uso do ferro 
no território do Algarve. 



Já depois de escripto o que precede nós voltámos á 
Fonte Velha proseguir a exploração da necropole. Duas no- 

de ce fait sont nombreuses : je me contenterai de vous rappeler les 
principales. 

Dans la Chaldée, noas voyons apparaitre le fer dans les nécropo- 
les de Warka et de Mougheir, mais se metal n'y figure encore qu'à ti- 
tre de matière précieuse, il est employé pour les bijoux, Or, n'est-il 
pas certain que ces tombeaux sont antérieures au XXX e siècle avant 
notre ère ? 

Vers 1700 avant Jésus-Christ, les genéraux égyptiens rapportaient 
de leurs campagnes en Asie des ustensiles de fer auxquels, nous dit-on, 
ils attachaient un três grand prix, car le fer, bien qu'ayant été connu 
dans la vallée de Nil dès Ia VI e dynastie, ne fut jamais dans ce pays 
d'un usage aussi répandu que dans la Mésopatamie. 

Plus tard, vers les débuts des empyres assyriens, le fer était 
devenu un metal d'un usage courant dans toute 1'Asie antérieure, et les 
róis d'Assour le recevaient en tribut des peuples du nord. 

Les documents relatifs aux progrés de la metallurgie sont nom- 
breux dans les annales assyriens. Ils nous fournissent la preuve indiscu- 
table de 1'existence du fer chez les tribus de Tabal, de Mouschkou, du 
Koummouk, du Nairi, peuplades qui, dès le XVI e siécle avant Jésus- 
Christ, étaient en guerre avec les Pharaons. » 

{Compte-rendu, pag. 287.) 

Devemos advertir que o ferro foi encontrado na pyramide da Gizeh, 
da 4. a dynastia, que attinge 4000 annos antes de Ghristo, como notou 
o snr. G. de Mortillet (Ibid., pag. 293). Sobre esta matéria pôde vêr-se 
Vage du bronze, de John Evans, introducção. 



NATURAES E SOCIAES I /] 5 



vas sepulturas foram postas a descoberto e estudadas por 
nós. Uma estava profanada, faltando-lhe até os supportes 
dos dois lados maiores; e a outra estava intacta. Esta ultima 
conservava as lages da cobertura, e estava orientada, no 
seu eixo maior, quasi a LO. A sua forma era sensivelmente 
rectangular; e as dimensões não se desviavam das notadas 
nas outras sepulturas. Dentro verificámos a existência de 
ossos de esqueleto humano agglomerados do lado de L; o 
que confirma a hypothese da inhumação de cocaras. 

Nenhum artefacto de qualquer espécie foi encontrado 
no entulho, a não ser um fragmento de cerâmica averme- 
lhada, de pasta mui branda, como a de muitas louças neo- 
lithicas e da epocha do cobre, mas mais pura e já bastante 
desbastada pelo longo attricto das terras. E para nós mani- 
festo que esse objecto, isolado no entulho, fora introduzido 
com este na sepultura. 

Na camada superficial do terreno que cobria a sepul- 
tura profanada, encontrou-se uma bella herminette de schisto 
inteiramente polida. A presença d^ste objecto nada surpre- 
hende, pela razão, já indicada, de que os artefactos neoli- 
thicos abundam nos terrenos da localidade. 

Figueira, 21 cToutubro de 1895. 

A. dos Santos Rocha. 



10 



MATERIAES PARA A ARCHEOLOGIA 



DO 



DISTRICTO DE VIANNA 



(conclusão) 



Antella da Eireira. — Voltamos a Ancora. A antella 
da Eireira encontra-se no angulo, formado pela intersecção 
da linha de ferro e da linha divisória, que separa as fregue- 
zias de Ancora e de Affife — no vértice do angulo que abre 
para o norte. 

Ficava á beira d'um caminho, hoje cortado pela via 
férrea, e chamado ao caminho do mar.» 

As guardas do lado esquerdo (suppondo que a antella 
estava orientada, como parece provável) acham-se ainda no 
seu logar primitivo e n^ellas existem duas covinhas, eguaes 
ás do dolmen do monte de Santo Antão. As outras pedras, 
parte desappareceram, parte estão completamente deslo- 
cadas. 

As dimensões d'este monumento eram de 2 metros so- 
bre 3 m ,i7 de comprido; profundidade, 2 metros, pouco mais 
ou menos. 

A exeavação nada deu, senão alguns fragmentos de ce- 
râmica, alguma de pasta bastante fina. 

A mamôa está bem conservada. 



NATIXRAES E SOG1AES 



M7 



Antella da chã das Varges. — Fica á beira d 'um ca- 
minho que da egreja de Riba , 4 d'Ancora leva para o logar 
de Villa Verde, e perto da chamada «cruz nova». 

É tradição que existe alli uma grade d'ouro. 

Não falta quem" a tenha procurado e quem espere encon- 
tral-a ainda. Os que desejarem outra cousa, que não seja a 
preciosa grade não teem alli que fazer, porque o interior 
da mamôa, a começar pelas pedras, de que só resta uma, 
foi já mettida a saque por mais duma vez. 

Na excavação encontrou-se apenas um fragmento de 
crystal de rocha, egual a outros que tenho achado na Cita- 
nia e em Sabroso, e a que muita gente do Minho chama 
«pedra do raio » ( 1 ). 

Disseram-me que em Villa Verde, que fica próxima, ha- 
via mais mamôas. 

Debalde as procurei. 

Antella do Maruco das Aguas. — Quem de Gouti- 
nhães seguir o caminho para Moledo, pelo monte, depois de 
deixar á sua direita as ruinas do convento de Bolhente, tem 
de subir uma íngreme ladeira até ganhar o planalto. Exa- 
ctamente onde o planalto começa fica a antella do «Maruco 
das aguas ». 

À mamôa está menos mal conservada; mas dir-se-hia 
que todas as pedras da sepultura desappareceram. A exca- 
vação mostrou que ainda lá estão no seu logar respectivo 
as guardas do lado esquerdo, que não teem mais que um 
metro de altura. O pavimento é rocha natural, aplanada 
grosseiramente, ao que parece, pela mão do homem. 

(*) O nome de «pedra de raio » é daio por muitos povos da Eu- 
ropa ás machadinhas de pedra especialmente ; mas eu ainda não encon- 
trei no Minho, já não digo quem dê ás machadinhas o nome de • pedra 
de raio », mas quem as conheça. Isto não quer dizer que tenha succe- 
dido o mesmo aos outros investigadores. Fallo do que tem succedido a 
mim. » 



I48 REVISTA DE SC1ENCJAS 



Do lado do poente encontra-se tombada uma grande 
lasca, muito bronca, que talvez formasse um dos topos da 
caixa sepulchral. 

Também alli appareceu «uma pedra de raio» (crystal 
de rocha) egual ao da mamôa da chã das Varges; alguns 
fragmentos de louça muito meudos, um d'elles com orna- 
mentação, mas tão insignificante, que não vale a pena des- 
crevel-a. 

O achado mais importante foi o d'uma ponta de lança, 
de silex preto, mas tão grosseiramente afeiçoada, que, se 
não fossem dous cortes na base, muito distinctamente arti- 
ficiaes, poderia ]urar-se e apezar da sua forma, que aquillo 
não passava d'uma lasca natural ( 1 ), 

Um rapaz que pastoreava ovelhas affirmou que, além 
d'esta mamôa, houve nas proximidades mais cinco; que, ha 
tempos, foram destruídas, para com os seus materiaes se- 
rem atulhadas as galgueiras do caminho, abertas pelas en- 
xurradas. 

Antellas do cruzeiro da Portella e proximidades. 
— O cruzeiro da Portella fica no caminho de Riba d^Anco- 
ra a Azevedo e no ponto mais culminante d'elle. Como na 
Portella da Alheira, conta- se aqui uma tragedia, em que 
figuram demandistas; mas d 'esta vez não é um demandista 
mandado assassinar pelo seu contrario; os dous adversários 
enccntr^m-se casualmente e matam-se um ao outro. O cru- 
zeiro, em cuja haste se vêem umas «alminhas» esculptura- 
das na pedra e n'um estylo soífrivelmente correcto, teria li- 
gação cem este facto e alli perto estarão as sepulturas dos 
dous infelizes. Eu não pude descobril-as e não tenho inteira 
certeza se ellas existiram algum dia. 



( d ) Fragmentos de silex, informes, tenho-os eu encontrado em 
algumas antellas, parecendo haverem sido alli lançados intencional- 
mente. A mesma observação tem sido feita n'outros paizes. 



NATURAES E S0C1AES ] /\<) 

Defronte do cruzeiro fica a antella dentro da respectiva 
mamôa. Uma e outra estão menos mal conservadas. As 
suas dimensões são mais pequenas que as das três acima 
mencionadas. 

Não foi explorada por mim; de resto, tem sido volvida 
e revolvida por mais que uma vez, como todas as outras. 

A uns mil passos para nascente, e no caminho que vae 
para Villa Verde, ha outra mamôa inteiramente saqueada. 

Está n'um plano que continua nD nivel da Portella, 
mas já n'uma zona de schisto, que deve prolongar-se até ás 
faldas do monte d\Arga. 

A sepultura está de tal modo despojada de pedras, que 
eu não pude verificar se ella tinha sido construída com 
schisto, se com granito. E' mais provável a primeira hypo- 
these. 

Guimarães, 1882. 

F. Martins Sarmento. 



ESTUDOS DE FLORA LOCAL 



VASCULARES DO PORTO 



Historia das herborisações nos arredores do Porto — Aspecto e natureza 
do solo — Culturas — Vegetação espontânea — Famílias predomi- 
nantes — Regiões botânicas — Plantas marítimas — Plantas salico- 
las — Plantas alpestres— Plantas naturalisadas — Inventario das 
espécies. 

Quando em 1879 ° professor dr. Júlio Henriques, no 
intuito de realisar o mais completamente possível o estudo 
da flora portugueza, fundava em Coimbra a Sociedade Bro- 
teriana, as vegetações locaes do nosso paiz eram apenas 
conhecidas por um limitadíssimo numero de espécies men- 
cionadas nas obras d'alguns clássicos, taes como Grisley, 
Brotero e Link. Mercê, porém, doJnfluxo emanado da nova 
aggremiação scientifica, cujos brilhantes resultados têm exce- 
dido todas as espectativas, as herborisações encetaram-se e 
continuaram-se desde norte a sul com uma tal constância e 
actividade que, decorridos apenas dezeseis annos, quasi se 
pôde julgar hoje como feito o inventario das espécies botâ- 
nicas que se encontram na região continental. Logo em i883 
escrevia o dr. Júlio Henriques no boletim annual da socie- 
dade: «N'estes últimos tempos o estudo da flora portu- 
gueza tem merecido a attenção de crescido numero de in- 



NATURAES E SOCiAES I $ I 



dividuos. As herborisações repetem-se com frequência e algu- 
mas regiões de Portugal poderão ter em breve a sua Flora.» 

A iniciativa do illustre professor, em volta de quem se 
vão reunindo anno a anno todos aquelles que entre nós 
sentem as bellezas de taes estudos — uns dos mais attra- 
hentes, sem duvida, que a natureza nos proporciona — en- 
contra-se, pois, magnificamente coroada e, graças a elia, o 
Porto, onde as herborisações se têm effectuado com toda a 
regularidade n'um raio approximadamente de 3o kilometros, 
pôde hoje catalogar com bastante rigor as suas riquezas 
vegetaes. 

E' longa a serie de trabalhos empregados no estudo da 
flora portuense, a qual não só tem merecido referencias nas 
obras de muitos botânicos mas também tem sido objecto 
de publicações especiaes. Alguns herborisadores não nos le- 
garam, infelizmente, os resultados dos seus valiosos traba- 
lhos e só pela tradição ou por vagas referencias em publi- 
cações periódicas são conhecidos. Entre todos menciona- 
remos : 

Gabriel Grisley, — celebre medico que publicou em 
166 f o Viridarium lusitanium, fechando este livro, como se 
vê pela edição de Vandelli (1798), com um capitulo intitu- 
lado « Flora? portuensis specimen » e no qual menciona 5o 
espécies vegetaes. 

Pitton de Tournefort, — notável botânico francez que 
explorou o nosso paiz em 1689. N\im manuscripto exis- 
tente no hervario da Universidade de Coimbra ( x ) enume- 
ram-se 38 espécies encontradas por elle «Circa civitatem 
Porto ad ostium Durii » e 29 espécies « Ultra San joan de 
Foz ad ostium durii» além de muitas outras «Inter Aveiro 
et Porto» bem como «Inter Porto et Bragam». 

Félix dWvellar Brotero, — grande botânico portu- 
guez, auctor da Flora lusitanica, publicada em 1804, e onde 

(*) l&oletim da Sociedade c Brotertana. VIII, 1890. 



152 REVISTA DE SC1ENC1AS 



menciona 55 espécies de plantas dos arredores do Porto, 
além de outras nas margens do rio Douro. Muitas d'estas 
espécies são raras no paiz, mas todas se têm encontrado 
pelas harborisações feitas nos últimos annos. 

Conde de Hoffmensegg, — que de collaboracão com 
Link — o baixo calumniador de Brotero — encetou em 1809 
a publicação da Flore portugaise, e onde menciona bastan- 
tes espécies dos arredores portuenses. 

Eugénio Smiths — engenheiro director das minas de 
carvão de S. Pedro da Cova. Tem, desde 1 855 realisado 
valiosas explorações no concelho de Vallongo, remettendo 
exemplares para o Hervario da Universidade e para as dis- 
tribuições da Sociedade Broteriana. 

Augusto Luso, — professor do lyceu do Porto. Herbo- 
risou nos arredores da cidade desde 1869 a 1884, entregan- 
do-se, sobretudo, ao estudo das cryptogamicas e de que 
formou collecções as mais completas até ahi em Portugal. 
E' notável a collecção de diatomaceas portuguezas prepa- 
radas pelo illustre naturalista. 

E. Hackel, — notável graminiologista e actual profes- 
sor de S. te Poelten. Herborisou nos arredores do Porto em 
maio de 1876 e d'onde, no seu trabalho sobre as Grami- 
nées du 'Portugal, publicado em 1882, cita 17 gramíneas, 
sendo 4 segundo a Flora de Brotero. 

Gomes da Silva, — medico pela Escola do Porto. Re- 
digiu em 1877 com o estudante da Academia Polytechnica 
Manoel de Albuquerque um manuscripto — Elementa ad 
Floram Portensem, — hoje existente na bibliotheca do her- 
vario da Academia do Porto e onde se mencionam, segundo 
o methodo e denominações de Brotero, 374 espécies vege- 
taes. Em 1881 publicou a Flora medica portuense que refere 
283 espécies. 

Edwin Johnston, — empregado do commercio,que desde 
1876 estuda desvelladamente a flora do Porto. Os resulta- 
dos dos seus consideráveis trabalhos, que têm sido publica- 



NATURAES E S0C1AES 15J 



dos na Revista da Sociedade de instrucção (■1881-1882) e 
nos Annaes de Sciencias Natuvaes (1894-1896) contribuem 
em grande parte para o conhecimento da vegetação vascu- 
lar nas circumvisinhanças da cidade. 

Joaquim Tavares, — empregado no jardim botânico da 
Academia Polythechnica. Executou desde 1881 até 1890 im- 
portantes explorações botânicas em quasi todo o districto 
do Porto, coihendo numerosos exemplaras não só para o 
hervario da Academia mas também para as distribuições 
da Sociedade Broteriana. 

J. A. Araújo e Castro, — medico pela Universidade 
de Coimbra. Fez consideráveis herborisações no concelho 
de Villa Nova de Gaya, colhendo grande numero de plan- 
tas tanto para os hervarios da Universidade e da Academia 
Polytechnica como para as distribuições da Sociedade Bro- 
teriana. 

Alfredo Tait, — negociante do Porto. Herborisou nos 
arredores da cidade. Em 1896 publicou um trabalho de va- 
lor— Notes on the Narcissus of Portugal, onde se refere a 
varias espécies de narcissus espontâneas no districto 

Rev. Richard Murray, — botânico inglez que herbori- 
sou nos arredores do Porto em 1887. No seu artigo Notes 
on the ^Botany of northem Portugal publicado em junho de 
1888 no Journal of Botany fez umas apreciações pouco jus- 
tas da flora do Porto. 

Isaac Newton — negociante do Porto que nestes últi- 
mos annos reuniu uma preciosa collecção de cryptogamicas, 
adquirida ultimamente pelo Hervario da Academia Polyte- 
chnica. 

Além d'estes herborisaram mais ou menos no districto 
do Porto: Alexander Grant (1854-1876) professor de ensino 
livre; barão de Castello de Paiva, lente de botânica na Aca- 
demia Polytechnica; Casimiro Barbosa, official do Jardim 
Botânico do Porto; dr. Júlio Henriques, lente de botânica 
na Universidade de Coimbra; Raul Mesnier, engenheiro; 



154 REVISTA DE SC1ENCIAS 



Francisco Newton, naturalista; dr. Duarte Leite, lente da 
Academia Polytechnica; Adolpho Moller, inspector do Jar- 
dim Botânico da Universidade de Coimbra; Ricardo da Cu- 
nha, naturalista do Hervario na Escola Polytechnica de Lis- 
boa; Manoel Ferreira, empregado no Jardim Botânico da 
Universidade de Coimbra; Oscar iMarinho, alumno da Uni- 
versidade de Coimbra. 



O districto do Porto é, como todos os das nossas pro- 
víncias do norte, extremamente accidentado e montanhoso. 
Desde as costas do oceano, que o limita em todo o com- 
primento segundo a linha norte-sul, o solo eleva-se para o 
interior n'um crescendo pittoresco de relevo e formando 
bacias de numerosos cursos de agua, cujas principaes con- 
fluencias são constituídas pelo rio Ave ao norte, pelo Leça 
ao centro e pelo Douro, a mais considerável destas corren- 
tes, ao sul. O seu ponto culminante excede 1:400 metros de 
altitude e encontra-se na serra do Marão, onde confina com 
a província de Traz-os-Montes. 

Geologicamente a natureza dos terrenos apresenta-se 
bastante variada: granitos, sedimentos paleozóicos, rochas 
porphyricas, formações pleocenicas e alluviões quaternárias 
e actuaes. Os granitos comprehendem uma pequena região 
em volta da cidade do Porto, granitos finos, e uma faxa 
de granito porphyroide que passa no interior e para além 
de Bàlthar na direcção nordeste. Entre elles estende-se uma 
zona de sedimentos paleozóicos, constituída por schistos e 
conglomerados de natureza diversa e offerecendo em con- 
tacto com as rochas ígneas uma serie de rochas metamor- 
phicas em que abundam o gneis, os micaschistos e os de- 
pósitos anthraciferos. E sobretudo notável a formação 
silurica d'esta zona, que se levanta, originando os montes 
de Vallongo, a 376 metros de altitude. Para lá da faxa do 



NATURAES E SOC1AKS [^ 



granito porphyroide apparecem de novo os terrenos schis- 
tosos de que é constituída, essencialmente, a grande serra 
do Marão. As rochas porphyricas encontram- se apenas, sob 
a forma de diorite, intercaladas no meio dos schistos paleo- 
zóicos, e no littoral, desde o Porto até Valbom, existem 
pequenas manchas do systema pleocenico. Emfim as alluviões 
quaternárias e actuaes acham-se mais ou menos represen- 
tadas sobre a costa marítima e nos férteis estuários dos 
rios e dos regatos. 



Sob o ponto de vista da botânica económica o districto 
do Porto é, sem duvida alguma, um dos mais ricos e im- 
portantes do paiz. Habitado por uma população laboriosa 
e intelligente, o seu terreno desentranha-se em mananciaes 
de producção agrícola que constituem a felicidade d'esta 
ubérrima região. 

Nos montes encontram-se commummente os carvalhos, 
o castanheiro, a oliveira e os pinheiros; nos campos culti- 
va-se, sobretudo, o milho, o centeio, o trigo, a aveia, o 
painço, o feijão, o linho e a videira; os prados forraginosos 
ostentam viçosamente as milhas, as poas, o raigraz, a herva 
da semente, os trevos e a serradella; junto das habitações 
estendem-se as hortas de couves, alfaces, abóboras, pepi- 
nos, melancias, melões, tomateiros e cebolas, bem como 
deliciosos pomares de pereiras, macieiras, cerejeiras, pece- 
gueiros, damasqueiros, ameixieiras, nespereiras, laranjeiras, 
nogueiras e muitas outras espécies fructiferas. 

A cultura da vinha, porém, que é importantíssima tanto 
pela sua extensão como pela sua intensidade, apresenta-se 
naturalmente dividida n'um certo numero de pequenas re- 
giões vinícolas e entre as quaes se destaca a comprehen- 
dida pelos terrenos graníticos de Amarante. 



I56 REVISTA DE SC1ENC1AS 



Opulenta e variada como poucas, a flora espontânea do 
Porto é formada na sua quasi totalidade por vegetaes indí- 
genas; as plantas exóticas naturalisadas limiiam-se a um 
pequeno numero de espécies, em geral hervaceas. No con- 
juncto de toda esta vegetação vascular apparecem como fa- 
mílias predominantes as asteraceas, as phaseolaceas, as 
poaceas e as dianthaceas; encontram-se, porém, magnifica- 
mente representadas as lamiaceas, as brassicaceas, as cy- 
peraceas, as scrophulariaceas e as apiaceas. A falta de 
pântanos extensos determina a característica pobreza das 
espécies aquáticas. 

Comquanto o districto do Porto não possa ser topogra- 
phicamente dividido n^um certo numero de regiões botâ- 
nicas, caracterisadas por uma vegetação particular e pró- 
pria, é certo que as variações da flora correlativas com a 
modabilidade de condições meseologicas, taes como altitude, 
natureza e humidade do terreno, exposição, proximidade do 
oceano, etc, chegam por vezes a alcançar aspectos typicos 
e especiaes. E' assim que as vegetações dos valles, das 
costas e dos logares alpestres se apresentam, como não po- 
dia deixar de ser, dotadas de formas privativas que lhes 
imprimem um accentuado cunho de florulas independentes. 

A vegetação dos areaes marítimos, que a este se es- 
tendem de norte a sul n'uma orla quasi continua, é indubi- 
tavelmente uma das mais características e constantes. En- 
tre as suas espécies particulares encontram-se commummente 
as Silene littorea, Linaria supina, Glaucium luteum, Malcol- 
mia littorea, Arenaria marina, Trifolium fragiferum, An- 
thyllis vulneraria, Medicago marina, ErodiumJacquinia- 
num, Convolvulus soldanella, Crucianella marítima, Heli - 
chrysum serotinum, Diotis marítima, Artemísia crithmifolia, 
Polygonum maritimum, Salix repens, Euphorbia Paralias, 
Euphorbia Peplis, Romulea Clusi, Pancratium maritimum f 
Juncus acutus, Carex arenaria, Agropyrumjunceum e Psam- 
ma arenaria. Menos frequentemente, porém, encontram-se 



NATURAES E SOCIAES 1^7 



ainda como plantas privativas do extremo littoral as Silene 
nicaensis, fíoncheneja peploides, Ononis serrala, Armeria 
marítima. Armeria Langeana, Armeria pubigera, Armeria 
plantaginea, Armeria latifolia e Orlaya marítima. Muitas 
outras espécies, taes como as Anagallis Monelli, Sedum 
acre, Tribulus terresíris, Centáurea calcitrapa, Erythraea 
chloodes e Eryngium maritimum, comquanto sejam mais 
abundantes na orla arenosa da costa, deparam-se, também, 
pelos terrenos do interior. 

Nas antigas e abandonadas marinhas da foz do Leça 
encontram-se ainda os restos d'uma exuberante flora sali- 
cola representada actualmente pelas Triglochin palustre, 
Triglochin bulbosa, Saliccmia herbácea e Glaux marítima. 
Esta ultima caminha, talvez, para a desapparição, pois ve- 
getando n'um meio que se lhe tem tornado impróprio apre- 
senta já a forma typica um pouco alterada e circumscre- 
ve-se a uma pequena área de;\approximadamente, quarenta 
e nove metros quadrados. 

Das plantas alpestres apparece só um limitado numero 
de formas no extremo do districto. sobre o vértice elevado 
do iMarao. Entre ellas contam-se as Sisymbrium pinnatifi- 
dum, Arenaria capita ta, Silene melandroides, Scleranthus 
perennis e Nardus stricta. 

As espécies exóticas para a flora portugueza e natura- 
lisadas nos arredores do Porto são as Senebiera didyma, 
Robinia pseudo-acacia, Oxalis cernua, Oxalis purpúrea, 
Oxalis Mar liana, CEnothera biennis, Vittadinia iriloba, Eri- 
geron canadensis, Saliva 'Etarclayana, Xanthium spiuosum, 
'Borrago officinalis, Solanum pseudo- capsicum, Solanum so- 
domeum, Ttatura stramonium, Datura Tatula, Linaria cym- 
balaria, Phytolacca decandra, Hydrocotyle Bonnariensis 
Chenopodium ambrosioidcs, Cyperus vegetus, Phalaris cana- 
riensis e Digitaria paspaloides. 

Auxiliado não só pelas minhas herborisações mas tam- 
bém pelos trabalhos de outros herborisadores consegui or- 



I58 REVISTA DE SCIENCIAS 



ganisar o inventario que segue das vasculares espontâneas 
ou mais intensamente cultivadas no Porto. Algumas espé- 
cies citadas em anteriores publicações são aqui supprimidas, 
visto que estudando cuidadosamente as localidades adscri- 
ptas para ellas pude convencer-me dos equivocos havidos 
com formas mais ou menos afins. 

E ao terminar estas breves considerações seja-me per- 
mittido manifestar a minha sincera gratidão aos ex. m08 snrs. 
dr. Manoel Amândio Gonçalves, lente de botânica na Aca- 
demia Polytechnica do Porto, dr. Júlio Henriques, lente de 
botânica na Universidade de Coimbra e dr. Joaquim de 
Mariz, naturalista adjunto ao Hervario da mesma Univer- 
sidade. A todos agradeço reconhecido os valiosos auxílios 
que tão cavalheirosamente me têm prestado para a realisa- 
ção d^ste pequeno trabalho. 

{Continua). 

Gonçalo Sampaio. 



B1BLI0GRAPHIA 



António dos Santos Rocha. — Antiguidades prehistoricas 

DO CONCELHO DA FlGUElRA, m parte, 4. , 91 pags. e vm ésts. Coimbra, 
l8 9 5. 

Está publicada a terceira parte da vasta monographia que, acerca 
das antiguidades prehistoricas do concelho da Figueira, vem occupando, 
ha annos, o nosso queridíssimo amigo, prestimoso collaborador e de- 
votado archeologo, dr. António dos Santos Rocha. Peias referencias 
exaradas n'esta Revista a propósito dos dois primeiros fascículos e pelos 
escriptos n'ella publicados, avaliará, quem desconhecer a obra, a im- 
portância que assume uma ininterrupta dedicação ao estudo da paleo- 
ethnologia n'uma já vasta região da^ bacia do Mondego. A consagração 
d'um esforço raro, o dispêndio avultado que as explorações traduzem 
e o desvelo com que o dr. Santos Rocha recolhe, inquire e procura 
interpretar o rico mobiliário já obtido, constitue. tudo isso. um assigna- 
lavel episodio na iam precária historia da iniciativa scientifica nacional. 

Não basta registrar, quando estrictamente a dentro do objectivo 
scientifico, o mérito das suas descobertas, o alcance d'cstas no inven- 
tario dos despojos legados e o valor das acquisições para o conheci- 
mento das populações cVout^ora; é necessário que, de longe em longe, 
se accuse. em nítido relevo, o que emprehendimentos d'estes significam 
como sacrifício, generosidade, devoção mesmo, sem outra compensação 
— que as não dá semelhante espécie de iniciativas — do que a sympa- 
thia acolhedora e amiga do numero, deveras restricto, de interessados. 

Em toda a ordem de investigações realisadas com os subsídios do 
estado, um permanente queixume da exiguidade de recursos é, desde 
sempre, a nota plangente e resignada que opportunamente surge. Cer- 
tifique-se cada um, pois, da energia verdadeiramente intrépida com que 
este homem dispende centenas de libras e occupa, n'uma locubração 
insistente e apaixonada, os seus vagares e o seu repouso; abra-se um 
parenthesis na convencional seccura com que se commenta uma obra, 
para exemplo, ou, sequer, para contrastes! Não fica mal nem desaucto- 
risa a sciencia o elogio legitimo e devido a uma elevada e persistente 
intenção e ainda a um singular desprendimento — pensem n'isto ! — por 
uma registrável quota dos próprios haveres ! 

O fascículo actual comporta a descripção de investigações prose- 
guidas em estações já uma vez exploradas e em outras até agora iné- 
ditas. Conforme as palavras do próprio auctor, a área dos vestígios da 
edade da pedra no território da Figueira augmenta consideravelmente, 
pois não só se estende ao norte do Mondego, das proximidades de Bre- 



IÓO REVISTA DE SC1ENC1AS 



nha, para leste, alé aos limites orientaes de Alhadas, para oeste, até ao 
Cabo Mondego, e, para o sul, até ao rio, cidade da Figueira incluida, 
mas ainda da outra banda do Mondego apparecem documentos demons- 
trativos da existência do homem neolithico. A primeira parte da mono- 
graphia occupa-se da descripção das estações e dos objectos n'ellas en- 
contrados, e, bem assim, d'aquelles que surgiram avulsos pela região 
indicada. Ioda a documentação é descripta pormenorisadamente. Se- 
guem-se-lhe as considerações ethnographicas nas quaes o auctor inter- 
preta todo o material recolhido com uma minuciosa individuação, de- 
duzindo, por fim, do seu largo inquérito, a existência de duas epochas 
— a chelleana e a neolilhica. Esta ultima é a parte que se presta á 
controvérsia num ou n'outro facto de detalhe ; em globo, porém, e 
como nos fasciculos precedentes, avulta pelo cuidado, meditação e sin- 
ceridade com que o illustre archeologo trata a face de maior destaque 
no assumpto. 

R. P. 



J. F. Nery Delgado — Note sur l'existence d'anciens gla- 

C1ERS DANS LA VALLEE DU MONDEGO. 8.°, 28 pags>. n ests. Lisbonr;e, 
i8 9 5. 

É sempre com um vivo prazer que se lêem os trabalhos do snr. 
Delgado. Por mais duma vez accentuei n'este logar as suas notáveis 
qualidades indagadoras, a prudência discreta das suas interpretações e 
a precisão verdadeiramente didáctica com que sabe expor os assumptos 
que estuda. Successivamente os seus livros confirmam as faculdades as- 
signaladas; mas se assim não fora, o que aqui esta presente justificaria 
a sua physionomia scíentifica, de resto e d'est'arte assente pelos admi- 
radores do illustre director dos trabalhos geológicos do reino 

O titulo da memoria indica, desde logo, que o snr. Delgado reata 
os estudos sobre o glaciario em Portugal, interrompidos desde o pas- 
samento de Frederico de Vasccncellos, que, dentro do interessante ca- 
pitulo geológico, se occupou notavelmente da acção das geleiras na 
serra da Estrella. Ao snr. Delgado não haviam escapado factos relativos 
ao phenomeno entre nós; e o seu mutismo, a tal respeito, explica-o 
pelo desejo muito elogiavel de deixar proscguir Vasconcellos nas in- 
dagações encetadas com o successo que se viu. Agora, porém, e como 
visitasse de novo certa região do valle do Mondego, completou e proce- 
deu a outras investigações, sendo estas, pois, o motivo da publicação 
que nos occupa. 

Memoria curta, postoque eminentemente educativa, não nos cum- 
pre resumil-a aqui ; seria necessário, para não lhe empalhdecer o mé- 
rito, reedital-a. Fixam-se apenas as conclusões e procurem os interes- 
sados lêi-a. 

No valle do Ceira deu-se uma grande extensão glaciaria, cujos 
vestigios estão no deposito morenico das cercanias de Arganil e de Góes 
e ainda nos numerosos blocos erráticos de quartzite, polidos e estriados. 
Succedeu-lhe um período chuvoso e temperado em que se formaram 
grandes torrentes, as quaes, transportando os blocos de quartzite, apa- 
garam, em muitas, os vestigios glaciados. Mas nova invasão surge, me- 
nos extensa, decerto, que carreia os blocos da morena frontal erguen- 



NATURAES E S0C1AES l6l 



do os a pontos mais elevados do que os primitivos. Até que, sob um 
clima quente, desapparecem os gelos e formam-se grandes correntes de 
denudação ; ora são estas que cavam os valles dando ao solo a actual 
configuração. 

R P. 



Paul Choffat. — Note sur les tufs de Condeixa et la dé- 

COUVERTE DE l'hYPPOPOTAME EN PORTUGAL. 8..°. 12 pagsr. 1 est. 
Lisbonne, 1895. 

Estudando os tufos de Condeixa, cujo jazigo mais assignalavel se 
estende de Sernache até ao rio de Mouros, a sul de Condeixa-a-Ve!ha, 
o snr. Paulo Choffat recolheu, com outros restos orgânicos, vários des- 
pojos de Hyppopotamus major, dos quaes destacaremos aqui uma ma- 
xilla inferior incompleta, um molar, um canino, um incisivo e um fra- 
gmento de vértebra. E' a primeira vez que se encontram em Portugal 
vestigios d'esta espécie ; na península a descoberta do género assigna- 
lára-se, em 1892, com alguns fragmentos de dentes obtidos perto de Bar- 
cellona. Uma excellente phototypia encerra a noticia do snr. Choffat. 

R. P. 



Rocha Peixoto. — Productos agrícolas das colónias por- 
tuguezas. (bibliotheca do Portugal cAgricola). In. 12, 

i58 pags. Lisboa, i8y5. 

Não basta declamar-se em arrancos patrióticos dilatadas coisas 
sobre «o solo ubérrimo das nossas terras d'Africa, o torrão feracis- 
simo d'essas dilatadas paragens, o inexhaurivel património legado» 
phrases consagradas pelo conselheirismo pomposo á nossa questão 
colonial, ironicamente citadas pelo auetor do livro que noticiamos. 

Não basta architectar balofos discursos, altisonantes mesmo, de 
belleza litteraria de todo o ponto discutível. 

Urge saber-se a composição d'esse solo, as aptidões desse torrão, 
as riquezas que podem arrancar-se d'esse património instituido pelo 
esforçoso embate da espada dos nossos maiores, mas que precisa agora 
— já de ha muito! — do não menos esforçoso embate da nossa enxada. 

Mas para pegar com proveito do civilisador instrumento de cul- 
tura não se necessita apenas de força, principalmente torna- se exigível 
tino e um certo numero de conhecimentos 

Vulgarisal-os é obra toda de patriotismo pratico. 

E' isto que fez com este seu livro o professor A. A. da Rocha 
Peixoto, que logra tornar assumptos por sua natureza áridos, de leitura 
interessante sobre instruetiva, é claro, e mais ainda suggestíva. 

Referindo-se aos productos alimentares, estimulantes, especiarias 
e aromatos; aos productos medicinaes, textis, tinturiaes; ás gommas e 
resinas; aos óleos vegetaes, o auetor tem para cada substancia a nota 
histórica e anedoctica, a noção cultural, os números estatísticos, a 

ti 



IÓ2 REVISTA DE SC1ENC1AS 



indicação commercial de actualidade e a previsão da prosoeridade que 
pôde vir se se lhe applicar attenção, intelligencia, esiorço e capital 
como teem feito, na sua orientação pratica toda talhada em factos e 
em números, os nossos companheiros coloniaes : os inglezes e os hol- 
landezes. 

Na índia, por exemplo, n'essa índia, cuja invocação, apesar de 
tantos séculos passados sobre os tempos áureos, ainda nos visiona 
preamares de oiro — visão fallaz, como todas as visões! — n'essa índia 
quasi abandonada pela metrópole á completa inaptidão dos naturaes, 
que dão advogados estéreis mas nunca homens úteis na moderna e 
exacta accepção da palavra, n'essa índia, dizia, os inglezes nossos 
visinhos, teem plantado cerca de 200:000 hectares de coqueiro; e nós, 
dispondo de terrenos e clima eguaes, podendo ter os mesmos ou outros 
mercados para os seus productos, votamos á grande riqueza o maior 
dos abandonos! 

Como este exemplo encontram-se muitos mais no livro cujo 
apparecimento venho noticiando tão gostosamente. 

Também se apresentam doutro género e estes bem demonstra- 
tivos da inacção da mãe pátria. 

Um ao acaso: «Para apontar no registro dos desperdícios portu- 
guezes é ainda esse de termos um producto (o cacao) que constitue, 
n'uma província colonial, (S. Thomé) a sua segunda fonte de receita 
e prosperidade, sem que, industrialmente, o utilisemos na metrópole. 

«Dá-se este facto bem singular, mas entre nós nada anormal, de 
coilocarmos nos mercados europeus centenares de toneladas de cacao, 
a matéria prima do chocolate, e não termos fabricas, uma grande 
fabrica sequer, que se oceupe d'essa industria. O chocolate que no 
paiz se consome, ou vem de Hespanha, ou vem de França, não con- 
tando os modestos indus*riaes d'ahi que o fabricam impunemente com 
ervilha ou milho, batata ou tijolo moído ! 

«E* o caso que me asseguravam ha dias de certa madeira da Africa 
portugueza, que vae de lá á Hollanda, onde pouco depois a mandamos 
comprar do continente. A Suissa, que não tem colónias, fabrica o deli- 
cioso chocolate que, com certeza, todos já temos provado ; outros paizes 
utilisam a semente da malvacea produetora, tal qual se encontra nas 
colónias que possuem, as quaes, quando são as Filippinas. Borneo, Java 
e Reunião, exportam um artigo medíocre, subalterno. Excellente, o 
nosso; mas a actividade e a iniciativa nacionaes ainda não cuidaram de 
crear aqui a industria, para nós e para os mercados extrangeiros.» 

E basta de exemplos tristes. N'este mesmo capitulo do cacao, vê-se 
o grandíssimo incremento da agricultura e do commercio em S. Thomé, 
graças á racional exploração d'esse producto e mais do café, que tam- 
bém vae em augmentos no archipelago de Cabo-Verde e em Angola. 



Da ^Agricultura Contemporânea^ n.° 8, tom. vi, Lisboa, i8q5. 

D. Luiz de Castro, 



NOTICIAS 



OSTREICULTURA 



N'uma publicação local (*) depara-se-nos a noticia da conferencia 
que realisou em Aveiro o distincto naturalista e conservador da Secção 
Zoológica do Museu de Lisboa, nosso amigo e illustre collaborador 
d'esta Revista, snr. Albert Girard. Porque é summaria, avultando, no 
emtanto, com relevo, os tópicos fundamentaes do assumpto, aqui trans- 
crevemos o resumo da lição de 3 de março corrente, na parte que par- 
ticularmente diz respeito á industria ostreicola na ria de Aveiro. 

« Em seguida occupa-se da ostreicultura. Julgava a bacia hy.lro- 
graphica de Aveiro muito mais salgada do que é, e, infelizmente, só 
n'uma parte d'ella se pôde explorar esta industria. N'uma área onde o 
grau de salsugem seja de ioi5 a 1018 para cima e só n'estas condições 
se deve escolher o local para ostreiras. Na superfície occupada pelo ca- 
nal de S. Jacintho, ilha da Gaivota, parte do canal do Espinheiro, Duas- 
Aguas, motas do canal até á Costa Nova, é que o grau de salsugem 
pôde permittir a cultura de ostras, approximadamente a área do bre- 
bigão. 

Descreve minuciosamente os caracteres da ostra portugueza, O. 
angulata e da franceza, O. edulis ; a divergência da forma geral, das 
valvas, da cor, da reproducção, que existe entre uma e outra. Torna-se 
impossivel a reproducção nos bancos naturaes, pois que as apanham 
completamente, sendo de muita necessidade deixar em socego os loções 
onde se suppõe que possam existir esses bancos. 

Para a fixação de embryões aconselha a telha ou collectores usa- 
dos na bacia de Arcachon, que são, revestidos de um inducto formado 
de cal hydraulica e de areia fina. É este o meio próprio para a nossa 
ria. Cita uma maneira de collocação de collectores na Bretanha A ex- 
tracção das ostras é feita dos dez para os doze mezes para as caixas os- 
treiophilas; menciona a forma de as installar e suas utilidades, e, final- 
mente, na edade de dezoito mezes a dois annos, a sua collocação nos 
tanques ou viveiros. Indica os meios empregados na educação e engorda 
e os requisitos para a venda no estrangeiro. 

A temperatura das aguas portuguezas favorece muitíssimo o cres- 
cimento da ostra; mostra uma O. edulis que, pelo seu tamanho, não 

(1) l^evhia Florestal, pags. 46-48, n.° 3, vo!. II. Aveiro, 1896. 



- 



ó 4 



REVISTA DE SC1ENC1AS 



se encontrará outra em França. Será grande o rendimento que a ostrei- 
cultura pôde dar em Aveiro, onde ha as duas espécies e considera-a 
uma industria assaz remuneradora para esta região.» 

Não poderia, decerto, o illustre malacologista encontrar locali- 
dade onde a lição da sua experiência e do seu estudo mais necessária e 
appetejida fosse pelo grupo de homens que, ha annos, vêem clamando 
a propósito da ruina a que o desdém dos governos e a incúria das po- 
pulações tem lançado o vasto delta do Vouga. Um dos factos sempre 
enunciados ao descrever-se as depradaçóes progressivas da notável es- 
tancia marítima é precisamente o desapparecimento das ostreiras. Na- 
turalmente explicada pelas mesmai causas que motivaram o depaupe- 
ramento do estuário, é este facto, todavia, o de mais destaque, não por- 
que os bancos de ostras constituíssem uma principal riqueza local mas 
pela extincção quasi rasa d'aquelle marisco. Em 1888 ainda o snr. Fon- 
seca Regalia affirmava que a ostra apparecia em pequeníssima quantidade 
no fundo duma ou d'outra calla ( 1 ). Contando, porém, com um anniqui- 
lamento definitivo, mercê da exploração immoderada, das redes varre- 
douras e da colheita do moliço nas epochas de reproducção, não dei- 
xava de abrir um especial capitulo para a exploração ostreicola no 
Projecto de lei que deveria regulamentar o exercicio da pesca em 
Aveiro ( 2 ). 

Poucos annos depois, ao visitar detidamente essa estancia maríti- 
ma que deveria ser uma exhuberante fonte de riqueza nacional, averi- 
guava, e era certificado a quem isto escreve, a ausência do mollusco nos 
mercados, pois meia dúzia de exemplares, obtidos de acaso e raramente, 
traduziam, com os milhões de valvas dispersas, principalmente, em parte 
do braço de Mira, a representação do mollusco nas aguas de Aveiro. A 
cidade chegou a importar, poucas, decerto, mas algumas ostras. Conta 
o snr. Edmundo Machado que apenas varias dezenas de dúzias. E ac- 
crescenta : « n'este ponto a cidade tem o bom senso de não sacrificar de 
mais a um elemento de luxo, embora por elle tribute, de longa data, 
particular estima. Inclinamo-nos mesmo a suppôr que a recordação dos 
magníficos productos d'este género que d'antes possuia, a faz repudiar 
esses miseráveis espécimens que o commercio lhe traz hoje de fora. 
Porque é então que Aveiro não volta a esses gloriosos tempos se é mais 
do que certo haver na ria amplos e excellentes locaes para a explora- 
ção do precioso mollusco? ( 3 )» 

Para não reeditar o que instantemente se ha escripto e reclamado 
a favor da repovoação das antigas obreiras de Aveiro bastará affirmar 
mais uma vez que o famoso estuário occupa um primacial logar na se- 
rie dos locaes em que a ostreicultura deveria ter assumido um vasto 
desenvolvimento — ainda que restricto pareça a estranhos a área indi- 
cada devidamente pelo snr. Girard — e que, todavia, como no Algarve, 
como no Sado, no Tejo, em Óbidos e outras regiões, não alcançou fo- 
ros, sequer, de industria já promettedora. O illustre naturalista, cuja 
conferencia origina as rápidas notas para aqui lançadas, manifestara, ha 

(1) A ria de Aveiro e os suas industrias, pags. 35-36. Lisboa, 1888. 

(2, Id. id., pags. 85-86. 

(3) Assumptos locaes, annexo aos Documentos relativos ao estabelecimento d'uma es- 
tação central de caminho de ferro e mercado municipal em Aveiro, pag. 70. Aveiro, 1891; 
encontram-se ainda os dois capítulos do annexo referido nos números 4009 e 4oiO do 
Campeão das Provindas, de Aveiro, respectivamente de 27 de junho e I de julho de 1891. 



NATÚRAES E SOCIÁE^ l6$ 



uns quatro annos, o seu espanto por a ostreicultura se ter limitado a 
uma tentativa nas aguas do Tejo (*). No mesmo anno accusava eu com 
magoa os despovoamentos que observara em Óbidos, Figueira e Avei- 
ro ( 2 ), como antes me impressionara o descenso a 8oo$ooo réis, em 
1887, da exportação de ostras nossas, quando, nove annos antes, ella 
attingira uma verba de 47:000^000 réis ( 3 ). E a admiração subiria de 
ponto, se não estivéssemos habituados, ao attender-se na inutilidade da 
lei de i5 de dezembro de 1868, onde é certo que, detalhando-se mais 
ou menos alguns preceitos « apenas havia esquecido ao bom homem da 
lei a creação d'um parque modelo para educação e exemplo ( 4 > ).» 

Convém assignalar, porém, o platonismo da nossa legislação, sem- 
pre desajudada de meios práticos e viáveis, já proverbialmente care- 
cida de impulsos que não sejam relatórios mediocres e mesmo bons, e 
regulamentos extensos, minuciosamente pormenorisados, sem pessoal, 
comtudo, que os faça respeitar, ou, o que é peior, não tendo ensejos 
para applicação, E' licito suppôr um tal destino para o recente regula- 
mento das ostreiras, sem levar em linha de conta, evidentemente, um 
ou outro caso isolado, a que poderemos chamar mesmo um virtuosismo, 
dictado por desenfado, por curiosidade ou por legitima ambição de lu- 
cro, mas não exprimindo o inicio d'uma ampla generalisação da os- 
treicultura, graças apenas a uma lei e a um museu de pescas abrigado 
n'uma sala devoluta de repartição, em Lisboa. 

Emquanto os governos não estenderem a sua, para este povo, in- 
dispensável funcção tutelar ao estabelecimento da ostreiculiura no paiz, 
adoptando outros meios que não sejam apenas os decretos no Diário, 1 a 
industria ostreicola limitar- se-ha, certamente, a uma esperança. E já não 
é mau que, de longe em longe, e em vez de esperança só, ella seja thema 
de estudos e conferencias como a que o distinctissimo naturalista da 
Escola Polytechnica realisou em Aveiro, com um applauso tão unanime 
como justificado. 

Emtanto, repito o que escrevi e citei já, n'uma intenção de pro- 
paganda ( 5 ) : 

« Um naturalista hespanhol, narrando esse desastre, (ostreiras da 
Galliza) aconselhava, além de varias medidas policiaes e administrati- 
vas, a creação de parques- modelos do governo : uns de ostras-mães para 
fornecerem os productores, outros destinados a recolherem a desova 
em apparelhos especiaes afim de ser cedida mais tarde aos creadores, 
outros, ainda, verdadeiras ostreiras de commercio, sustentadas pelo es- 
tado, e exemplo patente, espécie de escola, para a educação industrial. 
Reformar bancos extinctos ou empobrecidos e crear novos, eis o pro- 
blema, lá e cá ; resta que seja possivel e viável, por parte do governo, 
a instituição d'esses viveiros e esperar — quem tem esperança — que o 
publico com elles aproveite.» 

R. P. 



(1) Noticia sobre alguns tnolluscos e peixes do Algarve, in Inquérito industrial de 
1889, pag. 38i. Lisboa, 1892. 

( 2 ) Estações de Aquicultura, pag. 4. Lisboa, 1892. 

( s ) Orisanisação do serviço de pescas, in 'Boletim da Sociedade de Geographia d€ 
Lisboa, pag. 81-82, da 8. a serie. Lisboa, 1888-89. 

( 4 ) Museus regionaes, in T(evista d: "Portugal, pag. l85, n.° 14, vol. III. Furtei, 
1890. 

( 5 ) As ostras, in Primeiro de Janeiro, do Porto, de 12 de outubro de 1893. 



66 REVISTA DE SC1ÊNC1AS 



A PESCA A VAPOR 



Accentuam-se os clamores das populações littoraes reclamando 
instantemente uma acção enérgica e decisivamente impeditiva para a 
pesca a vapor. Ha annos que a introducção dos arrastões originou entre 
nós as discórdias em que, n'outros paizes e muito antes já, se envolve- 
ram as povoações costeiras e as parcerias organisadas para a piscica- 
ptura ao írazvl ou chalut. Mas dia a dia os protestos crescentes e dicta- 
dos pelas corporações maritimas mais importantes em numero e activi- 
dade, avolumam uma disputa em que a pretendida justificação dos donos 
de reboques para pesca se exhibe notavelmente indouta e frouxa. 

A insistência das reclamações deu de si, sequer, uma consulta do 
governo á Commissão de Pescarias; e das deliberações d'esta corpora- 
ção technica procede um relatório que, pela forma geral como pela re- 
edição de palavras anteriormente escriptas, marca a personalidade do 
relator. As affirmações já conhecidas desde 1891 ou 92 são as contidas 
no livro do snr. Baldaque da Silva, vogal d'essa instituição e bem assim 
da Commissão de Piscicultura. D'ellas deriva uma opinião, partilhada 
sem duvida n'aquelle especial departamento do Ministério da marinha, 
a que cumpre alludir não só pelo vigor convencido que a dieta, mas 
porque, reproduzindo asserções de ha quatro annos, mais nitidamente 
as confirma. 

Infere-se do documento que as embarcações a vapor arrastando 
pelos fundos, e com grande velocidude, redes fortes e pesadas, destroem 
abrigos, comedouros e viveiros e a sua acção tanto mais se prefigura 
damnosa quanto é facto averiguado a dragagem, pelo apparelho, de 
grandes pedras, madeiras e mesmo ancoras. Assim nociva na sua acção 
revolvente e destruidora, os bancos de pescarias deverão, naturalmente, 
experimentar os effeitos que, lento e lento, se traduzirão por uma crise 
progressiva do pescado. 

Esta parte do parecer corroboram-na todas as povoações do litto- 
ral com este facto tão authentico como legitimamente promotor de in- 
quietas apprehensóes: a obtenção de peixe reduz-se mais e mais. e tal 
desproporção de colheitas manifesta-se parallelamente ao uso intensivo 
do arrastão. Não se trata, por accidentes inaveriguados e indescriptos 
ou por quaesquer agentes naturaes escapados á observação dos mariti- 
mos e dos technicos, da emigração ou desapparecimento de tal espécie: 
consigna-se a ausência de muitas, da máxima parte que, em melhores 
tempos, pejavam os engenhos modestos e, a Wm dizer, inoffensivos dos 
pescadores da costa. 

O caso, que não passa inadvertidamente, nem mesmo ao espirito 
dos estranhos ao assumpto, é muito bem desenvolvido e apreciado no 
eloquente zAppello á imprensa que o jornal d'um importante centro de 
pesca (Povoa de Varzim) destribuiu profusamente. Extractados vários 
trechos do parecer da Commissão de Pescarias publicado no c Diario do 
Governo e traslada dos alguns dos informes e asserções de estrangeiros 
que o snr. Baldaque traduziu no seu livro, as palavras do manifesto ata- 
cam a pesca pelo arrastão com decidido ardor e formulam esta pergunta, 
no momento, pelo menos, judiciosa e auetorisada : «Será legitimo ver 



NATURAFS E SOCIAÈS 167 



na approximação dos dois factores — escassez crescente de peixe c em- 
prego dos vapores de arrasto— uma mera coincidência, que não uma 
provada relação de causalidade ? » 

Ora tal pergunta é a mesma que, sob modos diversos, formulam 
egualmente outras corporações piscatórias do paiz, pois que em todo 
elle faltam não uma determinada espécie mas muitas das obtidas ou- 
trora. E ainda, como resultado nefasto d'uma exploração intensiva c 
justamente alarmante para os pescadores, o certo é, e verificar se pode, 
que a emigração alastra excepcionalmente em localidades marítimas 
onde o contingente, até ha pouco, era em demasia restricto. 

Emtanto, as parcerias defendem-se, n'um prudente anonymato, de 
modo tam descompassadamente ousado como inconsistente. Existe im- 
presso, sem titulo, sem data e sem assignatura, um documento em que 
se representa ao monarcha contra as medidas pelas quaes se impede o 
exercício da pesca a vapor durante a noite, e ainda, conforme as mes- 
mas, se collocam os capitães das parcerias ma contingência d'uma ca- 
prichosa e interesseira declaração dos pescadores.» A representação ori- 
ginou-se, decerto, no regulamento datado de 21 de julho de 1891. em- 
bora a papel anonymo seja d'uma escassez de referencias e d'uma abs- 
tenção de nomes verdadeiramente impressionante. Mas por isso mesmo 
se integra, como poucos, n'aquella cathegoria de papeis sem rubrica. 
Ha affirmações inverosimílmente cynicas, como aquella em que diz. 
desdenhosa e d'alto, que o regulamento da pesca a vapor «é a mera 
protecção aos interesses do pescador de batel». Surgem outras desmar- 
cadamente estúpidas, por exemplo, ao assignalar-se que certos pes- 
cadores só «sabem dizer que são poveiros e aqui synthetisam a sua na- 
cionalidade.» 

O documento illefado e singular que assim argumenta em defeza 
d'uma causa estreitamente egoísta affirma que os melhoramentos pro- 
cedentes da industria da pesca a vapor trariam, como consequência, 
uma reducção de metade do pessoal, o que era — está-se vendo — uma 
grande vantagem para a outra metade ; pretende, com os arrastões, esta 
coisa phantastica : aperfeiçoar os produetos; e informa, com este assom- 
broso facto inédito, que a propagação do peixe é infinita ! 

Se não fosse apenas a necessidade de esclarecer o publico, um do- 
cumento d'estes não demoveria alguém em aprecial-o ; o registro faz-se 
para elucidação de estranhos sobre os processos pouco escrupulosos, 
em semelhante matéria, com que se pretende justificar tal industria, mes- 
mo na hypothese d'ella ser defensável, inoffensiva e até benéfica. Ora 
mesmo com a insensatez que se viu. e a propósito das deliberações de 
uma commissão official muito competente, o documento permitte-se pôr 
cm duvida .a seiencia que em Portugal se professa». 

A seiencia de toda a parte assentou, sem amplas e desnecessárias 
locubrações, que é forçoso poupar os logares onde existem espécies do- 
miciliadas ou, sequer, permittir que attinjam uma determinada estatura, 
interrompendo-se a pesca em dadas epochas do anno pelo mesmo mo- 
tivo qi e explica a prohibição da caça. A seiencia marca ainda, para 
cada grande região, linhas- limites intransponíveis, estabelecendo por- 
tanto zonas que o arrastão, na sua marcha sempre devastadora, não 
deve violar. 

De outra banda existem já, em museus, exemplares de creação 
colhidos pelo arrasto, o que confirma as declarações dos pescadores e 



l68 REVISTA DE SC1ENC1AS 



de todos os que teem presenceado o damno; e então a experiência das 
infracções, a principio impunes, determinou a fiscalisação em outros 
paizes, por via de navios de guerra que tanto podem inutilisar um re- 
boque á bala como depois metterem as parcerias na cadeia. Aquelle pit- 
toresco documento anonymo, de que fallei vexado, sabe d'isto e allude 
mesmo ás ioo canhoneiras que a Inglaterra traz em serviço de policia 
na costa. 

Nas recentes deliberações da Commissão de Pescarias, sob pro- 
posta do snr. Girard, exara-se a necessidade d'um navio de guerra que 
fiscalise rigorosamente o littoral. E certo é que ainda a tolerância para 
com os arrastões não alcança o applauso d'uma vastíssima classe de- 
pauperada em interesses legítimos, tradiccionalmente adquiridos. A 
fiscalisação, como se impõe, não se fará certamente. E está-se a vér, 
sem meditadas cogitações e dada a crescente onda de descontentamento, 
progressivamente alastrante e vehemente. o que será este assumpto das 
pescarias em breve tempo: depradação barbara dos fundos piscosos, 
mercê de processos de captura verdadeiramente assoladores, aceresci- 
dos ainda com a impunidade das transgressões em face do platonismo 
das leis. O paiz então — e não só os interesseiros pescadores de batel — 
terá mais essa com que se aguentar. 

R. P. 



A Revista tem [recebido as seguintes publicações, 
dalgumas das quaes se occupará na sua secção biblio- 
graphica : 

Philippe Salmon. — Dénombrement et types des crànes néolithiques de le 
Gaule, 4 °, 76 pags., var. figs. e 1 map Paris, 1P96. 

S. A. le Prince de Mónaco. — Sur la deuxième campagne scientifique 
de la «Pnncesse Alice», 4. , 4 pags Paris, i8g5. 

Le Dantec. Théorie nonvelle de la vie, 8°, 323 pags. Paris, 1896. 

Franz Boas. Chinook texls, 8.°, 278 pags. Washington, 1894. 

Gerârd Fowke. Archeologic investigations in James and Potomac Val- 
leys, 8 o , 80 pags. Washington, 1894. 

James Mooney. The Sionan tribes ofthe east, 8.°, 100 pags. Washin- 
gton, 1894. 



Annaes de sciencias naturaes, tom. III, n os 1-2. Porto, 1896. 
Annuario da Universidade de Coimbra (95 96). Coimbra. 1896. 
Archeologo portuguez, tom. I, n. es 111-12; tom. II, n. os 1-2. Lisboa, 

1895-96. 
Archivos de historia da medicina portuguesa, tom. VI, n.° 1. Porto, 

1895. 
Boletim da Sociedade Broteriana, tom. XII, n. os 3*4. Coimbra, 1895. 
Boletim da Sociedade de Geographia de Lisboa, tom. XXIV, n. os 2 e 

4-10. Lisboa, 1895. 
Boletim da ^Associação dos archeologos portugueses, tom. III, n.° 5. 

Lisboa, 1896. 
Gommunicações da Direcção dos Trabalhos Geológicos de Portugal, 

tom. III, n.° 1. Lisboa, 1895-96. 
Instituto, tom. XLIII, n. ,,s i-5. Coimbra, 1896. 
Jornal de sciencias mathematicas, physicas e naturaes, tom. IV, n. 08 

13-14. Lisboa. 1895. 
Jornal da Sociedade pharmaceutica lusitana, tom. LX, n.° 12; tom. 

LXI, n. 08 1-4. Lisboa, 1895-96. 
Portugal agrícola, tom. VII, n. os 6-Q. Lisboa, 1895-96. 
Revista de educação e ensino, tom. XI, n. os 1-5. Lisboa, 1896. 
Revista Florestal, tom. II, n. os 2-6. Aveiro, 1896. 
Revista de Guimarães, tom. XIII, n.° 1-2. Guimarães, 1896. 
Revista Juridica, n os 26-27. Porto, 1895. 
Revista de Obras publicas e minas, tom. XXV, n. os 3i i-3 12. Lisboa, 

i8 9 5. 
Annales de la Sociedad espanola de Historia Natural, tom. I e II; 

tom. IV, cuad 1 °. Madrid, 1892-95. 
Revista critica de historia y literatura espanolas, portuguesas é his- 
pano- americanas, tom. I, n.° 6. Madrid, 1896. 
Bulletins de la Société d' Anthropologie de 'Paris, tom. V, n. 08 1-9; 

tom. VI, n.° 8 4 6 Paris, 1895. 
Mémoires de la Société d' Anthropologie de Paris, tom. I (III) n. 08 2-4. 

Paris, 1895 95. 
Bulletin du Muséum dllistoire Naturelle, tom. I, n. 08 1 e 4-8; tom. 

II, n ° 8 1-4. Paris, 1^95-96. 
Bulletin de la Société \oologique de France, tom. XX, Paris, 1895. 
La Feuille des jeunes naturalistes, tom. XVI, n. os 3o2 e 304-309. Pa- 
ris, 1895 96. 



Revue mensuelle de 1'Êcole d" Anthropologie de Paris, tom. VI, n.°* 

i-5 Paris. 1896. 
Annales du Musée Guimet, tom. XXV-XXVI. Paris 1894. 
Id. ( Bibliotèque d'ÉtudesJ, tom. IV. Paris, 1894. 
Annales de la Société d'Archéologie de Bruxelles, toms. VIII-IX. 

Bruxelles, 1894-95. 
Annuaire de la Soe. d'cArchéologie de Bruxelles, toms. V-VI. Bru- 
xelles, 1895-96. 
Bulletin de la Société belge de géologie, de paléontologie el d'hydro- 

logie. tom. VIU. n. os 2-3. Bruxellas, 1895. 
Bulletin de la S.iciété belge âe microscopie, tom. XXI, n.° 10; tom. 

XXíl. n. os 1 7. Bruxelles, 1896. 
Annales de la Soe. belge de microscopie, tom. XVIll, n.° 2; tom. XIX r 

n.° i. Bruxelles, 1*94-95. 
Procès-verbaux des séances de la Société royale malacologique de Bel- 

gique, Bruxelles, 1892-95. 
Atti delia Societá italiana di scienzi naturali, tom. XXXV, n. os 3-4; 

tom. XXXVI. n.° 1. 
Bulletino di paletnologia italiana, tom. XXI, Parma, 1895. 
Bulletino dei R. Comitato Geológico d'ltalia, tom. VI, n.° 4; tom. 

VII, n.° 1. Roma., 1895-96. 
Bulletin de la Société vaudoise des sciences naturelles, tom. XXXI, 

n.° 119. Lausanne, i8q5 
Mémoires du Comité Géologique de St. ^Pétersbourg, tom. X, n.° 4. 

St. Pétersbourg, 1895 
Supplément au tom. XIV des ^Bulletins du Comité Géologique de St.< 

Pétersbourg, 1895. 
Mémoires de la Société des naturalistes de Kiew, tom. XIII, n. os 1-2; 

tom. XIV, n.° 1. Kiew, 1894-95. 
Verhandliíngen der ç Berliner Gesellschaft fúr Anthropologie, Ethno- 

iogie und U> geschichle, n. os de junho-dezembro, 1895 e de janeiro, 

1^96. Berlim, iRg5 96 
Verhxndlungen der k k. zoologisch-botanischen Gesellschaft in XVien, 

tom. XLV, n.° 10; tom. XLVI, n ° É 14. Vienna, 1895-96. 
Abstracts nf lhe proceedings of the Geological Society of London, n. 08 

65 1 660. Londres, 1895-96. 
The american anihropologist, tom. VIII, n. os 2-3. Washington, 1895. 
Bulletin of the United States Geological Survey, n. os 118122. Washin- 
gton, 1894. 
Fourteenlh zAnnual Report of lhe Umted States Geological Survey, 

Part. I e II. Washington, 1893-94 
Monographs of the United States Geological Survey, toms. XXI II e 

XXIV. Washington, 1894. 
Ninth Annuctl Report of the Bureau of 'Ethnologie, Washington. 1892. 
Archivos do Mu<eu Nacional do Rio de Janeiro, toms. I-VII. Rio de 

Janeiro, 1876-87. 
Actes de la Société scientifique du Chili. tom. V, ri. 08 i-3 S,miiago v 

i8 9 5. 



A correspondência relativa á administração e redacção 
deverá ser dirigida a ROCHA PEIXOTO, Academia Po-. 
lytechnica— PORTO. 






REVISTA 

Stíencias Naturaes e Sociaes 



PUBLICAÇÃO TRIMESTRAL 



DIRECTORES 

WENCESLAU DE LIMA 

Director da Eschola Medico-Cirurgica do Porte 

RICARDO SEVERO ROCHA PEIXOTO 

Eficenheiro civil Naturalista adjuncto ao Gabinete de Geologia 

da Academia Polytechnica 



Volume quarto — K.° ió 

(11 SERIE — N.° 8) 




PORTO 

TYPOGRAPHIA OCCIDENTAL 

8o, Rua da Fabrica, 8o 

1896 






SUMMARIO 



MEMORIAS ORIGINAES 

O rito da inhumação nos dolmens da serra do Cabo 

Mo ndego, por A. dos Santos Rocha pag. 169 

c4 propósito das estatuas galaicas, por F. Martins Sar- 
mento . . . . . . . pag. 181 

cA estatua do pateo da morte, por F. Martiná Sarmento, pag. 189 

c4 estatua callaica de Vianna, por L. de Figueiredo da 

Guerra . . . . . . . . . . . . . . pag. 192 

Estudos deflora local. ^Vasculares do Porto, por Gonçalo 

Sampaio . . ... . . . . . . . . pag. ig5 

BIBLIOGRAPHIA 

Congresso viticola nacional de i8çy. Relatório geral 
da Real Associação central da agricultura poriu- 
gueza, por R. P. . . . .... . . . pag. 2o3 

Reptis e amphibios da península ibérica e especial- 
mente de Portugal, de M. Paulino de Oliveira, por 
R. P pag. 204 

Analcime. Sa constitution, de Charles Lépierre, por R. P. pag. 206 

NOTICIAS 

O Museu Municipal da Figueira, por R. P. . . . . pag. 206 
O Museu do Instituto de Coimbra, por R. P. . . . . pag. 209 

Um laboratório maritimo nos cAçores, por R. P. . . . pag. 210 

OS MORTOS 

(Marqite^ de Saporta, por R. P. . . pag. 2i3 

Joaquim 'Possidonio Narciso da Silva, por R. P. . . pag. 214 

NOTA 

A caprifi cação, por F. Adolpho Coelho. . . . . pag. 216 



O RITO DA INHUMAÇAO 



NOS 



DOLMENS DA SERRA DO CABO MONDEGO 



Nos domínios da sciencia ninguém hoje pôde duvidar 
que o dolmen seja um monumento funerário. Milhares de 
descobertas feitas na Europa, Ásia e Africa, annunciadas 
nos livros de paleoethnologia, na imprensa periódica e nos 
trabalhos dos congressos, fornecem a prova irrefragavel 
d'esse destino; e em cada dia novos factos o vêem con- 
firmar. 

Mas seriam os dolmens logares de sepultura, ou antes 
meros ossarios, isto é, recipientes de ossos dos mortos se- 
pultados provisoriamente em outros logares? 

A ideia d'uma sepultura provisória, destinada apenas a 
consumir os tecidos molles do corpo, e d'uma sepultura de- 
finitiva, destinada a guardar perpetuamente o esqueleto, tem 
sido bem acolhida por alguns eruditos da actualidade, posto- 
que ainda ninguém tivesse a fortuna de descobrir sepultura 
alguma da primeira espécie. 

Foi o snr. Cartailhac, uma das summidades da pa- 
leoethnologia, que, segundo pensamos, formulou essa hy- 
pothese, sem comtudo lhe dar a sua completa adhesão. 
Depois de fallar da inhumacão nas grutas naturaes e arti- 
íiciaes e nas cryptas megalithicas, escreveu o seguinte: — 

12 



170 REVISTA DE SC1ENC1AS 



« Disons en passant que peut-être les grands ossuaires re- 
ceveaient les corps qui avaient déjà séjourné dans des sé- 
pultures provisoires, par exemple, soit dans leur hutte dé- 
laissée, soit sur les hauts lieux; de telles coutumes sont ré- 
pandues chex des peuples dont la civilisation rapelle celle 
de nos ancêtres de Tàge de la pierre polie » ( 1 ). 

Mais adiante, a propósito da gruta da Furninha em 
Peniche, apresentou a mesma ideia n 'estes termos: « L'iné- 
galité de proportion dans les ossements recueillis se repré- 
sentera dans toutes les sépultures au contenu desquelles on 
appliquera la statistique. Peut-être aussi, comme je Pai 
note, les ossements etaient-ils vénus de sépultures provi- 
soires antérieures, ou ils avaient été déjà soumis aux cau- 
ses ordinaires de destruction. Mais sans aller jusqu'à cette 
supposition, il est évident que ces cavernes ont été depuis 
longtemps et peut-être toujours accessibles, et par suite 
leur sol a pu être bouleversé de bien des manières » ( 2 ). 

O illustre sábio snr. Quatrefages, preoccupado tam- 
bém com a ideia de que nos dolmens e grutas funerárias 
muitas peças dos esqueletos faltam ou se encontram par- 
tidas, julgou a hypothese muito aceitável. Eis como elle se 
exprime, prefaciando a obra do snr. Cartailhac : — «M. Car- 
tailhac a d'ailleurs proposé une autre explication des faits 
invoques à 1'appui de 1'opinion qu'il combat. II pense que 
les hommes de la pierre polie plaçaient d'abord les cadavres 
dans une sêpulture provisoire, d 'ou les os seuls étaient re- 
tires pour être reunis dans les dolmens ou dans les grottes 
sépulcrales. Une séjour trop prolongé à Pair libre ou sous 
terre, un peu de négligence et de précipitation dans la re- 
cherche des ossements dissocies expliqueraient, en effet, fort 
bien comment un certain nombre d'entre eux peuvent être 
brisés ou manquer. íl y a quelquefois une disproportion 

(') Les a/\ges prehist. de VEsp. et du Port. pag. 76. 
( â ) Obra cit., pag. 11 5. 



NATURAIS E SOC1AKS I 7 l 



étrange entre les diverses parties des squelettes trouvés 
dans une même chambre. La grotte de Peniche renfermait 
140 maxillaires inferieures et seulement 22 maxiliaires su- 
périeures. L^hypothèse de M. Cartailhac est d'autant plus 
admissible que des coutumes analogues existent encore chez 
certains peuples sauvages, chez les polynésiens, par exem- 
ple. » Logo em seguida, porém, adverte que nem todos os 
povos neolithicos praticavam esta dupla inhumação, como 
mostram as grutas sepulcraes de Marne, exploradas pelo 
snr. Barão de Baye, achando na diversidade destes usos 
mais um argumento em favor da diversidade das origens 
d'esses povos. 

Os polynesios, a que se refere o snr. Quatrefages, são 
os Maoris da Nova-Zelandia, de quem o mesmo sábio tinha 
dito em outro logar que collocam provisoriamente os mor- 
tos em uma cabana ou na sua própria habitação, e mui- 
tas vezes n'um bosque reservado para este fim, e que, 
depois do desapparecimento das carnes, limpam os ossos e 
os depositam em logar secreto, só conhecido de poucas pes- 
soas ( x ). 

Nestas condições a hypothese não repugna absolu- 
tamente. A falta de peças nos esqueletos ou a sua fra- 
ctura, poderão em geral explicar-se pela dupla inhumação, 
sobretudo havendo exemplo cTum uso análogo entre sei 
vagens, que viviam na idade da pedra antes da communi- 
cação com os europeus, e tendo essa interpretação em seu 
favor o parecer d^um vulto de sciencia, como tra o snr. 
Quatrefages. 

Mas a exploração dos dolmens da Serra do Cabo Mon- 
dego levantou a este respeito muitas duvidas no nosso es- 
pirito; e por ultimo chegamos a convencer-nos de que estes 
dolmens, pelo menos, não eram simples ossariós, mis to- 
gares em que se inhumavam definitivamente os corpos. 

(') Hommes fossiles et hommes sauvages, pag. 450. 



I72 REVISTA DE SC1ENC1AS 



Um facto importante tem sempre fixado a nossa atten- 
çáo : é a grande decomposição da maior parte dos ossos, 
principalmente dos esponjosos e da parte esponjosa dos os- 
sos de tecido compacto. Encontrámos, por exemplo, ossos 
longos em que as épiphyses se desfaziam com uma ligeira 
pressão dos dedos. Costellas, vértebras, ossos das mãos e 
dos pés, sobretudo nos terrenos húmidos, estavam reduzi- 
dos a uma substancia tão branda e ás vezes tão penetrada 
pela cor dos entulhos, que, não se distinguindo d'estes, nem 
offerecendo a mais ligeira resistência ás facas com que era 
feita a exploração, só difficilmente chegavam a conhecer-se, 
e já tarde, quando muitas peças se haviam destruído. No 
próprio megalitho de Santo Amaro da Serra a camada de 
tufo que envolvia os ossos, tinha desfigurado completa- 
mente uma grande parte d'elles, e muitos pedaços de tufo 
que, pela sua forma, indicavam encerrar diversas peças, 
sendo partidos, apresentavam uma estructura quasi homo- 
génea, como se as partículas ósseas tivessem sido inteira- 
mente substituídas pelo próprio tufo. No megalitho da Ca- 
becinha até muitos dos ossos de tecido compacto estavam 
tão alterados que pareciam pedaços de madeira completa- 
mente apodrecida. 

Outro facto de não menos valia é que nos depósitos 
mortuários, virgens de profanações, encontrámos sempre os 
ossos partidos, e muitos verdadeiramente esmagados, po- 
dendo verificar com toda a exactidão, até em muitos d'estes 
últimos, que as esquirolas conservavam as suas relações 
anatómicas. Chegámos a fazer experiências supérfluas rTeste- 
sentido. Tomando alguns ossos longos, cujos fragmentos se 
achavam empastados pela terra, e que, pela sua posição, 
podiam causar duvidas, fomos dissolvendo pouco a pouco 
a pasta em agua, retirando cada esquirola e collocando-a 
sobre uma meza pela ordem em que se achava na pasta; e 
em seguida reconhecemos que todos os fragmentos se ajus- 
tavam perfeitamente para formar o osso. 



NATURAES E SOCIAES 173 



Não nos resta, pois, a menor duvida que foi nos pró- 
prios dolmens que esses ossos se fracturaram; e a causa 
d'este facto foi a pressão natural dos entulhos. Só esta 
acção natural podia deixar em todos os depósitos sem ves- 
tígios de profanação os ossos humanos n'esse estado, isto 
é, esmagados e conservando os seus numerosos fragmentos 
as relações naturaes; e por outro lado a grande decompo- 
sição d'essas peças era própria para favorecer semelhante 
resultado. Com muito menos peso d^ntulhos, esqueletos 
d'uma epocha muito posterior foram por nós encontrados 
no mesmo estado em sepulturas virgens de profanações. 
Referimo-nos a algumas das sepulturas da necropole proto- 
historica da Fonte Velha em Bensafrim (Algarve), que nós 
attribuimos á epocha da influencia phenicia ou liby-phenicia 
no sul do paiz. O pavimento e o entulho d'essas sepulturas 
eram d'argila; e, postoque fossem cobertas por lages, e 
por conseguinte não pezasse sobre os ossos senão uma ca- 
mada d'entulho com a espessura máxima de o m ,7, estes es- 
tavam esmagados, verificando nós pelo exame d'alguns 
exemplares que os fragmentos mantinham as suas relações 
anatómicas. 

Destes factos resulta que a fractura dos ossos, nos 
nossos megalithos, não pôde explicar-se pela hypothese da 
dupla inhumação; e que é muito difficil, se não impossível, 
reconhecer se em um deposito mortuário dos mesmos mo- 
numentos faltam ou não algumas peças de esqueleto, so- 
bretudo quando se trata de pequenos ossos, ou quando as 
peças do esqueleto estão partidas em milhares de fragmentos. 

Dir-se-ha que n'estas circumstancias também não pôde 
rejeitar-se a hypothese da dupla inhumação. Mas nós não 
carecemos de provar que os esqueletos estavam completos, 
para demonstrarmos que os cadáveres eram encerrados nos 
nossos megalithos: os que sustentam a hypothese contraria 
é que seriam singularmente favorecidos, se pudesse aífir- 
mar-se com segurança que os esqueletos estavam incom- 



*74 



REVISTA DE SClENCiAS 



pletos. Para nós o esqueleto podia estar completo e ter sido 
removido d\ima sepultura provisória; e podia não estar 
completo, pertencendo aliás a um corpo inhumado no pró- 
prio megalitho, por terem sido destruidas pelos agentes na- 
turaes as peças que faltassem. 

O exemplo da gruta da Furninha, em Peniche, não 
parece convincente. Explorando esta gruta, o illustre geó- 
logo snr. Nery Delgado reconheceu, quanto aos ossos, o 
mesmo facto que tantas vezes nos tem occorrido nas ex- 
plorações dos megalithos, isto é, que no acto da exploração 
houve perdas inevitáveis dVIgumas peças, principalmente 
dos pequenos ossos e dos ossos esponjosos. Mas, prescin- 
dindo d'este facto, o deposito neolithico estaria intacto? Não 
teriam actuado n^elle causas especiaes de destruição? O snr. 
Delgado não affirma que o entulho estivesse virgem de pro- 
fanações; e per outro lado fornece-nos provas manifestas 
de grandes deslocações, e até do desapparecimento d^ma 
parte do deposito. Note-se em primeiro logar a desordem 
e confusão de todos os ossos humanos e dos restos d'in- 
dustria, e a accumulação da maior parte em um certo ponto 
da gruta. Nos depósitos mortuários, não profanados, dos 
nossos megalithos, nada semelhante: cada esqueleto oceupa 
um iogar separado. Note-se mais que o sábio portuguez en- 
controu alguns ossos humanos empastados per um resto da 
camada stalagmitica na parede da gruta, a i m .3o acima do 
nivel do solo, indicando que este tinha chegado áquella al- 
tura, e verificou que no sitio em que existia a grande accu- 
mulação dos ossos e artefactos o pavimento rochoso da 
gruta tinha um orifício, por onde haviam desapparecido as 
areias quaternárias que estavam por debaixo do deposito 
neolithico, e onde também se encontraram ossos doeste de- 
posito, indicando que o movimento d'essas areias e a sua 
descarga pelo orifício haviam deslocado e confundido tudo 
o que se achava no deposito superior, arrastando até parte 
cTelle. Note-se emfim a presença de ossos roídos, mos- 



NATURAES E SOCÍAES l J $ 



trando que os dentes dos animaes bravios se ajuntaram ás 
outras causas da destruição ( 1 ). 

O próprio snr. Cartailhac, no congresso internacional 
de Lisboa, em que foi apresentado o notável trabalho do 
snr. Nery Delgado, referindo-se ao estado d'esse deposito, 
explicou a falta d^ssos, não pela hypoihese da dupla inhu* 
mação, mas por causas naturaes de destruição, precisamente 
as mesmas que nós temos reconhecido nas cryptas megali- 
thicas. «Les os qui manquem, disse elle, sont ceux que Ton 
est habitue à ne pas rencontrer toutes les fois qu'on fouille 
une sépulture multiple; ce sont ceux qui dans les tombeaux 
simples se détruisent les premiers. Lorsque le squelette est 
seul, isole, par exemple, dans un cercueil. il n'est pas rare 
de trouver que la pression des terres et Paction des milieux 
1'ont traité comme ceux des grottes du Portugal : même 
aspect, mêmes cassures, même élargissement du canal me- 
dullaire. 

« Les incisions également invoquées par M. Delgado 
sont dues aux dents des carnassiers de petite taille et surtout 
des rongeurs » ( 2 ). 



E claro que, para nos decidirmos pela hypothese da 
inhumação dos corpos nos megalithos, pomos inteiramente 
de parte os depósitos com vestígios de completo remexi- 
mento. Só os que nos pareceram intactos ou a parte d'elles 
que não chegou a ser remexida, vão servir-nos de guia 
n'este difficil problema. 

No megalitho da Gapella, contiguo á capellinha de 



C 1 ) Vid. La grotle de Fuminha, do snr. Nery Delgado. 
( 2 ) Com pie rendu, pag. 269. 



IJÒ REVISTA DE SC1ENC1AS 



Santo Amaro da Serra, encontrámos, junto a um dos sup- 
portes, restos d'um esqueleto empastado pelo tufo sobre 
uma pedra do pavimento da camará sepulcral, que haviam 
escapado das explorações precedentes. Entre esses ossos 
figura um grande fragmento craneano; e cercando quasi 
metade d'esta peça encontrámos na pasta muitas contasi- 
nhas de schisto, algumas unidas e com os orifícios no mesmo 
plano, como se o mesmo fio as ligasse. Pareceu-nos mani- 
festo que taes contas faziam parte d^m collar, e que o fio 
d'este ainda as ligava quando o craneo tomou a posição 
em que o achámos cimentado. Esta relação entre os dois 
objectos indica, a nosso vêr, que com a decomposição dos 
principaes tecidos molles o montículo de terra, que cobria 
o corpo acocorado, íoi comprimindo o esqueleto, ainda ar- 
ticulado, sobre as pequenas lages que guarneciam o pavi- 
mento da crypta, e o craneo e vértebras cervicaes, des- 
cendo conjunctamente, arrastaram o fio das contas. 

Se alli só fossem inhumados os ossos do esqueleto, 
não se explicaria razoavelmente a situação do collar junto 
do craneo e cercando uma parte d'elle. Seria preciso inven- 
tar que os selvagens, lançando n^quelle logar os ossos do 
seu semelhante, teriam a singular phantasia de disporem 
estes de modo a ficarem intimamente associados aos ador- 
nos que andavam ligados á respectiva parte do corpo, e de 
darem ao collar uma forma arredondada semelhante á que 
devia ter mantido no corpo. 

Nós encontrámos um collar de contas de vidro esmal- 
tadas, em circumstancias análogas, n'uma sepultura da allu- 
dida necropole da Fonte Velha, onde a inhumação dos cor- 
pos era manifesta, com a notável coincidência de estes 
também terem sido acocorados. 

No megalitho de Santo Amaro da Serra, que pouc 
dista do precedente, encontrámos dois depósitos mortuários 
que não se achavam profanados. Cada um d'estes estava 
junto a um dos supportes médios do lado meridional. Eram 



NATURAES E S0C1AES I 77 



envolvidos por areia, e não por entulho egual ao que preen- 
chia a maior parte do recinto, e distavam entre si o m ,5o 
aproximadamente. Em ambos os depósitos os ossos il- 
liacos assentavam immediatamente na lage do pavimento. 
Fora dos pequenos espaços que occupavam os dois grupos 
d'ossos, a camada d^reia não remexida, que se estendia 
sobre o pavimento até á linha media longitudinal do mega- 
litho, foi absolutamente estéril. 

Ora, se este monumento fosse um mero recipiente de 
ossos disjunctos, nem os esqueletos estariam tão distan- 
ciados, nem teriam sido enterrados, nem o espaço entre 
elles e o eixo longitudinal do megalitho estaria desoccu- 
pado ; e só por uma singularissima casualidade, que não 
pôde presumir-se, os illiacos dos dois esqueletos occupa- 
riam precisamente a posição em que deviam ficar, se, em 
vez d^ssos, se inhumassem corpos acocorados. 

De facto não se comprehende facilmente a utilidade de 
enterrar ossos dentro d'um recinto de pedra hermeticamente 
fechado, nem a de desperdiçar espaços consideráveis em 
monumentos de tão custosa fabrica. 

O que se reconhece, sem difficuldade, é a imperiosa 
necessidade de cobrir os cadáveres com terra ou areia, para 
absorver os liquidos resultantes da decomposição, e que, 
nas successivas inhumações, se coll.ocasse cada corpo junto 
ao montículo que envolvia outro deposito anterior, do que 
deveria resultar nós encontrarmos hoje os esqueletos um 
pouco distanciados entre si. 

A nosso ver um simples ossário deveria fornecer-nos 
ossos em todo o pavimento, e até accumulados de modo a 
preencherem completamente a crypta megalithica, atten- 
dendo ao trabalho que custavam semelhantes monumen- 
tos : ao passo que, inhumando-se alli os corpos acocorados, 
era preciso encostal-os aos suppcrtes, ficando assim inutili- 
sada a parte media do recinto; e, sendo os cadáveres co- 
bertos por montículos de terra, era consequente ficarem 



I7B REVISTA DE SC1ENC1AS 



afinal os esqueletos separados e distantes uns dos outros. 

Por conseguinte a hypothese da dupla inhumação tam- 
bém náo pode aqui admittir-se. 

No megalitho da Cabecinha, situado na Serra das 
Alhadas, dos quatro depósitos mortuários que encerrava? 
Só um fora profanado em parte, em consequência do arran- 
camento d^m dos supportes a que estava encostado. Os 
restantes achavam-se intactos; e também o estava todo o 
entulho que os envolvia. 

Cada esqueleto jazia n'uma camada de terra arenosa; 
e todo o resto do recinto, desde o pavimento da camará 
até quasi aos topos dos supportes estava cheio de terra ar- 
gilosa, egual á que formava o titmulus, muito empastada, 
contendo algumas lascas de silex, quartzo e quartzite. Sem 
duvida que com os quatro depósitos se dera por preenchido 
o pequeno megalitho, entulhando-se talvez todo o espaço 
médio e superior da crypta. 

O que mais força dá a esta inducção é o facto de um 
dos esqueletos, que devia pertencer á ultima inhumação, 
ter algumas peças junto á galeria e em frente d^ella, indi- 
cando que o deposito mortuário, estendendo-se até alli, de- 
via necessariamente embaraçar a entrada na camará: so^ 
bretudo tendo em vista que logo em frente, no lado opposto 
da mesma camará, estava outro deposito, cujo envolucro 
arenoso nós vimos confundir-se com o que cobria aquelle 
de que tratamos. 

Os quatro esqueletos achavam-se situados junto aos 
supportes, em volta da camará sepulcral, dois no lado do 
N, um no do O e outro no do S, distantes entre si o ,n ,40 
a o m ,7o aproximadamente. No meio da crypta não havia 
ossos alguns. 

Não pudemos, por causa da grande podridão e fractura 
dos ossos, verificar a posição dos illiacos; mas as circum- 
stancias que ficam indicadas, concordando com as do me- 
galitho de Santo Amaro da Serra, bastam para nos per- 



NATURAIS E SOCUES 1 79 



suadirem que alli se inhumaram quatro cadáveres, e não 
quatro esqueletos. 

Para ossário havia ainda muito espaço, no meio da 
camará e aos lados, entre os quatro depósitos. Nada me- 
nos de seis ou sete esqueletos bem dispostos cabiam ainda 
no pavimento, sem que as respectivas peças se misturas- 
sem ; e mais de 5o seriam precisos para preencherem toda 
a crypta até aos topos dos supportes. 



Não nos parece que a exploração dos dolmens em ou- 
tras regiões de Portugal tenha fornecido argumentos favo- 
ráveis á hypothese da dupla inhumação. Estacio da Veiga 
pretendeu sustental-a a propósito de três megalithos da ní- 
cropole de Alcalá; mas com tanta infelicidade que, pela 
descripção que elle fez do estado em que encontrou os mo- 
numentos, facilmente se reconhece que tudo alli fora profa- 
nado, profundamente remexido e confundido. Foi uma 
verdadeira temeridade. Difficil era affirmar, em taes cir- 
cumstancias, que os ossos tivessem entrado partidos nos 
monumentos, e que qualquer agglomeraçao de fragmentos 
em um ou outro logar fosse o resto dalgum deposito feito 
n'esse mesmo sitio, e não deslocado d'outro logar. 

Todas as considerações em que elle se fundou, nos pa- 
recem erróneas. Não ha, na hypothese de remeximento, cri- 
tério algum para distinguir a fractura d'um osso occorrida 
fora d'um megalitho da que tivesse logar dentro d^elle ; nem 
do facto de um d'estes monumentos ter sido fechado para 
não mais se abrir, pôde inferir-se que só recebera ossos des- 
carnados; nem a altura de i m ,32 na entrada era insufhciente 
para dar passagem aos cadáveres e aos seus portadores. 

De resto Estacio da Veiga reconheceu que certas agglo- 



I 8o REVISTA DE SCIENC1AS 



merações de fragmentos ósseos, que attribuiu á sua hypo- 
these, podiam ser devidas á inhumaçao de cócoras ( í ). 

Em Hespanha os conscienciosos trabalhos de Gongora 
y Martinez são manifestamente adversos á ideia dos ossa- 
rios. Resumindo as suas observações sobre os dolmens, este 
escriptor exprime-se nos seguintes termos: 

o Los cadáveres aparecen colocados en lechos hórison- 
tales y con pequenas piedras cerca de los cráneos » ( 2 ). 

Por isso até novas descobertas, que provem a existên- 
cia de megalithos servindo de meros ossarios, continuará a 
vigorar para a península ibérica a theoria dos snrs. Mar- 
tillet, Joly e outros, que, fundando-se em todas as obser- 
vações feitas sobre os dolmens da Europa, Ásia e Africa, 
affirmam que estes monumentos recebiam os corpos dos 
mortos ( 3 ). 



A. dos Santos Rocha. 



( X J Vid. Antiguidades mon. do çAlgarve, vol. 3.°, pag. 1 38 e 
seg., 1 58, i5ç), i63, 187, 218 e 233. 

( 2 ) Antiguidades prehist. de Andalucia. pag. 106. 

( 3 ) Vid. Le ''Préhist., pag. 597; LHomme avant les métaux, 
pags. 124, 140-141. 



A PROPÓSITO 



DAS 



ESTATUAS GALAICAS í 1 ) 



Ha pouco menos cTum anno fiz acquisição d'uma es- 
tatua collossal, encontrada perto do monte de Santo Ovidio 
(Fafe), onde apparecem vestígios muito claros d'uma antiga 
povoação. 

E' fácil reconhecer n'esta figura um sexto exemplar das 
estatuas galaicas, como o snr. dr. Hubner denomina as cinco 
já conhecidas em Portugal e na Galliza. 

Falta-lhe a cabeça, que por uma cavidade quadrangu- 



(*) Este artigo é extrahido da Revista Académica (n.° 3, pag. 
19- 21, I anno; Porto, 1879). O numero indicado não chegou a ser dis- 
tribuído, segundo consta, ficando, pois, inédito, o escripto do illustre 
archeologo vimaranense. Adeante reeditamos uma outra nota do mesmo 
auetor, publicada no Pantheon (n.° 24, pag. 382-4; Porto, 1880-81) e 
bem assim o artigo do snr. Figueiredo da Guerra, inserto no Pêro Gal- 
lego (n.° i5, pags. 3-4; Vianna do Castello, 1882). À modesta distri- 
buição e actual raridade das três publicações referidas e ainda o interesse 
que o assumpto despertou explicam esta deliberação da Revista. Ainda 
ha pouco o snr. L. de Vasconcellos se oceupou levemente do mesmo 
assumpto no Archeologo porlugue^ (n.° 1, pags. 29-32, II anno; Lis- 
boa, 1896), acompanhando as suas notas com a reproducção de três da s 
cinco ou seis interessantes estatuas conhecidas. 

N. da R. 



l83 REVISTA DE SC1ENC1AS 



lar, aberta entre os hombros, se vê ter sido uma peça se- 
parada do tronco. Falta-lhe também a base, em que estas 
figuras como que sumiam as pernas até o joelho. 

O que mais me surprehende no exame que tive todo o 
vagar de fazer no guerreiro gallego foi que a sua armadura 
podia ser descripta com estas palavras de Strabão (III, 
III, 6): Fer/mt... áspide ati parva, cujus diameter duum 
pedum, cava foras. . . ad hoec sica. . . O escudo da estatua 
de Fafe é uma rodela (aspis), de 0,48 de diâmetro (*), com 
a parte concava para fora (cava foras) e a arma uma adaga 
(sica) . 

Tudo isto são coincidências do acaso? Não me parece. 

Mas Strabão descreve-nos a armadura dos Lusitanos; 
e este facto e outros, e a falta de boas razões para distin- 
guir ethnographicamente os Lusitanos e os Gallegos susci- 
tou-me a ideia de levantar a questão — se a denominação de 
estatuas galaicas necessitaria, ou não d'uma revisão. 

N este meio tempo agitava-se no Instituto uma questão 
muito mais grave, uma verdadeira questão de vida ou de 
morte para a celebridade d'estes velhos monumentos, que 
iam captando o respeito dos archeologos. A estatua amea- 



( 1 ) Neste ponto a coincidência não é rigorosa : os dois pés (gre- 
gos) correspondem a 0,60 ; mas nem os observadores gregos mediam de 
certo á fita os escudos dos povos que descreviam, nem é possível que 
todos os escudos dos Lusitanos tivessem exactis>imamente o mesmo diâ- 
metro. Objecção mais séria seria a que nos lembrasse a necessidade de 
fazer uma reducção proporcional á differença que vae da estatura dum 
homem regular á estatura agigantada das estatuas, visto que se diz se- 
rem colossaes. Mas, se fazemos a reducção de meio por meio, como 
deve ser, pois que as estatuas teem o dobro d'um homem ordinário, os 
escudos dos gallegos teriam então de diâmetro entre 0,24 a o, 3o! 

Todo o embaraço desapparece, logo que se saiba que n'estas gros- 
seiras figuras não ha proporções nenhumas. O braço, por exemplo, é 
extremamente curto, um braço de comprimento regular. Menos difficil 
que estudar a anatomia do corpo humano e regras de proporção era co- 
piar um escudo do natura!, e é isso o que se fez, entendemos nós. 



ISfATURA.ES E SOCIAES l 8 j 



cada era a de Vianna do Gastello — precisamente aquella, 
que em virtude da sua inscripção e dos nomes não romanos 
que continha, apresentava as suas cartas de naturalisação 
de guerreiro gallego (*), de que as estatuas congéneres apro- 
veitavam, e sem a qual ninguém se lembraria de ver n'estas 
figuras outra cousa mais que um aborto de esculptura indi- 
gno da attenção de ninguém, e muito menos dos investiga- 
dores das antiguidades galeco-romanas. 

E' claro que se a estatua de Vianna fosse exhautorada 
dos títulos que falsamente se arrogara, todas as outras ti- 
nham de soífrer o mesmo opprobrio, e claro é também que 
ficava prejudicada toda a tentativa de discutir a legitimidade 
da sua denominação, sendo por tanto um motivo muito ex- 
tranho á impertinência de ingerir-me n'um debate que está 
entregue e bem entregue aos membros da secção archeo- 
logica do Instituto, que me obriga a entrar n'este as- 
sumpto. 

As duvidas contra a antiguidade da estatua de Vianna 
são assim resumidas na acta da sessão de 2 de maio de 1878 
(Secção Archeologica do Instituto de Coimbra): 

« O snr. Luiz de Figueiredo da Guerra offereceu o seu 
livro intitulado— Vianna do Castello — e fez algumas con- 
siderações acerca diurna estatua de que trata no mesmo li- 
vro. Disse que esta estatua, chamada por entendidos ar- 
cheologos estatua galaica, parecia não ser, como alguns 
querem, do século I, mas do XII ou XIII, e fundou a sua 
opinião nos seguintes pontos: i.° no escudo, que é dos Ro- 
chas, em cujo solar a estatua está: como explicar d'outro 
modo esta coincidência?; na forma do capacete, que é fe- 
chado e tem dupla viseira e gola, o que se usou muito pos- 

(*) A estatua de Castro de Rubias tinha também uma inscripção 
com nomes gallegos. Era uma segunda testemunha que podia depor 
n'este processo; mas tal testemunha não pôde ser inquirida, porque, se- 
gundo parece, ninguém sabe ao certo se ainda existe. (Hiibner. Not. 
Ar eh., pag. 108). 



I 84 REVISTA DE SCIENCIAS 



teriormentc aos primeiros séculos; 3.° na impossível leitura 
da inscripção. O elemento bysantino predominou nas escri- 
pturas portuguezas do principio da monarchia, principalmente 
sob os senhores feudaes que tinham peregrinado no Oriente. 
Uma das lettras que se conhecem é um E, que affecta a forma 
grega. Gabriel Pereira, que visitou a estatua, confessa que: 
— a grande maioria dos caracteres da inscripção desappa- 
recera; todavia Hubner julgou (?) ler o seguinte. — Uni- 
verso Iilustrado, tomo 2. , n.°, i5, pag. 1 17, onde vém uma 
inexacta gravura da pretendida estatua galaica)» — (Insti- 
tuto, 2. a serie, n.° 3, pag. 141). 

Contra a ultima parte d'este extracto cumpre oppôr o 
seguinte: 

O snr. prof. Hubner recebeu primeiro um calco da ins- 
cripção que lhe mandou A. Soromenho. Em seguida, Her- 
culano deu-lhe uma cópia em gesso. «Além disso — escreve 
elle — estudei exactamente o original e tirei um calco, o qual 
porém, em consequência do estado da pedra, só tem utili- 
dade para verificar a disposição de toda a inscripção e de- 
terminar-Ihe approximadamente a época. Com todos estes 
auxílios, e em despeito do intento de me não deixar illudir 
pela primeira cópia, eu li quasi inteiramente como Sorome- 
nho». (Not. Arch. de Port., pag. io5). 

A inscripção foi estampada nas Inscriptiones Hispânia? 
Latince, n.° 2:462, onde se declara que os caracteres são dos 
fins do 1 .° século. 

Assim para nós a authenticidade da inscripção da esta- 
tua de Vianna, e consequentemente a sua antiguidade, é, 
como era, um artigo de fé. Não que acreditemos cegamente 
na infallibilidade de quem quer que seja: não tardaremos a 
ver que é opinião nossa que o snr. dr. Hubner se deixou lo- 
grar em parte pela estatua galaica estranhamente mascarada; 
mas para destruir os resultados do estudo d^m dos pri- 
meiros epigraphistas da Europa, particularmente familiari- 
sado com a leitura dos monumentos romanos, são necessa- 



NATURAES E SOCIAES I 8 ^ 



rias razões solidas e irrefragaveis ( x ), e nós não vemos ra- 
zões, mas affirmativas mais que indecisas, postas a uma luz 
falsa. 

Longe de nós contestar o valor das communicações do 
snr. Figueiredo da Guerra. Na primeira e segunda duvida 
revela-se o espirito sagaz que descobriu pela primeira vez o 
que tem escapado a muito observador, sem exceptuar o sá- 
bio archeologo de Berlim. 

Admittida, porém, a antiguidade da estatua de Vianna, 
e a justeza das observações do distincto académico, o pro- 
blema a formular, se não erramos, é este: como é que uma 
estatua galaica nos apparece com um escudo dos Rochas e 
uma cabeça, cujo capacete pertence á idade média ? 

O enygma, que parece insolúvel á primeira vista, co- 
meça a receber certa luz, se lembrarmos algumas particula- 
ridades, que continuariam a correr despercebidas sem as 
communicações do snr. Figueiredo da Guerra. 

Quanto á cabeça da estatua: entre a cabeça das esta- 
tuas de Montalegre (únicas, que eu saiba, que ainda a con- 
servam) e a de Vianna, ha differenças importantes. N'aquel- 
las o rosto fica descoberto; distinguem-se-lhes, barba, olhos 
e nariz; na de Vianna a cara parece uma mascara (Hubner, 
obr. cit.) Notemos agora que a cabeça da estatua de Vianna 
é separada do tronco, e que, ao collocarem-na de novo, fi- 
cou mal distincta a torques. (Id. ib.) 

Importa pois averiguar se a cabeça da estatua galaica 
não seria substituída por outra. 

Quanto ao escudo: todos os escudos das cinco estatuas 
conhecidas são lisos, com um botão no centro. O de Vianna 
é uma excepção; tem ornatos differentes e estes ornatos sao 
symbolos heráldicos dos Rochas. 

Importa saber se estes ornp^s foram um aditamento. 

(*) É pouco mais ou menos a opinião do snr. dr. Filippe Simões 
(Instituto, n.° cit., pag. 143). 

13 



l86 REVISTA DE SC1ENCIAS 



Se andou aqui a mão cTum falsificador de nova espécie, 
a fraude ha-de ser facilmente descoberta. 

Ainda que houvesse uma rara perícia em adaptar uma 
nova cabeça a um velho tronco, do que nos fazem duvidar 
as palavras já mencionadas acima — ao collocarem-na de 
novo, ficou mal distincta, etc, — onde o falsario ha-de ser ine- 
vitavelmente apanhado em flagrante é no escudo, no qual 
toda a ornamentação em relevo só podia ser operada á 
custa da superfície concava, que elie tinha de alterar e des- 
figurar. 

Podemos affiançar que toda esta fraude está descoberta 
por um cavalheiro de Vianna, o snr. José Caldas, conhecido 
pela sua illustrada e severa critica. 

Eis o que nos responde este cavalheiro a quem pedi- 
mos o favor de estudar attentamente a estatua do ponto de 
vista em que nos coliocamos. 

Quanto á cabeça: 

«A cabeça está segura d'um espigão de ferro, e nem 
pertence ao tronco nem com elle se ajusta e identifica.» 

N'outra parte: ((devendo nós cons ; dsrar a cabeça e a 
cobertura, bem como o plinto sobre que assenta o monoli- 
tho como peças completamente estranhas á edade do tronco, 
as quaes entrariam alli por uma violação qualquer. São 
obra moderna; não são authenticas e desafinam da inven- 
ção typica do tronco.» 

Quanto ao escudo : 

«O tronco é muito mais antigo, e, como já fiz ver, mo- 
nolithico, tendo ajustado ao ventre um escudo ellipsoide ( 1 ). 
Teve o escudo, é verdade, uma facha armada em santôr; 

(*) Outra alteração: todos os outros escudos são circulares. 



NATURAES E S0C1AES 187 



e nas extremidades d'ella estão quatro volumes grosseiros, 
quasi circulares, os quaes seriam arruelas, ou bezantes, se 
no primeiro d'esses disculos, (no primeiro da direita) não 
estivessem as nervuras d'um symbolo heráldico, que a arte 
assigna ao apellido Rocha. 

«Os três restantes são apenas avolumações graniticas, 
sem signaes de lavor; havendo uma (a correspondente á 
parte inferior da facha ou cótica esquerda) em que é impos- 
sível reconhecer a forma escudetica de uma vieira. No en- 
cruzamento d'estas fachas está um grande botão ( 1 ), que 
mede o,o83 de raio por 0,070 de perpendicular, isto é, uma 
circumferencia rectificada de 0,248. Esta desegualdade nos 
symbolos que, para serem originariamente heráldicos deve- 
riam de ser eguaes e uniformes; o facto do escudo ser com- 
pletamente chato ( 2 ) e denunciar por o corte, que fica na 
parte inferior da ellipse, que foi achatado em razão de lhe 
abrirem a facha ou aspa que houvesse de representar um 
certo appellido; tudo junto á circumstancia de não precisar 
a rodela de tão violento sulco para attestar o que era, e ser 
expediente o triste remédio da contornação que todos os ar- 
tistas ignorantes das leis da, boa perspectiva imprimem, 
como toque, nas peças que podem entre si crear confusões 
contrarias á esthetica aos olhos do observador perspicaz; — 
provam, pelo menos em meu juizo, que a estatua, muito 
mais antiga que a heráldica, foi brutal e ridiculamente violada 
por algum fanfarrão.» 

Em resumo: a velha estatua galaica de Vianna foi 
transformada n'um lidador da edade média. Para isso bas- 
tou ageitar uma cabeça coberta de capacete «fechado de 
dupla vizeira e gola,» que se ajustou ao tronco, como pôde. 
O pico e o cinzel fez resaltar no escudo a característica de 

(*) É o botão primitivo, como o teem todos os outros escudos. 
( 2 ) Pelas razões já previstas atraz. 



l88 REVISTA DE SC1ENC1AS 



certo brazão, e o bom do gallego entrou no pantheon d'uma 
família determinada. 

O aphorismo jurídico: is est mi interest acaba o conto. 
Isto salvo meliori juditio. 

Não vemos pois que as estatuas galaicas estejam em 
perigo. Mas esta denominação será rigorosamente justa? 

E' um ponto que nos reservamos para estudar n'outro 
trabalho. 

Guimarães, 1879. 

F. Martins Sarmento. 



A ESTATUA DO PATEO DA MORTE 



Existe em Vianna do Castello, no pateo d'uma casa da 
rua da Bandeira, denominado «o pateo da morte», uma es- 
tatua de pedra, que tem dado que entender aos archeologos. 

A gravura d^ella pôde ver-se nas Noticias archeologi- 
cas de Portugal, por E. Hubner, ou no livro do snr. Fi- 
gueiredo da Guerra, intulado Vianna do Castello. 

O eminente epigraphista allemão, que examinou por si 
mesmo a estatua, assentou que a inscripção, que se vê gra- 
vada no saio, remonta, segundo se infere da forma dos seus 
caracteres, ao primeiro século da nossa era. Escapou-lhe 
porém que no escudo da estatua apparecem insculpidas as 
armas dos Rochas, e que a cabeça da figura está coberta 
por um capacete « de dupla vizeira e gola » — o que nos 
distancia muito do primeiro século. 

Pondo em relevo estas duas particularidades, o snr. F. 
da Guerra abraçou a opinião de que a estatua era relativa- 
mente moderna. Mas, para vingar esta afíirmativa, força 
era destruir a authenticidade da inscripção, e isso é que 
ninguém conseguirá fazer. 

Em todo o caso, a estatua de Vianna tornou-se uma 
espécie de Sphynge, e alguns curiosos houve que pretende- 
ram decifrar-lhe os enygmas. O snr. José Caldas, depois 
d'um minucioso exame, chegou ás seguintes conclusões: i.* 



IÇO REVISTA DE SC1ENC1AS 



que as duvidas quanto á authenticidade da inscripçao não 
tinham fundamento; 2. que a cabeça da estatua (cabeça 
postiça) nunca tinha nascido para o tronco, onde hoje es- 
tava presa por um espigão de ferro; 3.° que o brazão dos 
Rochas fora desasadamente gravado no escudo, deturpan- 
do-lhe a sua forma primitiva muito visivelmente ( x ). 

D^qui nascia a vehemsnte suspeita de que a estatua 
callaica fora transformada, importa pouco com que intenção, 
n'um representante da casa dos Rochas. 

Pouco depois d'estas averiguações, e sem ter conheci- 
mento d'ellas, G. Castello Branco colhia d'uns livros anti- 
gos e das notas marginaes que os acompanhavam algumas 
noticias, que vieram lançar sobre a questão toda a luz que 
poderia desejar-se. 

Segundo estas noticias, o antigo solar dos Rochas fora 
em S. Paio de Monxedo, na quinta da Portella, perto da 
qual havia umas ruínas antiquíssimas. A estas ruínas per- 
tencia sem duvida a estatua, que, diga-se de passagem, é 
idêntica ás duas de Montalegre, hoje na Ajuda, á de S. 
Ovidio (Fafe) e a outras mais, todas encontradas nas pro- 
ximidades d^stações archeologicas. O abbade AfFonso da 
Rocha mandou abrir na estatua as armas da casa, sendo 
provável que também fosse elle quem fizesse ajustar na 
descabeçada figura a cabeça anachronica que ella hoje 
possue. 

Quando muito, depois do anno 1622 os Rochas muda- 
ram a sua residência para Vianna, a estatua veio também, 
o que prova a veneração em que era tida, e não deixa a 
menor duvida de que ella era considerada como o represen- 
tante cPum dos mais illustres antepassados da casa. 

Como se estas curiosidades fossem poucas e pequenas, 

m 

aqui temos outra : a estatua tinha uma lenda. « E tradição 

(*) A deturpação mais visivel se torna, comparando o escudo de- 
formado com os das outras estatuas congéneres. 



NATURAES E SOG1AES [Ç | 



— diz o snr. F. da Guerra— que um antigo senhor d'aquella 
casa, Rocha, fora mortalmente ferido no ventre, quando en- 
trava no pateo; mas, animoso, com o escudo segura as vís- 
ceras, e com a dextra prostra aos pés o inimigo, e que n^esse 
mesmo logar jaziam ambos ». 

Se a tradição não indicasse precisamente o pateo da 
rua da Bandeira como theatro da tragedia, poderia suspei- 
tar-se-lhe algum fundamento histórico, remontando ao pas- 
sado; mas, como ella não tem escrúpulo de nos dar o seu 
heroe passeando em Vianna, no século xvn, d'elmo medie- 
val e armado de rodella e sica, como os lusitanos do tempo 
de Strabão, é evidente que a lenda não passa d'uma pura 
fabula, que se explica facilmente, notando que a estatua de 
Vianna, do mesmo modo que todas as suas parentas, « se- 
gura as vísceras com o escudo», para nos servirmos da 
phrase da tradição, i. é, tem o escudo n'uma posição que 
justifica esta phrase. 

Quer dizer: a lenda nasceu da boa vontade de explicar 
a posição do escudo, nada mais. 

Guimarães, 3 — n— 81. 

F. Martins Sarmento. 



A ESTATUA CALLAICA DE VIANNA 



A estatua da rua da Bandeira pertence ao grupo das 
callaicas ou gallegas, espécie de monumentos funerários que 
nos deixaram as cohortes romanas acantonadas na Gallecia, 
nos primeiros annos da era christã. 

A antiga Gallecia, corrupta depois em Galliza, esten- 
dia-se até ao rio Douro, e comprehendia não só a actuai 
província da Hespanha, mas todo o nosso Minho: somente 
n'esta área se encontram as memorias supraditas, hoje em 
dia tão raras e apreciadas; todas ellas se acham mutiladas 
e iarretadas. 

Temos conhecimento de cinco. 

Duas existem em Lisboa, no jardim botânico da Ajuda; 
foram encontradas no outeiro de Lesenho, em Montalegre, 
no anno de 1785. 

Em Fafe appareceu, ha cinco annos, uma, que creio a 
possue o nosso illustrado amigo o ex. m0 dr. Martins Sar- 
mento. 

Na freguezia de S. Martinho de Britêllo, junto ao rio 
Minho, na veiga do Vão da Lage, perto da capella de Nossa 
Senhora do Rosário, existia uma figura de pedra, sem ca- 
beça, sem mãos nem pés, e com um escudo no peito; os 
moradores do logar lhe attribuiam o milagre de dar sol ou 
chuva. Consta-nos que o abbade da freguezia, o padre An- 
tónio Toscano de Lima, acabou com este abuso. E como? 
Provavelmente destruindo a estatua! 



NATURAES E SOC1AES I () j 



A estatua de Vianna, como as outras congéneres, está 
mutilada de cabeça e pés, e o escudo transformado. 

Nos meiados do século xv, D. Affonso da Rocha, com- 
mendatario de S. Salvador da Torre, e abbade de S. Paio 
de Ameixedo ou Meixedo, mandou abrir no escudo, rebai- 
xando o que a figura tinha no ventre, o brazão dos Rochas, 
que são cinco vieiras ou conchas em santôr. 

Posteriormente, no século xvn, a estatua foi transporta- 
da de Meixedo para o pateo da morte, na casa de Vianna, 
onde se* estabeleceu Francisco da Rocha Lobo. 

Julgamos que o transporte d'esta antigualha para Vianna 
foi devido a que o instituidor do vinculo dos Rochas repu- 
tava que a estatua representava o seu antepassado Martim 
da Rocha, o Cavalleiro, que acompanhou nas suas jornadas 
o infante D. Pedro, filho de D. João 1, e foi mantieiro 
d'el-rei. " 

A cabeça troncada, a cruz do peito, e o sôcco que imita 
uma pia cineraria, e sobre que assenta a figura, desdizem 
do resto da estatua. 

A cabeça está coberta por um elmo da vizeira aberta, 
cujas charneiras ainda se distinguem : tem um buraco que 
devia fixal-a ao tronco, notando-se que tem maior espes- 
sura que aquelle; a cruz que lhe pende ao peito, pela sua 
nitidez relativa, mostra ser da epocha da deturpação do 
escudo. 

Em 1878 tiramos, para enviar para o museu do Insti- 
tuto de Coimbra, um calco da inscripção que se vê no saial 
e coxas da estatua, e que é o seguinte : 

L. SESTI CLODAME 

NIS. FL. COROGGOROCAVCI 

— VDIVS F. SEMRON- 



CONTV. 
FRAT- 



IÇ4 REVISTA DE SC1ENC1AS 



O celebre philologo de Berlim, o dr. Emílio Hubner, 
completa esta legenda do seguinte modo : 

«Luci Sesti Clodamenis filii Corocorocauci Titi Claudius 
Ti. f. Sempronianus Gontubernalis ejus et frater.» 

A leitura da legenda é difficil e trabalhosa, e só depois 
de minucioso exame se poderão reconhecer algumas das 
lettras d^sta espécie de epitaphio. 

Nos antebraços da estatua callaica notam-se umas lar- 
gas manilhas, bem como nos punhos: as mãos seguram o 
escudo que mostra de frente, mas a direita empunha tam- 
bém uma curta e larga adaga ; a cintura do cavalleiro ro- 
mano é cingida por um cinto orlado, que fecha atraz, e pa- 
rece disposto a segurar também o escudo. 

A estatua mede de altura, fora da urna, i m ,65: e de 
largura, nos hombros, o' n ,53. 

O sôcco ou pia funerária mostra um busto em alto re- 
levo, e devia ser achado perto, da estatua; em Meixedo e 
Villar de Murteda abundam os vestígios romanos ; n'essas 
proximidades devem encontrar-se as ruinas de algum cas- 
trum. Contamos verificar isto em breve. 

Com os quatro centímetros do sôcco mede pois a es- 
tatua a altura total de 2 m ,o5. 



1882. 



L. de Fjgueiredo da Guerra. 



ESTUDOS DE FLORA LOCAL 



VASCULARES DO PORTO 



(continuação) 



RANUNCULACEAS 

I RANUNCULUS, L. 

JEC. Lenormandii, Schultz. 
Hab. — Charcos e regatos de todo 
o districto do Porto : Gaya, Val- 
iongo, Paranhos, Matosinhos, etc. 
Peren. 3-9 (v. v.) 

ífc. Peltatus, Schrank. 

S". heterophyllus, Bor. 

Hab. — Aguas correntes e presas: 
Valladares. Peren. 3-5 (v. v.) 

ífc. hololoucus, Lloyd. 

Hab. —Rio Ferreira. Peren. 4-5 
(v. v.) 

R. scoleratus, L. 

Vulg. — Pantalou. 

Hab. — Prados e terrenos húmi- 
dos das margens do rio Douro: 
Avintes, Atães, etc. Ann. 5*9 (v. v.) 



R. t>uplenroicies, Brot. 

Hab. — Montes: S. Pedro da Cova 
e Serra de Vallongo. Peren. 4-5 
(v. v.) 

~R. fXollianus, Rche. 

Hab.— Muros e arrelvados na 
base da Serra do Pilar. Peren. 3-4 
(v. v.) 

R. Henriquesii, Freyn. 

Hab. — Montes e arrelvados : 
Leça de Bailio, Alheira Baixa. 
Peren. 4-6 (v. s.) 

R. fl»t>elltttuí3, Desf. 

7. gregarius, DC. 

Hab.— Montes: S. Cosme, Ponte 
Ferreira, Alfena, etc. Peren. 3-6 
(v. v.) 

R Flnmmiila, L. 

[3. serratus, DC. 
Hab. — Terrenos húmidos de 
quasi todo o districto do Porto : 



196 



REVISTA DE SC1ENCIAS 



Granja, Valladares, Matosinhos, S. 
Gens, Alfena, Paredes, etc. Peren. 
4-8 (v. v.) 

R. ophio^lossifoliuS) 

Vill. 
Hab. — Terrenos húmidos de qua- 
si todo o districto do Porto : Val- 
ladares, Leça da Palmeira, Boa 
Nova, Alfena, Guedixe, etc. Peren. 
4-6 (v. v.) 

R. adscendens, Brot. 

Hab. — Terrenos húmidos e ar- 
relvados de todo o districto do 
Porto: Ramalde, Pedrouços, Val- 
longo, Ermesinde, etc. Peren. 3-5 
(v. v.) 

R. repens, L. 

Vulg. — Botão de oiro. 

Hab. — Prados e terrenos frescos 
de todo o districto do Porto: Gaya, 
Paranhos, Matosinhos, Campanhã, 
etc. Peren. 3-6 (v. v.) 

R. t,**ilot>us, Desf. 

Hab. — Campos e arrelvados: 
Campanhã, Paranhos, Ramalde, 
S. Gens, etc. Ann. 3-5 (v. v.) 

H. parviflorus, L. 

Hab. — Arrelvados: Gaya, S. 
Gens, Ermesinde, etc. Ann. 4-6 
(v. v.) 

R. muricatus, L. 

Vulg. — Bugalho. 

Hab. — Campos e terrenos hú- 
midos: Campanhã, Quebrantões, 
Rio Tinto, etc. Ann. 3-5 (v. v.) 

R. arvcnsis, L. 

|3. Tuberculatus, Koch. 

Hab —Campos: Ramalde, Que- 
brantões, Valbom, etc. Ann. 3-5 
(v. v.) 

R. Ficaria, L. 

Vulg. — Celidonia menor. 
Hab.— Prados e terrenos húmi- 



dos: Gaya, Rio Tinto, Leça do 
Bailio, etc. Peren. i-5 (v. v.) 

1£. ealvliaefolitiM, Jord. 

Vulg. — Celidonia menor. 

Hab.— Prados e arrelvados: Ra- 
malde, Paranhos, Leça do Bailio, 
etc. Peren. (v. v.) 

II ANEMONE, L. 

A. palnaata, L. 

Vulg. — Anémona ; Anemola. 
Hab.— Montes: Alfena. Peren. 
3-5 (v. s.) 

A., altoicla, Mariz. 

Hab.— Montes e prados: Avin- 
tes, S. Pedro da Cova, Leça do 
Bailio, S. Gens, Paranhos, etc. 
Peren. 3-5 (v. v.) 

III CLEM4TIS, L. 

O. vitaltoa, L. 

Vulg. — Vide branca; Sipó do 
reino. 

Hab. — Margem do rio Douro: 
Atães, Cresluma, etc. Peren. 5-8 
(v. v.) 

O. campaniflora, Brot. 

Vulg. — Clematide. 

Hab.— Margens do rio Douro: 
Avintes, Foz do rio Souza, etc. 
6-8 (v v.) 

IV THALICTRUM, L. 

T. glaucum, Desf. 

Vulg. —Rhuibarbo dos pobres. 

Hab. — Terrenos húmidos e mar- 
gens dos ribeiros: Valladares, Avin- 
tes, Leça do Bailio, Alfena, Pare- 
des, etc. Peren. 5-j (v. v.) 

V HELLEBORUS, l. 

H. foetidujs, L. 

Vulg. — Herva besteira. 
Hab.— Terrenos incultos: Gon- 
domar, Ermida. Peren. 12-6 (v. s.) 



NATURAES E SÓCIA ES 



197 



VI AQUILEG1A, L. 

.A., dicliiron, Freyn. 

Vulg. — Herva pombinha ; Aqui- 
legia; Ais. 

Hab. — Lpgares sombrios: Valla- 
dares, S. Gens, Gnjó, Vallongo, 
Recarei, Aliena, etc. Peren. 4-6 
(v. v.) 

VII DELPHINHM, L. 

D. pêro «Ti*i num, L. 

S". cardiopetalum, Lge. 

Vulg. — Esporas bravas. 

Hab — Margens do rio Douro: 
Atães. Foz do rio Sousa, Forno 
da Cal, etc. Ann. 6-9 (v. v.) 

PAPAVERACEAS 

I PAPAVER Tournf 

JP. rhsea», L. 

Vulg. — Papoila vermelha. 
Hab. — Campos: Cabedello, Araí- 
nho, etc. Ann. b-j (v. v.) 

I*. Dufoium, L. 

Vulg. — Papoila longa. 
Hab — Campos: Guinfões, Araí- 
nho, Amarante, etc. Ann. 5-6 (v. v.) 

DP. liyfoi*i<lti m, L. 

Vulg. — Papoila pelluda 
Hab. -Campos: Valbom. Ann. 
4-6 (v. s.) 

II GLAUCIUM, Tournf 



Gr. lnteum, Scop. 

Vulg. — Papoila pontuda ou Cor- 
nalheira. 

Hab. — Areaes marítimos: Cabe- 
dello, Matosinhos, etc. Bisan. ou 
peren. 5-6 (v. v.) 

III CHELIDONIUM, Tournf 

O. Maju&, L. 

Vulg. — Sarada; Celidonia 
maior ; Herva andorinha ; Herva 
das verrup-as. 



Hab. — Muros e bordas dos ca- 
minhos em todo o districto do 
Porto: Gaya, Lordello, S. Gens, 
Campanhã, etc. Peren. 2-5 (v. v.) 

FUMAREACEAS 

I HYPECOUM, Tournf 

M. procumbons, L. 

7. grandifl^rum, Coss. 

Hab — Campos das margens do 
rio Douro : Cabedello, Araínho, 
Avintes, etc. Ann. 3-6 (v. v.) 

11 CORYDALIS. DC. 

C claviculaía, DC. 

Hab. — Sebes: Leça do Bailio, 
etc. Ann. 4-8 (v. s.) 

IH FUMARIA, Tournf 

F. Sfiiesvta, L. 

Hab. — Campos: Cabedello, Araí- 
nho, Perafita. Ann. 2-6 (v. v.) 

JB\ muralis, Sonder. 

Vulg. — ■Filmaria ; Herva mola- 
rinha ; Salta-sebes. 

Hab. — Campos e muros em todo 
o districto do Porto : Gnya, S. 
Gens, Matosinhos, EYmezinde, Val- 
longo, etc. Ann. 2-3 (v. v.) 

JT capreolata, L. 

Vulg. — Fumaria ; Herva mola- 
rinha ; Salta-sebes. 

Hab. — Campos e ribadas (rara): 
Leça do Bailio, Avintes, etc. 4-5 
(v.V) 

BRASSICACEAS 

I RAPHANUS, L. 

R-. Raphani^trum, L. 

Lusit. — Saramago. 
Hab. — Nos campos de todo o 
districto. Ann. 2-10 (v. v.) 



iq8 



REVISTA DE SC1ENC1AS 



II RAPISTRUM, Desv. 

R. rugosnm, AU. 

Hab.— Aforada. Ann. 4-6 (v. v.) 

Ill CAKILE, Tournf. 

C marítima, Scop. 

Lusit. — Eruca marina. 

Hab.— Areaes maritimos. Foz. 
Ann. 5-io (v. v.) 

IV BUNIAS, R. Br. 

13. Erucago, L. 

Var. — cAspera, Retz. 
Hab. -Arainho. Fonte da Vinha. 
Ann. 5-7 (v. v.) 

V ISATIS, L. 

J. lusitaniea, Brot. 
Hab.— Cabedello 4 5. Ann. (y. v.) 

VI BISCUTELLA, L. 

15. la©vig;ata, L. 

Hab. — Quebrantões. Peren. 5-6 
(v. v.) 

VII TEESDALIA, R. Br. 

T. nudicaulis, R. Br. 

Hab. — Campos e montes de todo 
o districto do Porto. Ann. 2-5 (v. v). 

VIII CAPSELLA, Vent. 

O. bnrsa-pastoris, Mnch. 

Lusit. — c Bolsa do pastor. 

Hab. — Terrenos cultos de quasi 
todo o districto do Porto. Ann. 3-8 

(v. v.) 

IX LEPIDIUM, L. 

Xu. lieteropliyllwm, Bth. 
Hab. — Arrelvados : Leça da Pal- 
meira, Boa Nova e Amarante. Pe- 
ren. 4-6 (v. v.) 



Hl. g^raminifolium, L. 

Hab. — Devezas. Peren. 7-8 (v.s.) 

Hj. latifolium, L. 

Lusit. — Herva pimenteira. 
Hab. — Freixo. Peren. 7-8. 

Tu. Draba, L. 

Lusit. —Herva fome. 

Hab. — Arainho. Peren. 5-6 (v. v.) 

H«. ma jus, Darraq. 

Hab. — Serra do Pilar. Peren. 
3-4 (v. s ) 

X SENEBIERA, Pers. 

S. coronopus, Poir. 
Hab. — Cabedello. Ann. 5-6 (v. v.) 

S. cliciyiiia, Pers. 

Hab. — Arainho, Foz, Paranhos, 
Povoa de Cima, Campanhã, etc. 
Ann. 4-8 (v. v.) 

XI GAME LINA, Criz. 

O. silvestris, Wallr. 

Lusit. — Gergelim bastardo. 

Hab. — Arainho de Valbom. Ann. 
5-6 (v. s.) 

XII MALCOLMIA, R. Br. 

M. littorea, RBr. 

Hab. — Areaes maritimos em Car- 
reiros, Matosinhos, etc. Peren. 5-7 
(v. v ) 

M". patula, DC. 

Hab. — Areaes do Douro : Arai- 
nho, Valbom, Foz do Sousa, etc. 
Peren. 5-7 (v. v.) 

XIII SISYMBRIUM, L. 

S. Lagascae, Amo. 
Hab.— Cabedello. Ann. 4-5 (v. s.) 



NATURAES E SOC1AES 



[Ç9 



S. oílicinalo, Scop. 

Hab.— Serra do Pilar, Mente Pe- 
dral, Boa- Vista, etc. Ann. 5-6 (v. v.) 

S. Sopliia, L. 

Hab.— Margens do Douro: Avin- 
tes. Ann. 5-6 (v. v.) 

S. pinnatifiduiin, DC. 

Hab. — Amarante : Serra do Ma- 
rão, Peren. 5-7 (v. v.) 

XIV ERYSIMUM, L. 

E. lini^VL^m, J. Gay. 

Hab. — Margens do Douro: Arai- 
nho, Valbom, etc. Peren. 4-Ò (v. v.) 

XV CHEIRANTHUS, R. Br. 

O. Cheiri, L. 

Lusit. — Goiveiro amarello . 
Hab. — Cult. nos jardins. 

XVI MA.THIOLA, R. Br. 

]>X. íiic*;iii;i, L. 

Lusit. — Goiveirv encarnado. 

Hab. — Nos muros e rochedos: 
Foz. Leça da Palmeira, Villa do 
Conde, etc. Peren. 4-7 (v. v.) 

M. t ris ti és, R. Br. 

Hab.— Nas margens do Douro: 
Arainho, Jovim, etc. Peren. 4-7 

(v. v.) 

XVII BARBAREA, R. Rr. 

B. praecox, R. Br. 

Hab. — Arredores do Porto. Bi- 

san 5-7 (v. s.) 

XVIII NASTURTIUM, R. Br. 

IV. asperum, Coss. 

Hab. — Nas margens do Douro: 
Arainho. Avintes, Valbom, etc. 
Ann. 6-7 (v. v.) 



IV. oíliciíialo, R. Br. 

Lusi t. — c/l grião . 

Hab. — Terrenos encharcados: 
Aforada, Quebrantóes, Matosinhos, 
S. Gens, Rio Tinto, etc, Peren. 3-7. 
(v. v.) 

XIX ARABIS, L. 

A., TJialiana, L. 

Hab. — Serra do Pilar, Arainho, 
etc. Ann. 3-4 (v. v.) 

A. Iiii*su1a, Scop. 

Hab. — Margens do rio Douro: 
Fonte da Vinha, Espinhaço, etc. 
4-5 (v. v.) 

XX CARDAMINE, L. 

O. pratensis, L. 

Lusit. — Cardamina. 
Hab.— Gaya, Leça de Palmeira, 
S. Gens, etc. Peren. 3-6 ^v. v.) 

O. hirsuta, L. 

Lusit. — Agrião menor. 

Hab. — Nos muros e terrenos cul- 
tos e incultos em todo o districto 
do Porto. Ann. 2-5 (v. v ) 

XXI ALYSSUM, L. 

A. campestre, L. 
Var. — Collinum, Brot. 
Hab.— Arainho. Ann. 34 (v. s.) 

A., maritimum Lamk- 

Hab. — Rua da Restauração, Leça 
da Palmeira, etc. Peren. 4-8 (v. v.) 

XXII DRABA, L. 

I>. muralis, L. 

Hab. Serra do Pilar, Arainho, 
etc. Ann. 4-5 (v. v.) 

13. verna, L. 

Hab. — Margens do rio Douro: 
Arainho, Avintes, etc. Ann. 2-3 
(v, v.) 



200 



REVISTA DE SC1ENC1AS 



XXIII COCHLEARIA, L. 

O. Oatiica, L. 

Hab.— No littoral: Castello do 
Queijo, Boa Nova, etc. Bisan, 4-7 
(v. v.) 

XXIV RORIPA, Bess. 

K. pyrenaica, Spach. 
Hab.— Gramide e Valbom. Peren. 

6-7 (v. v.) 

R. naNtui-tioicles, Spach. 

Hab. — Margens do Douro: Avin- 
tes. Bisan. 5 6 (v. s.) 

XXV ERUCÂ, DG. 

E. saliva, Lamk. 

Lusit. — Eruca. 

Hab. — Margens do Douro: Que- 
brantões. Ann. 5-6 (v. s.) 

XXVI SINAPIS 

S. alba, L. 

Lusit — (Mostarda branca. 
Hab. — Terrenos relvosos: Afo- 
rada, Cabedello. Ann 5-7 (v. v.) 

S. ai* venais», L. 

Plab — Campos: Repouso, Arai- 
nho de Valbom, etc. Ann. 5-7 (v s.) 

XXVII BRASSICA, L. 

B. sabularia, Brot. 

Hab.— Terrenos cultos è incul- 
tos: Arainho, Avintes, margens do 
Leça, etc. Ann. 3-6 (v. v.) 

B. napus, L. 

Lusit. — Nabo, Nabiça. 
Hab. — Cultivado nas hortas. 

B. oleracea, L. 

Lusit. — Couve. 

Hab. — Cultivada nas hortas. 



K. psoudo-erucas- 
trum, Brot. 
Hab. — Campos : Quebrantóes. 
Ann. 4-5 (v. s.) 



XXVIII ERUCASTHUM, Spen. 



E. incaanm, Koch. 

Hab. — Terrenos cultos e incul- 
tos: Cabedello, Aforada, Avintes, 
etc. Bisan. 4-7 (v. v.) 



RESEDACEAS 



I RESEDA, L. 



K. media, Lag. 

Hab. — Margens dos campos em 
todo o districto do Porto: Gaya, 
Rio 1 into, Leça do Bailio, etc. 
Bisan. ou peren. 4-7 (v. v.) 

K. Phyteuma, L. 

Hab. — Margens dos campos: Cus- 
loias (rara). Bisan ou peren. 5-j 
(v. s.) 

K. "Virgj-at», Bss. et Reut. 

Hab. — Margens do^Douro (rara). 
Bisan ou peren 5-7 (v. v.) 

K. lutoola, L. 

Lusit. — Lirio dos tintureiros. 

Hab. — Terrenos cultos e incul- 
tos: Aforada, Avintes, Valbom. Ann 
4*9 (v. v.) 



II ASTROCORPUS, Neck 

A. Clujsii, J. Ga'y. 

Hab. — Terrenos seccos de toda 
o districto do Porto: Gaya, Rio 
Tinto, S. Gens, etc. Bisan. ou pe- 
ren. 4-7 (v. v.) 



NATUUAKS E SOCIAES 



201 



CISTAGEAS 

I CISTUS, Tourn. 

O. liii-NutiiN, Lam. 

Lusit. — Saganho. 

Hab. — Montes e margens dos ca- 
minhos em todo o districto do 
Porto: Foz, Gaya, S. Gens, etc. 
Peren. 5-7 (v. v.) 

O. «sal vi se folias, L. 

Hab. — Terrenos incultos: Serra 
do Pilar, Valladares. Serra de Val- 
longo, S. Gens, Matosinhos, etc. 
Peren. 4-6 (v. v.) 

O. orispiis, L. 

Hab. Margens do Douro (raro). 
Peren. 4-6 (v. s.) 

C altoicliis, L. 

Lusit. — Roselha grande. 

Hab. — Terrenos incultos entre a 
Foz do Sousa e Corvoeiro. Peren. 
4-6 (v. s.) 

O. ladanifei-as, L. 

Lusit Esteva 

Hab. — Montes: Baião. Peren. 5-? 
(n. v.) 

Ti HELUNTHEMUM, Tourn. 

H. viilfijíir-o, Gaertn. 

Hab — Terrenos seccos: Serra do 
Pilar, Monte Pedral, S. Gens, Rio 
Tinto, etc Peren. 5-j (v. v.) 

KL v»fifiT>ilo, Amo. 

Hnb. — Terrenos incultos de todo 
o districto do Porto. Ann. 4-7 (v. v.) 

HL gflohularieefolium, 

Pers. 
Hab. — Valladares, Serra de Val- 
longo. etc. Peren. 47 (v. v.) 

H. Tuboraria, Mill. 

Lusit. — -A Içar. 

Hnb. ^Montes: Gaya, Serra de 
Santa Justa, etc. Peren. 3-g (v. v.) 



II. umbellatunif Mill 

Hab. — Montes: Serras de Vallon- 
go e de Santa Justa, etc. Peren. 
3-5 (v. v.) 

II. J^íI>ai»oí ín, Willd. 

Hab. — Areaes do littoral: Esmo- 
riz. Peren. 3-5 (v. s.) 

H. ocynioiíles, Pers. 

Hab. — Montes: Serra de Vallon- 
go, Arnellas, etcc Peren. 5-5 (v. s.) 

U. alyssoi(le«f, Vent. 

Lusit. — Saganho mouro. 

Hab. —Montes e bordas dos cam- 
pos: Villa do Conde, Avintes, Ser- 
ra de Vallongo, etc. Peren. 5-8 
(v. v.) 

VIOLARIACEAS 

í VIOLA, L. 

!V. tricolor. L. 

Lusit. — Flor saraphica. Herva 
da Trindade. ^Amores perfeitos 
bravos. 

Hab —Campos: Areinho. Ann. 
3-4 (v v ) 

"V. odorata, L. 

Lusit — 'Violeta de cheiro. 

Hab. — Terrenos sombrios: Boa 
Vista, Serra do Pilar, etc. Peren. 
2-6 (v. v.) 

V. pnluí-itx-ii-i, L. 

Lusit.- Violetas bravas. 
Hab— Logares húmidos: Avin- 
tes Peren. 3-8 (v. v.) 

"V. silvatica, Fries. 

Lusit — Violetas bravas. 

Hab.— Terrenos cultos e incul- 
tos de todo o districto do Porto 
Peen. 2-4 (v. v.) 

14 



202 



REVISTA DE SC1ENC1AS 



"V. laaeifolia Thore. 

Lusit. — Violetas bravas. 

Hab.— Montes e campos: Vallon- 
go, S. Pedro da Cova, Foz, Santo 
André, etc. feren. 3-5 (v. s.) 

POLYGALACEAS 

I POLYGALA, L. 



DIANTHACEAS 

I SPERGULA, L. 

S. £ii*vooe>ii(s, L. 

Vulg. — Gorga. 

Hab — Montes e campos de todo 
o districto do Porto: Gaya, Para- 
nhos, IV athosinhos, Ermezinde, etc. 
Ann. 3 8 (v. v.) 



P\ iinicrophylla, L. 

llab — Montes: S. Cosme, S. Pe- 
dro da Cova e Serra de Vallongo. 
Peren. 3-7 (v. v.) 

I?. vnljsrari®, L. 

Lusit. — Polygala, 11 erva lei- 
teira. 

Hab. — Montes de todo o districto 
do Porto. Peren. 3-7 (v. v.) 

I*. depressa,, Wend. 

Lusit. — Polygala, Herva lei- 
teira 

Hab. -Montes: Serra de Vallon- 
go. Peren. 4-9 (v. v.) 

FRANKENIACEAS 

I FR1NKENIA 

IT. laovis, L. 

Hab. — Terrenos do littoral, ao 
norte de Espinho. Peren. 6-7 (v. s.) 



II SPERGULARIA, Pers. 

S. Rubra, Pers. 

Vulg.— Gorgão. 

Hab. — Terrenos cultos e incul- 
tos de todo o districto do Porto: 
Gaya, Paranhos, Santo Thyrso, 
Mathosinhos, etc. 5-8 (v. v.) 

S. eapillaeea> Wilk. 

Vuíg. — Gorgão. 

Hab. — Terrenos arenosos: Que- 
brantões, etc. 5-8 (v. v.) 

S. marina, Wilk. 

Hab. — Terrenos do littoral: Ca- 
bedello, Mathosinhos, Labruge, 
etc. Ann. ou peren. 5-8 (v. v.) 

III SAGÍNA, L. 

S. piroetimtoens, L. 

Hab. — Muros e rochedos de todo 
o districto do Porto: Lordello, 
Valbom, S. Gens, Mathosinhos, 
Vallongo, etc. Peren. 3-8 (v. v.) 



{Continua). 



Gonçalo Sampaio, 



BIBLIOGRAPHIA 



Real Associação central da Agricultura portugueza.—- Con- 
gresso vitícola nacional de 1895. Relatório geral. 

Vol. I, 8.° gr., 546 pags- Lisboa, iSg''). 

As revistas da especialidade e a imprensa periódica occuparam-se, 
com desusada individuação, do notabilissimo certamen em que muitas 
centenas de esforços, representando a multiplicidade dos interesses viti- 
vinícolas nacionaes, se congregaram para debaterem os vastos proble- 
mas da replantação das vinhas e do fabrico e conservação do vinho. 
Pela sua significação, pelo acolhimento e attenção do paiz e pelas con- 
clusões obtidas, este certamen representa uma das ultimas e altas ma- 
nifestações da vontade portugueza, do esforço, do trabalho, das mingua- 
das reservas vitaes que subsistem ainda a uma decrepitude resignada 
e geralmente confessada como irreparável. 

Attesta semelhante affirmação o grosso e substancioso tomo que 
nos limitamos a indicar e onde todos — porque a todos cumpre dar fé 
do mais assignalavel problema económico portuguez — encontrarão reu- 
nidos os estudos, os debates e as conclusões procedentes d'uma verda- 
deiramente magestosa reunião de homens cuja occupação a bem dizer 
se encerra n'este elevado assumoto da regeneração viticola nacional. 

Para elle, para o Relatório recem-publicado, é dever chamar a 
attenção publica, já despertada com um interesse pouco frequente a 
quando se reuniram os congressistas. A complexidade do assumpto, a 
variedade das questões que envolve, a latitude com que, na máxima 
parte, foram presentes e discutidas, são obstáculos evidentes para a enun- 
ciação das conclusões, sequer — com mais ponderoso motivo, de simples 
resumos. Indiquemos pois e apenas que o presente volume, ao qual se 
seguirá a publicação próxima do que diz respeito á parte económica, se 



2 0-4 REVISTA DE SC1ENC1AS 



occupa das partes cultural e oenologica ; na primeira trata-se das Castas 
americanas e sua adaptação, dos Viveiros e enxertias, das Plantações 
definitivas e cultura da vinha e, por fim, das Doenças da videira ; a 
segunda diz respeito ao Fabrico e preparação dos vinhos de pasto e 
bem assim dos generosos, terminando pelas 'Doenças dos vinhos. A 
acerescentar ainda uma vasta e interessantíssima demonstração refe- 
rente aos mesmos assumptos e a outros respeitantes á historia do con- 
gresso. 

Está na lembrança de todos que a iniciativa da já histórica reunião 
partiu da ^Associação Central da ^Agricultura r 'Portugue\a (officio ao 
governo, de julho, i8g3; pags. 3-0, do c JR^elatorio); o n.° 8 do VI anno 
(Lisboa, 1894-95) do ^Portugal cAgricola é inteiramente dedicado ao 
congresso — legitima e brilhante homenagem do nosso illustre amigo e 
distinctissimo agrónomo, snr. Achilles Ripamonti — onde, entre outros 
interessantes documentos, são acompanhados de lúcidos traços biogra- 
phicos os retratos das individualidades que promoveram e organisaram 
o certamen, isto é, os membros da mesa da assembleia geral, os re- 
latores das diversas partes tratadas e os directores da Associação pro- 
motora. 

R. P. 



M. Paulino de Oliveira. — Reptis e amphibios da península 

IBÉRICA E ESPECIALMENTE DE PORTUGAL, 8.°, 60 . pags. e n ests- 
Coimbra, 1896. 

O snr. Paulino de Oliveira, publicando este seu opúsculo, tem em 
vista iniciar os amadores e os estudantes de sciencias naturaes nos co- 
nhecimentos fundamentaes da herpetologia ibérica e, principalmente, 
nacional. Adopta a ordem e certa terminologia de Carlet, o auetor do 
livro didáctico tam conhecido, explica a significação do vocabulário in- 
dispensável, apresenta uma bibliographia especial e de interesse para os 
que desconhecem a litteratura herpetologica peninsular e esclarece os 
principiantes nos processos de captura, transporte e conservação dos 
amphibios e reptis. 

Seguidamente, e constituindo a máxima parte do opúsculo, vêem as 
tabeliãs dichotomicas para a classificação, ampliadas, em notas, com 
indicações relativas á distribuição geographica, á frequência, aos no- 
mes vulgares e outras. 



NATURAES E SOC1AKS 205 



Posto que a herpetologia, mercê dos estudos dos snrs. Bocage, Se- 
queira, Lopes Vieira e Bettencourt Ferreira, entre nós, e Bosca, Lataste 
e Bedriaga, no estrangeiro, seja um dos ramos zoológicos mais estudados 
de Portugal, este novo trabalho tem o seu justo valor pelo propósito 
que o dieta. 

R. P. 



Charles Lepierre.— Analcime. Sa gonstitution. 8.», 5 P ags. (Ext. 

do Bulletin de la Société chimique de 'Puris). Paris, 1S96. 

Estudo proficiente e lúcido, dividido em três partes : analyse chi- 
mica, determinação da agua e temperatura á qual ella se separa e sua, 
constituição. Sabe-se que n'este silicato o distinctissimo crystallographo 
e nosso collaborador, Alfredo Bensaude, realisou estudos notáveis que 
deram origem, com outros, á sua luminosíssima explicação de certas 
anomalias ópticas. Foi então Charles Lepierre, o adorável moço tam 
precocemente evidenciado pelas suas raras faculdades de intelligencia e 
labor, quem collaborou, a dentro da sua especialidade, nas primeiras 
investigações do nosso primeiro mineralogista. 

Agora que, da America, surge um estudo sobre a constituição dos 
silicatos e cujos resultados divergem dos obtidos por Lepierre, em in- 
vestigações subsequentes á precedentemente referida, o já notável chi- 
mico e uma das mais validas individualidades no nosso ensino industrial, 
publica, por motivos óbvios, o estudo acima enunciado. 

R. P. 



K/Á 



NOTICIAS 



O MUSEU MUNICIPAL DA FIGUEIRA 



Para completar o que no ultimo numero cresta Revista se disse 
relativamente á dedicação que o snr. António dos Santos Rocha vota 
aos estudos archeologicos e aquilatar-se da sua fecunda iniciativa e ines- 
tancavel generosidade, cumpre- nos reeditar aqui uma noticia bastante 
circumstanciada acerca do (Museu [Municipal da Figueira, do qual o 
nosso dilecto amigo foi o iniciador e é actualmente conservador gratuito 
e o mais prestante auxiliar. O museu foi inaugurado em 6 de maio de 
1894 e a noticia alheia que agora trasladamos refere-se aos meiados do 
anno pretérito, epocha em que, justamente, visitamos pela primeira 
vez o mais alto padrão de gloria do sympathico e generoso trabalhador. 

Entre os objectos, muitos dos quaes se encontram em elegantes vitrines, numa dis- 
posição inteiramente moderna, ha alguns de valor extraordinário, como uma admirável 
ponta de lança triangular, retocada em ambas as faces, feita de silex, com a ponta fractu- 
rada, que mede no comprimento, até á fractura, nada menos de o, m 32; este magnifico 
exemplar é não só o maior da península, mas maior do que a maior lança neolithica exis- 
tente no grande museu de Saint-Germain-en-Laye, e quando completo devia ter o m ,3> j 
dois túmulos, um de telha romana, outro de lage, provenientes do cemitério luso-romano 
da Quinta de Ferrustello (Maiorca), tornando-se muito notável um d'elles por encerrar um 
esqueleto na posição em que foi encontrado; o tumulo-dolmen da Cabecinha, onde se en- 
controu a rica série de pontas de lança e de setta, facas e serras, que se acham alojadas 
em fundo azul na estante n.° 4. 

Como o nosso intuito é rendermos preito e homenagem ao talento e dedicação que 
presidiu á organisação do (Museu (Municipal, e desejarmos tornal-o conhecido dos que o 
não visitaram ainda, estimulando-lhes a sua curiosidade e interesse, vamos enumerar al- 
guns dos seus objectos mais valiosos e mais dignos de meúdo exame, começando pela 

Secção de archeologia prehisstoric» 

Comprehende esta sala os principaes resultados dos trabalhos que o digníssimo con- 
servador do museu, snr. dr. António dos Santos Rocha, tem feito sobre a prehistoria do 
concelho da Figueira e em parte do Algarve: 



NATURAES E SOCIAIS 207 



PERÍODO PALEOUT1IICO — Acha-se representado por um instrumento chelleano 
e diversas moldagens. 

PERÍODO NEOLITI1ICO — Historia do trabalho da pedra, desde o mais rudimentar 
até ao mais perfeito, comprehendendo exposição de martellos ou percutores, núcleos, las- 
cas percutidas, laminas de faca, umas simplesmentes lascadas, outras retocadas, ponções, 
raspadores, retocadores, etc. 

A collecção das peças perfeitas é quasi'"toda proveniente dos megalithos, contendo 
magníficos exemplares de pontas de lança, de setta e de dardo, facas, serras, peças de 
collar, e uma serie de cento e cincoenta machados approximadamente, alguns d'elles de 
dimensões extraordinárias, como um proveniente de Villa Velha de Rodam e outro da Fi- 
gueira. Esta bella collecção é, na sua maior parte, regional. 

Em osso ha uma grande serie de pequenos artefactos, taes como alfinetes de cabello, 
agulhas, restos de manilhas e de pentes, ponções e pendentes de collar. 

Em cerâmica alguns vasos restaurados e numerosos fragmentos~de outros, abrangendo 
exemplares semelhantes aos das bellas louças das grutas de Palmella. 

Muitos fragmentos de esqueletos humanos e restos de comida, offerecida aos mortos, 
com ossos de coelho, boi, porco, etc. ; e diversas moldagens, primorosamente feitas no 
museu da Saint-Germain-en-Laye. 

Pertence também a este período o tumulo- dolmen, de que já, acima falíamos. 

PRIMEIRA EDADE DOS METAES — A este período se attribuem os fragmentos, 
de mós-dormentes para moagem de cereaes, de cerâmica, objectos em chifre de veado, 
collar com seus aecessorios, e objectos metallicos que se acham em uma vitrine especial 
com o numero 10. Uma grande parte d'estes objectos é proveniente dos depósitos de Santa 
Olaia (Figueira). 

EPOGHA LUSO-PHENICIA— Objectos recolhidos na necropole da Fonte-Velha, 
em Bensafrim (Lagos), que são um cippo com inscripção em caracteres ibéricos, contas de 
vidro esmaltado, — restos de ossos humanos e a planta das explorações levantada pelo rev. 
prior de Bensafrim, snr. António José Neves da Gloria ; dois quadros representando os re- 
sultados das explorações feitas em a necropole de Campina, próximo de Faro, resultados 
que por emquanto indicam que pertence á plena epocha do cobre. 

A esta secção segue-se a 

Sala. cie comparação 

por onde se vc a intima affinidade que existe entre grande numero de peças do mobiliário 
do selvagem dos nossos tempos e as do mobiliário do homem neolithico. 

Contém diversos artefactos dos povos selvagens actuaes da Africa e da America, ar- 
tefactos grosseiros fabricados em paizes civilisados, assim como exemplares anatómicos e 
de conchyologia para o estudo do selvagem da idaée da pedra, sendo dignos de particular 
exame, um machado de pedra, ainda hoje usado por certos indios do Brazil, alguns exem- 
plares de cerâmica, provenientes da celebre necropole de Pacoval, lago Arari, ilha de 
Marajó (Amazonas), e fragmentos de louça romana, muito grosseira, que se approxima das 
louças primitivas. 

Em seguida entra-se na 

Secção de archeologia histórica 

EPOCHA PllE-ROMANA — Fragmentos de cerâmica e restos de argamassas, pro- 
venientes dás citanias de Briteiros e do Castro de Santa Luzia (Vianna do Castello). 

EPOCHA LUSO-ROMANA — Esculptura: Dois cippos, ornados com baixos rele- 
vos, figurando um d'elles um pórtico d'ordem jónica, encimado por dois frontões, cujo 
timpano é oceupado por uma rosácea e folhas, tendo no intervallo dos frontões esculpida 



208 REVISTA DE SC1ENC1AS 



uma coroa; busto proveniente das Alhadas. Epigraphia: Urna inscripção encontrada n'um 
penedo da Serra de Castros, freguezia de Maiorca, que diz: VNODE e os dois cippos de 
que jà falíamos. Cerâmica e vidro: Amostras de grande numero de materiaes de cons- 
trucção, telhas, tijolos, manilhas, etc: fragmentos de vasos de todas as dimensões e al- 
guns d'elles restaurados, comprehendendo amphoras, restos de dolios, pesos e alguns vasos, 
com ornatos em relevo, havendo n'esta secção unia bella amphora, quasi inteira, de estylo 
greco-romano, proveniente de Valência dei Cid (Hespanha); urnas cinerarias de barro 
com seus respectivos operculos (tampas), que n'algumas são representados por outros vasos 
invertidos; cimentos, argamassas e mosaicos; amostras de argamassas e mosaicos; amos- 
tras de argamassas e apparelhos de alvenaria romana, incluindo o opus-signinum , eimento 
hydraulico, restos de frascos, restos de mosaicos, proveniente* de Tunisia, Algéria, Algar- 
ve, concelho de Monte-mór-o- Velho e Figueira da Foz, sendo os das duas ultimas loca- 
lidades em calcareo e a maior parte dos outros em mármore; diversos vasos de vidro, taes 
como os da espécie alabastrum e vasos de libações. Metaes : Diversos bronzes, consistindo 
em fibulas, pregaria e fecharia, pontas de lança e restos d'outras armas, bem como facas, 
pregos e chapas de ferro diversas. 

EPOCHA DA INFLUENCIA ÁRABE — Cerâmica: Exemplares de louças com re- 
flexos metallicos; azulejos e outros barros esmaltados de estylo mosarabe; vaso árabe en- 
vernisado e fragmentos d'outros vasos pintados, provenientes de Santa Olaia (Figueira); 
alguidar, restaurado em parte, proveniente do Algarve ; collecção de azulejos hispano-arabes - ' 
EPOCHaS DIVERSAS — Esculptura em pedra: Cabeça pertencente á epocha wi- 
sigotbica; baixo relevo representando um leão, attribuido aos séculos XII ou XIII; baixo 
relevo em mármore attribuido aos fins do século XV; algumas esculpturas attribuidas ao 
século XVI; umas provenientes do concelho, outras de Monte-mor-o- Velho, taes como: 
estatuas, brazões, fragmentos de architectura e baixos-relevos, sendo digno de exame de- 
talhado o retábulo de Seiça, restaurado na Batalha, e que contém, no centro, a Virgem e 
os Doze Apóstolos, com duas pilastras ornadas no género platresco. Esculptura em ma- 
deira: Algumas talhas do século XVI, provenientes do convento de Seiça, tornando-se no- 
tável uma figura de cherubim ; outras provenientes da capelia ou convento de Santo An- 
onio d'esta cidade e uma columna proveniente de Tentúgal. Epigraphia : Uma das lapides 
que D. João IV mandou collocar em diversas villas á lmmaculada Conceição, sendo a ex- 
posta proveniente da villa de iMonte-mór-o- Velho e tendo a data de i646. Cerâmica: 
Hecce-Homo, de barro, proveniente de Hespanha e attribuido ao século XII. Sacra Fa- 
mília, attribuida á escola hespanhola, feita de barro e diversas louças de Talavera de Ia 
Reina, Saxe, Coimbra, Vianna, Inglaterra e China ; numerosas restaurações de vasos attri- 
buidos á epocha de D. João II, fins do século XV. Metaes: Padrão de pesos em bronze, 
de estylo manuelino, tendo a data de H99 ; ferros da picota, de Monte-mór-o- Velho, es- 
tylo Renascença; bacia de barbeiro, em latão, estylo Rjnascença. Carranca de ferro repu- 
xado, de Hespanha; uma ponte de virote \,não vulgar); instrumentos de cirurgia do sé- 
culo XVll, Quudros : Pintura em vidro, attribuido a Albert Durer e proveniente de Hes- 
panha; quadro da escola flamenga, pinturas gothicas em madeira; «Magdalena», pintada 
em cobre, attribuida ao século XIV; quadro de Pedro Alexandrino, representando Nossa 
Senhora do Monte-Carmo, Armas: Espingardas de morrão; bacamartes de abordagem 
em bronze e em ferro; espingardas de fuzil e espada. Tecidos : Tapeçaria de Tavira, grande 
tapete, imitação de Gobellins representando uma paysagem, proveniente da fabrica fundada 
por D. José, perto de Tavira; tapete de Arrayolos ; diversas peças de vestuário, do século 
XVIII c XIX ; exemplar de estamparia ingleza, commemorando a batalha de Trafalgar, 
tendo o busto de Nelson e a nau «Victoria». Adornos femininos: Collecção de leques, 
pentes e enfeites de cabello. Pergaminhos diversos do século XVI, illuminados, salientan- 
do-se o frontespicio do Livro dos Irmãos da Misericórdia de Buarcos, fundada no século 
XVI Numismática: A collecção, que é valiosíssima, foi offerecida pelo rev. abbade de 
Quinehães snr. Fortunato Casimiro da Silveira e Gama. 



NATURAES E S0C1AES 20Q 



A quarta c ultima sala do museu é a que encerra a secção industrial, muito curiosa 
e interessante pois comprehcnde os principies artefactos que o concelho produz. 

Abraçando uma proposta já emittida é nosso voto que a camará 
municipal da Figueira ligue á instituição o nome do seu fundador, de- 
nominando-a (Museu Santos Rocha. 

R. P. 



O MUSEU DO INSTITUTO DE COIMBRA 



Passam três mezes sobre a inauguração das novas installaçÕes 
do Museu archeologico do Instituto de Coimbra, effectuada, com uma 
luzida solemnidade, em 26 d^bril do corrente anno. Aos bons esforços 
de alguns sócios do Instituto e nomeadamente do snr. Costa Simões se 
devem as reformas necessárias para a conveniente e legitimamente ap- 
petecida distribuição dos materiaes que o estabelecimento possuía e 
bem assim dos que, com o desafogo obtido, podiam ser expostos pelos 
seus possuidores. Na impossibilidade d'uma visita que habilitasse a Re- 
vista a dar uma noticia desenvolvida do que o museu encerra, traslada- 
mos os seguintes informes que nos offerece, n'um jornal diário, um vi- 
sitante auetorisado: 

I. a sala (Cosia Simões) — Ha uma notável e importante collecção romana: marcos 
milliarios, inscripções commemorativas e tumulares, fragmentos de pavimento de mo- 
saico, objectos de curiosidade, etc. Entre as lapides notamos sete que foram encontra- 
das em 1773, '774 e 1878, nas ruinas da antiga muralha da cidade, onde haviam sido 
empregadas como material de eonstrucção, e que refutada já como lenda infeliz d'um 
frade bernardo a origem alana de Coimbra, suggeriram a ideia a escriptores d'este século 
(Frei Francisco de S. Luiz e dr. Augusto Filippe Simões), de que aqui fosse outr'ora 
uma povoação romana, por certo a cidade que, no Itinerário de António Pio, figura com 
nome de Eminio. Ha da epocha portugueza documentos notáveis de epigraphia, desde os 
primeiros tempos da monarchia, esculpturas, baixos relevos, fragmentos de deeorações ar- 
chitectonicas, e curiosidades apreciáveis e de grande valor histórico» No centro da sala ha 
uma montra com instrumentos prehistoricos, muito raros e interessantes, offerta feita pelo 
sócio, snr. dr. António dos Santos Rocha, da Figueira da Foz, enthusiasta pelas exeava- 
ções archeologicas. 

2 a sala (Ayres de Campos)-Wi\ abundantes e variados trechos de obra da Re- 
nascença (sec. XVI) — Uma interessantíssima collecção de espelhos de fechaduras e outros 
trabalhos antigos de ferro forjado , de merecimento artístico ou importância histórica — Uma 
quantidade de padrões de azulejos variados e exemplares de vidraria, etc. — No centro da 
s ala vê-se, n'uma vasta montra, uma variada serie de produetos de cerâmica conimbricense, 
curiosíssima, d'uma importância única para a aífirmação das phases porque esta industria 
tem passado desde os princípios do século pretérito. E constituída por objectos pertencentes 
aos fanáticos colleccionadores snr. António Augusto Gonçalves e dr. Teixeira Carvalho.— 



2 IO REVISTA DE SC1ENC1AS 



Em volta da sala ha peças de faiança, de diversos centros de fabricação, muitos dos quaes 
são reputados cm alto valor e estimação. 

A nova installação do museu archeologico de Coimbra deve- se á 
sollicita obsequiosidade e erudita competência do snr. António Augusto 
Gonçalves, actual conservador, e uma das m3Ís sympathicas e lúcidas 
individualidades que a arte portugueza conta na sua limitada ala de de- 
votados. 

R. P. 



UM LABORATÓRIO MARÍTIMO NOS AÇORES 



« A ideia de fundar, em qualquer dos portos de pesca da ilha de 
S. Miguel, um laboratório de zoologia maritima e estação experimental 
de piscicultura annexa, não pôde deixar de receber o applauso de todos 
os amigos da sciencia, pelo interesse especial d'aquella região insular 
sob o ponto de vista da Historia Natural; e a iniciativa particular, que 
aventou o pensamento e lhe garantiu os primeiros elementos de viabili- 
dade, decerto encontrará também o appoio do governo e das corpora- 
ções locaes pela utilidade pi atiça e immediata que de semelhante es- 
tabelecimento resultará para o archipeiago. » 

Assim encetava um largo, erudito e brilhante artigo ( j ) o nosso 
illustre amigo e talentoso publicista, snr. Armando da Silva. Em grande 
parte se deve ao distincto jornalista que, a um tempo, vota um interesse 
muito dilecto ás sciencias historico-naturaes, a creação d'uma estação 
zoológica nos Açores. E grato registrar este facto, talvez único entre 
nós, d'um homem de lettras, já consagrado justamente por faculdades 
que o marcaram com um especial destaque, interessar-se vivamente pelo 
estabelecimento d'uma instituição scientifica de real mérito, installada 
em região onde os serviços e utilidades especulativas e económicas são 
manifestas e desajudada inicialmente de recursos que não fossem os 
bons desejos do iniciador e dos collaboradores que teve a fortuna de en- 
contrar. E assim é que já se obteve um edifício do estado, uma biblio- 
theca muito valiosa, bastante material e a acolheita dos que se interes- 
sam, mais on menos particularmente, por semelhantes trabalhos. 

Tam pouco — o que também é raro e, portanto, para registrar — 
o emprehendimento do distinctissimo amador é despido de qualquer in- 
teresse pessoal : o snr. Armando da Silva não quer a estação para se 

(1) ÍJ\Çovidades de 15 de fevereiro de 1896. Lisboa. 



NATURAES E S0C1AES 211 



collccar e em logar que lhe convenha! Move o, com uma dedicação 
honestíssima e com uma reflectida e ampla concepção, um interesse pa- 
triótico conjugado com a evidente necessidade scientifica. frequente- 
mente proclamada, de estabelecer n'aquella interessantíssima região um 
centro de investigações cujos resultados authenticos e efficazes se podem 
presumir antecipadamente pelo que, do meio açoriano, é já elucidativa- 
mente conhecido. 

Este propósito de Armando da Silva, felizmente não contrariado, 
lembra, pelo seu alto espirito, pelo desinteresse e pelos elevados senti- 
mentos que, desde o comfço, presidem á iniciativa, o emprehendimento 
mallogrado de Mello de Mattos, relativamente a Aveiro e do qual os 
leitores da T^evista teem sufficiente conhecimento. 

Capitulo pittoresco, est'ultimo, para a historia d'estas coisas no 
paiz, quando o desenfado ou causa justificativa decidam, quem isto es- 
creve, a esmiuçal-o em publico. 

Do artigo destacaremos as passagens que se nos affiguram mais in- 
teressantes para a justificação da iniciativa: 

«As condições do meio açoriano augmentam o interesse que a ex- 
ploração dos oceanos, desde as descobertas dos últimos trinta annos, 
adquiriu para todas as sciencias biológicas. Os antigos chronistas insu- 
lanos são unanimes em celebrar a riqueza piscosa das aguas territoriaes 
dos Açores. O padre Cordeiro é até d'uma prolixidade caracteristica- 
mente fradesca na descripção da abundância do peixe nos mares parti- 
culares de cada ilha. 

«A icthyologia é, porém, um dos ramos da historia natural do ar- 
chipelago cujo estudo está mais atrazado. Drouet cita 3i espécies de 
peixes dos Açores apenas, e a sua lista tem sido successivamente repro- 
duzida sem alteração pela maioria dos escriptores que se lhe seguiram. 
Hilgendorf classificou por sua vez os peixes na memoria de Simroth so- 
bre os vertebrados açorianos, mas serviram-lhe de base os espécimens 
do museu de Ponta Delgada, que então, em 1886, formavam já, incon- 
testavelmente, um rasoavel núcleo, mas ainda muito incompleto. A lista 
mais numerosa de nomes vulgares, que existe publicada até agora, não 
vae também aiém de 86, o que demonstra simplesmente que alguns, 
por deficiência da faculdade de distineção dos pescadores, devem cons- 
tituir denominações genéricas, e é claro, além disso, que elles não po- 
dem ser suflicientes, na estreiteza da sua significação local, para eluci- 
dar o naturalista, e nem as suas paragens, hábitos e epochas da desova 
teem sido observados. A baleia e outros cetáceos apparecem lambem 
frequentemente nos mares dos Açores, e sabe-se quanto a osteographia 
dos mammiferos marinhos tem despertado a attenção dos zoologos con- 
temporâneos. A respeito dos animaes inferiores a carência de informa* 



2\2 REVISTA DE SC1ENCIAS 



çóes é a mesma. Os molluscos estão, relativamente, bem estudados. 
Em 1857, Drouet determinou y5 espécies. As explorações do principe 
de Mónaco forneceram a Dautzenberg ensejo de acrescentar a lista ge- 
ral com novas espécies na sua l^évision des mollusques marins des 
zAçores, e ainda ultimamente o snr. Oirard se occupou dos cephalopo- 
des açorianos n'uma monographia especial. O grupo dos crustáceos é 
talvez o que está melhor estudado e conhecido, devido aos trabalhos de 
Th. Barrois. Chavreux, Dolefus e Guerne. No catalogo de Barrois são 
citadas 11 1 espécies. Dos echinodermes possuímos uma lista organisada 
pelo mesmo illustre professor. Sobre as esponjas deve ter sido publica- 
do, na magnifica collecção dos resultados das campanhas da Hirondelle, 
um trabalho de Emile Topsent. Mas as outras classes dos celenterados, 
— até os acalephos, que tão habitualmente matisam com as suas cores 
variadas os mares das ilhas, e os próprios anthozoarios, apezar da ele- 
gância primorosa dos seus ramos, — estão completamente por estudar. »> 

Depois d'este resumo histórico e passando em revista os trabalhos 
realisados nas mais importantes estações marítimas da Europa, o nosso 
illustre amigo passa a explicar a importância económica da estação. 
Um excerpto. 

« E' egualmente fácil de esclarecer a utilidade da estação aqui- 
cola annexa. Ha alguns annos já que os pescadores michaelenses come- 
çaram a queixar-se de que lhes escasseava o peixe, e o facto tem mesmo 
immediata explicação, além de outros motivos secundários, nas modifi- 
cações das costas e na alteração dos fundos, resultantes das grandes 
obras do porto artificial de Ponta Delgada. Na ilha do Fayal idêntica 
causa produziu, da mesma maneira, idêntico resultado. Evidentemente 
se impõe, portanto, e necessidade do repovoamento das aguas jurisdicio- 
naes do archipelago por meio dos processos da fecundação artificial, e 
para isso é indispensável, em primeiro logar, o conhecimento da topo- 
graphia dos fundos, sua geologia, propriedades physicas e chimicas das 
aguas, direcção do vento e da maré, e seguidamente experimentar quaes 
as espécies que convém multiplicar ou adaptar, estudando o seu género 
de alimentação e as suas condições de existência e de reproducção. A 
cultura das aguas doces é também uma tarefa a encetar.» 

A Revista, noticiando a próxima inauguração dos trabalhas scien- 
tificos iniciaes, exprime os seus votos pela prosperidade da estação, tam 
nobremente concebida, tam affanosamente levada a termo, e cujo pro- 
motor tam legitimamente merece as mais effusivas felicitações. 

R. P. 



OS MORTOS 



MARQUEZ DE SAPORTA 



E' tam legitima como enternecedora a homenagem prestada pelos 
geólogos portuguezes ao eminente sábio francez, marquez de Saporta, 
recentemente extincto na sua casa senhorial da Provença e a quem 
Portugal deve um particular interesse e uma sagacíssima oceupação no 
estudo da antiga flora nacional. Em nome duma esclarecida corporação 
scientifica o nosso presado amigo, conselheiro Wenceslau de Lima, abre 
o ultimo tomo das Communicaçòes da direcção dos trabalhos geológi- 
cos, historiando a obra do illustrc pileontologista que. durante vários 
annos, num labor acysolado e ininterrupto, collaborou tão notavel- 
mente no estudo do solo portuguez. 

De ascendência peninsular, marcada n'ella já a tendência para as 
investigações historico-naturaes, o marquez de Saporta reunia, a um 
fogoso temperamento de obreiro, faculdades excepcionaes para os estu- 
dos a que dedicara, enchendo-a, toda a vida. Datam de ha trinta annos 
as suas primeiras publicações geológicas e vêem de longe as relações 
que mantinha com a paleontologia portugueza. Nos últimos cinco an- 
nos, porém, estreitaram-se de tal sorte, que, a bem dizer, os votou 
exclusivamente ao estudo da nossa flora mesozóica. Antes, um outro 
geólogo estrangeiro (Heer) encetara o inventario com estudos parccl- 
lares das floras jurássica e cretacica, principalmente. Dilatando-se, po- 
rém, a área das investigações pela descoberta de novos jazigos, coube 
ao eminente extincto o estudo da opulenta serie dos maleriaes recem- 
colligidos; no ultimo volume publicado,— Nouvelles contributions à la 
flore mésozoique, Lisbonne, 1^94 — determina elle e descreve mais de 
três centenas de espécie?, numero este que constitue uma das mais vas- 



214 REVISTA DE SC1ENC1AS 



tas contribuições europeias para o conhecimento da vegetação da era 
secundaria. 

A homenagem do seu illustre biographo e collaborador já convi- 
dado para ulteriores investigações, é escripta com uma elevação e com- 
petência que ennobrecem os dois, pormenorisando amplamente o alto 
trabalho scientiíico do sábio francez, no que diz particularmente res- 
peito a Portugal. Brilhante, nobre e agradecido, este magnifico tributo 
merecia-c a fidalga physionomia do sábio illustre que a morte colheu 
no próprio dia, no momento em que estudava as nympheaceas — as ve- 
lhas predecessoras da sagrada flor do Lotus! -como radiantemente 
nota quem subscreve o sympathico preito. 

R. P. 



JOAQUIM POSSIDONÍO NARCISO DA SILVA 

1806-1806 



Certo que foi uma vida cheia de serviços á architectura e archeo- 
logía nacionaes a d'este bom velho em quem o respeito pelas antigui- 
dades, os esforços para a sua conservação e a propaganda com o exem- 
plo e a sinceridade, assim resumem, singellamente, a estatura d'esta 
sympathica individualidade portugueza. 

Deve-se-lhe o restauro, a salvação e o conhecimento de muitos 
monumentos nossos e uma vasta obra erudita e de inquérito acerca dos 
despejos históricos legados. A paixão, a caltura obtida em dilatadas via- 
gens e as convivências — as suas estreitas relações com Domingos An- 
tónio de Sequeira, por exemplo — explicam a actividade, o valor e a am- 
plitude dos seus trabalhos. 

Certamente que na obra de Possidonio da Silva se nos deparam 
defeitos de educação, de escolas, do tempo: elle morreu com 90 annos! 
Em nada desmerecem, porém, o seu papel vigilante, conservador, mais 
ou menos justamente interpretativo, as perdas que elle evitou, as ruinas 
a que aceudiu, a fiscalisaçáo que permanentemente exerceu— clamores, 
sequer! —esse apostolado, afinal, a que votou a sua intelligencia e á 
sua energia. 

E d'elle a creação ( 1 863) da ^Associação dos archeologos e, im- 
plicitamente, a organisação do [Museu do Carmo, ou seja o primeiro 
nosso museu de antiguidades nacionaes. 



NATURAKS K SÒC1AES 



215 



Com a biographia do snr. Gosta Goodolphim (Lisboa, 1894) c com 
a promettida conferencia do snr. visconde de Castilho, íica certamente 
traçada, em merecido relevo, essa sympathica figura da sciencia nacio- 
nal. Pormenorisadamente ella dispersa-se nas três series do líolelnn da 
sua c/4 ssociaç ão e nas suas numerosas memorias, das quaes destacare- 
mos as que particularmente importam á Índole d'esta l^evista : 

Mémoire descriptif du Project de la restauration ponr Véglise 
monumentale de 'Belein, a Lisbonne, etc. Lisbonne, 1867. 

Mémoire sur la véritable signification des signes quon voit gra- 
ves snr les anciens monuments du 'Portugal. Lisbonne, i8C8. 

£ Descripçào da lapide que tem uma inscripção romana, a qual 
está exposta na sala de visitas da Bibliotheca Nacional. Lisboa, 1870. 

Sonvenirs du congrès international d ' anlhropologie et d'archéo" 
logie prêhistorique en Bologne (1871). Lisbonne, 1872. 

Notice historique et artistique des principaux édifices réligieux 
du Portugal (Exp. de Vienna, de 1873). Lisbonne, 1873. 

Elementos de archeologia. Lisboa, 1878. 

Notice sur les monuments mégalithiques du Portugal. Paris, 
1879. 

Notice sur la découverte d'une ville romaine en ^Portugal. Pa- 
ris, 1882. 

Communication sur les haches de bronze trouvées en ^Portugal 
{Congresso de Lisboa, 1880). Lisbonne, i883. 

R. P. 



NOTA 



A CAPRIFICACAO 



Depois de impresso o meu artigo sobre a caprificaçáo, 
revendo algumas publicações portuguezas de 1896, li o ar- 
tigo muito interessante QÁ caprificação da figueira pelo snr. 
Francisco Correia de Mello Leotte (Albufeira) nM Agricul- 
tura Contemporânea, anno vi, tomo vi, n.° 8, pags. 3ocj-3i8. 
O assumpto é tratado no ponto de vista da arboricultura 
com maior minudência e mais exactidão que nos auctores 
que citei; mas não ha nenhuma indicação histórica no refe- 
rido artigo. 

F. Adolpho Coelho. 



A Revista tem recebido as seguintes publicações, 
cTalgumas das quaes se oceupará na sua secção biblio- 
graphica : 

Annaes de sciencias naturaes, n.° 3, vol. III. Porto, 1896. 

Archeologo portuguez, n.* s 3-5, vol. II Lisboa, 1896. 

Boletim (ia cAssociação dos archeologos portugueses, n. os 6-7, 3. a se- 
rie. Lisboa, 1896. 

Boletim da Sociedade , de Geographia de Lisboa, n. os 11-12, vol. n. 
Lisboa, 1895. 

Jornal da Sociedade pharmaceutica lusitana, n.° 5, vol. 61. Lisboa, 
1896. 

Portugal zAgricola, n.° 9 do vol. 6.°; n. os 10-11 do vol. 7. Lisboa, 
1896. 

'K^evista de educação e ensino, vol. XI, n. (J • 6-7. Lisboa, 1896. 

Revista Florestal, n.* s 6 e 8, vol. II. Aveiro, 1896. 

Revista de Guimarães, n.° 2, vol. XIII. Lisboa, 1896. 

Revista Juridica, n.° 8. Porto, 1896. 

Revista de obras publicas e minas , n. 0s 3i3 e 3l5, tom. XXVII. Lis- 
boa, 1896 

Anales de la Sociedad espanola de Historia Natural, cuad. 3.°, vol. 
XXIV. Madrid, 1896. 

Revista critica de historia y literatura espailolas, portuguesas è his- 
pano-americanas, n, os 7-8. vol". I. Madrid. 1896. 

cAttt delia Societá italiana di scienzi naturali, fase. 2 *°-, vol. XXXVI. 
Milano, 1896. 

Bulletino dei R. Comitato Geológico d'Italia, n.° 2, vol. Vil. Roma, 
1896. 

Bulletins de la Société d' anthropologie de Paris, fase. 1, vol. VII. 
Paris, 1896. 

c Bulletin du Muséum d'Histoire V^aturelle de Paris, n.° 5, vol. II. Pa- 
ris, 1896. 

La Feuille des jeunes naturalistes, n.° 3io, vol. XXVI, Paris, 1896. 

Mémoires de la Société d anthropologie de Paris, fase. 1. voh II. Pa- 
ris, 1896; 

Revue de 1'École d" Anthropologie de Paris, n.°» 6-8, vol. VI. Paris, 
1896. 

Mémoires du Comité Géologique de St. 'Pétersbourg, n.° 2, vol. XIII. 
St. Pétersbourg", 1894. 

Bulletin du Comité Géologique de St. Pétersbourg, n. os 6-9, vol. 
XIV; n.°» 1-2, vol. XV. St. Pétersbourg, 1895-96. 

Ver/iandlungen der ç Berliner Gesellschaft fúr Anthropologie, Etimo- 
logia und Ui geschichte, n. 08 de fevereiro de 1896. Berlim, 1896. 

Verhandlungen der k. k. zoolo gisch-botanischen Gesellschaft in Wien, 
n. os 5-6, vol. XLVI. Vienna, 1895-96. 



zAbstracis of the proceedings ofthe Geological Society of London, n. oa 

661-62. Londres, 1896. 
Proceedings of the Linnean Society of London, n.° de novembro. Lon- 

don, 1*96. 
List of the Linnean Society of London. London, 1895-96. 
Actes de la Société scientifique du Chili, n. c 4, vol. V- Santiago, 1895. 
^Boletin dei Instituto Geológico de México, n.° 3. México, 1896. 



II II Ml III I I I I It I 111 llll II I I II > I I li I llllll I III III I llll llll I I II I II I II II III II llll I llll III li; II I I I I I I I llt I I I I I II I I I I | | | | || | | || | tllll 



REVISTA 



DE 



Sciencias Naturaes e Sociaes 



PUBLICAÇÃO TÍSJClívSESTIR.AILi 



Condições de publicação 

A REVISTA sahirá regularmente quatro vezes por 
anno, em fascículos de 48 paginas, 8.° 

PREÇOS DA ASS1GNATURA 

Portugal : 

Anno ou serie de 4 números . . . i$200 reis 
Numero avulso ....... 3 00 » 

PAIZES COMPREHEND1DOS NA UNIÃO POSTAL: 

Anno 8 fr. 

Numero avulso. ....... 2 » 

Para os outros paizes que não fazem parte da união, 
accresce o porte do correio. 

A correspondência relativa á administração e redacção 
deverá ser dirigida a ROCHA PEIXOTO, Academia Po- 
lytechnica — PORTO. 



Kíiiíi,i»í!.E,y Avn "nRAm 




3 2044 118 681 881 















DIGEST OF THE 

LIBRARY REGULAT10NS. 


No book shall be taken from the Library without the 
í-ecord of the Librarian. 

No person shall be allowed to retain more than five vol- 
umes at any one time, unless by special vote of the 
Council. 

Books may be kept out one calendar month; no longer 
without renewal, and renewal may not be granted more than 
twice. 

A fine of five cents per day incurred for every volume not 
returned within the time specified by the rules. 

The Librarian may demand the return of a book after 
the expiration of ten days from the date of borrowing. 

Certain books, so designated, cannot be taken from the 
Library without special permission. 

Ali books must be returned at least two weeks previous 
to the Annual Meeting. 

Persons are responsible for ali injury or loss of books 
cbarged to their name. 


1